Estimated reading time: 6 minutos
Cicatrizes em olhos marejados, carregados de um peso insuportável, são portais de sentimentos mais sinceros do que quaisquer palavras. Sentir e fazer sentir é muito mais difícil do que ouvir e falar; por isso, Pela Metade é tão incômodo. Richard Gadd — de Bebê Rena — faz desta série da BBC com a HBO Max a sua própria odisseia da angústia.
Dois irmãos não biológicos são forçados a conviver após a união de suas famílias. Enquanto um é introspectivo e cabisbaixo, o outro é um brutamontes que herdou do pai um instinto de violência primitivo — o mesmo que já o levou à detenção diversas vezes. A convivência parece improvável, dado que o mais agressivo aparenta estar determinado a tirar a vida do outro a qualquer momento. No entanto, contra todas as expectativas, as coisas correm bem por algum tempo, até que uma espiral de escolhas equivocadas os coloca constantemente no limite, forçando-os a tomar decisões ainda piores que destroem, mutuamente, suas vidas.

Pela Metade poderia ser um panfleto sobre a herança da violência, mas sustenta o complexo em algo muito intimista. Estamos diante de uma história sobre o laço traumático entre dois homens que sofrem, cada um à sua maneira, com a prisão autoimposta da masculinidade. Carl Jung definia essa atração disfuncional entre pessoas quebradas através do conceito de “Sombra“. O raquítico Niall (Jamie Bell) é atraído pelo que é reprimido em Ruben (Richard Gadd), pois isso ressoa com algo profundo e não resolvido em si mesmo. O mesmo vale para o sentimento do amedrontador Ruben por Naill; por mais degradada que seja a relação, não há dúvidas de que são dois homens que se amam no sentido mais essencial do termo.
Seria muito mais fácil se eles conversassem sobre o assunto — e esse diálogo até ocorre em determinado momento da série, mas depois de um ponto de não retorno, onde as cicatrizes infligidas um pelo outro já não saram mais. São seis episódios nos quais o espectador é convidado a testemunhar a degradação humana, catalisada por pequenas mentiras convenientes que acabam por se tornar uma farsa de vida de larga escala.
O medo de se molhar acumula a evaporação de várias pequenas poças e, quando menos se percebe, o céu está sendo obrigado a suportar o peso de um oceano inteiro. A água inevitavelmente cairá e todos se afogarão nessa chuva. A história de Pela Metade é conduzida por monstros que se alimentam do silêncio e da covardia de tentar parecer o que o mundo precisa que você seja, e não o que você realmente é.

O elenco transmite a energia pesada dessa repressão de sentimentos de uma maneira até difícil de assistir. O trabalho mais potente é, sem dúvida, o da dupla de protagonistas. Dá para sentir a angústia de Richard Gadd e Jamie Bell em apenas um frame; seus olhares são carregados com o peso de uma vida inteira que poderia ter sido, mas não foi. Em certos momentos, é quase como se eles estivessem pedindo socorro apenas pela postura. É como se quisessem uma interferência divina para que alguém dissesse aquilo que eles jamais falariam um ao outro, apenas para não parecerem frágeis.
E aqui está o grande trunfo do texto de Richard Gadd: ele não é fácil, nem oferece respostas prontas. Seria óbvio demais creditar tudo à violência de Ruben e à sua má influência, mas a conivência consciente de Nail é tão nociva quanto as atitudes do irmão. Esses não são homens essencialmente maus; a pressão os moldou dessa forma — e eles permitiram, é verdade —, mas não há manual de instruções para a vida, algo que a série reitera constantemente. Em dado momento, você se pega pensando no que faria no lugar deles, apenas para perceber que o contexto funciona como uma atração gravitacional para o conflito. Mesmo tentando evitá-lo, você acaba no centro dele.

Os planos, que se fecham sempre em zonas de conflito, são eficientes em transmitir a claustrofobia daquelas situações. Por onde saímos daqui? Como resolvemos esse problema? Tudo parece impossível — até que, de fato, se torna. Em seus primeiros minutos, a série já deixa claro que esta é uma história que termina mal. A partir daí, o público é conduzido por uma jornada dolorosa através de flashbacks que revelam as evaporações responsáveis por formar a nuvem dessa enorme tempestade.
Pela Metade é uma série que arde, incomoda e, acima de tudo, permanece gravada na memória como a marca de uma ferida que insiste em ficar aberta. Ao cruzar a linha de chegada, entrega o impacto seco de um choque inevitável — angustiante justamente por ter sido evitável por tanto tempo. Não espere por aprender algo. O convite aqui é para viver, intensamente, uma jornada sombria sobre as marcas sociais da masculinidade.
Leia também sobre Pela Metade:
- Siga o O Vício no Google e não perca nada sobre Cultura Pop!
- HBO Max divulga trailer de Pela Metade, a nova série do criador de Bebê Rena
- Half Man, nova série do criador de Bebê Rena, ganha título oficial no Brasil






Comentários