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A imortalidade não é algo fisicamente possível no nosso plano de existência, mas de forma abstrata, há diversas maneiras de se tornar imortal. Tommy Shelby, por exemplo, nunca teve vida no sentido literal, mas ao longo de seis ótimas temporadas de Peaky Blinders, Cillian Murphy emprestou a sua para ele e o transformou uma figura eterna. Há, entretanto, preços a se pagar por essa imortalidade, dentre eles ficar preso no tempo e tender a virar uma figura anacrônica, apegada demais aos fantasmas do passado. Em outras palavras, em certo ponto da vida infinita, há o risco de se viver apenas um reflexo do que já foi.
Peaky Blinders: O Homem Imortal (2026) é moldado a partir de reflexos: o filho que não consegue transpor a figura do pai; o pai que, incapaz de seguir em frente, estaciona no tempo; e a necessidade dos produtores de reinventar um fenômeno global para uma nova geração. O filme é tão vocal nessa proposta que acaba funcionando, em sua totalidade, como um satélite da série original.

O texto de Steven Knight se esforça para criar imagens impactantes e alegóricas sobre os personagens, manifestando a clara intenção de fazer a obra funcionar por si só. Há, entretanto, uma falta de energia na condução de Tom Harper que deixa tudo estático demais. É a Birmingham da Segunda Guerra Mundial, sob o bombardeio alemão. Naturalmente, um tema denso, mas o diretor não consegue imprimir tensão alguma.
Talvez pela falta de profundidade das imagens, que abusam da tela azul, ou mesmo pela dosagem desajustada de ritmo, a atmosfera não funciona. A trilha sonora está repleta de needle drops que tentam compensar a falta de peso, mas eles também não encaixam bem. No fim, soa como uma tentativa tímida de incentivar edits para o TikTok.

Knight escreveu um thriller denso e classudo sobre um gângster envelhecido, obrigado a voltar à ação para corrigir — ou esclarecer — seu legado. Harper, porém, transformou o material em um episódio de duas horas, pensado sob medida para o público jovem que consome a série atualmente. Dessa forma, o filme imprime a temática na técnica: é a franquia imortal, parada no tempo, agindo como uma figura anacrônica.

O modo mais interessante de encarar O Homem Imortal é como o estudo de personagem definitivo de Tommy Shelby. Essa abordagem do roteiro não foi ofuscada e se mantém potente. É claro que a experiência se fortalece se o espectador possui o conhecimento prévio da série, mas quem ele é, quais são seus valores e quais culpas carrega são elementos cristalinos na trama.
Graças a esse aspecto, Cillian Murphy é o grande Sol que ilumina o filme, enquanto Barry Keoghan e Rebecca Ferguson são quem melhor reflete esse brilho. Quanto ao futuro da franquia, resta saber se os novatos serão capazes de criar luz própria para sustentar a coroa sozinhos.

Em suma, O Homem Imortal basta como uma obra de transição para Peaky Blinders. No embate entre estilo e substância, é um caso onde o primeiro está em falta. Contudo, se não chega a ser um monumento imponente à imagem de Tommy Shelby, o filme ainda atrai interesse como um busto frio e estático de mármore.
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