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Em anos de evolução exponencial e luta por sobrevivência, é difícil definir a humanidade em poucas palavras; contudo, é possível admitir que a base da nossa existência está nos rituais que criamos para nós mesmos. Pluribus não apenas respeita, como celebra essa ferramenta simbólica, fundamental para a caracterização do indivíduo.
Essa introdução me remete ao final de Better Call Saul, quando Vince Gilligan — já sob o peso das críticas sobre o ritmo de suas séries — recorreu à metalinguagem. Através de personagens estudantes de cinema, ele deixou um recado claro: “respeite o processo“. Esse processo é o próprio ritual criativo de Gilligan, uma herança da TV de outrora que quem nasceu nos anos 2000 talvez nunca tenha experimentado em sua plenitude.

Stranger Things é um fenômeno incontestável, mas nenhum personagem do maior sucesso da Netflix tem o peso cultural de um Dean Winchester. Estive na CCXP25 e testemunhei o poder de Supernatural; é algo que beira a religião. Isso não se resume apenas à qualidade técnica, mas à jornada e à rara oportunidade do público participar dela — de viver o processo, e o ritual, em conjunto.
Pluribus é, para todos os efeitos, um resgate dessa televisão que convida o público a sentir em vez de apenas ouvir. Uma TV que deixa lacunas propositais, convocando quem está em casa a participar da investigação. Aqui, não seguimos personagens perfeitos ou meramente empáticos; em vez disso, aprendemos a aceitá-los em suas falhas — pois são justamente esses defeitos que os tornam humanos e fascinantes.
O fato da série já ser o maior sucesso da história do Apple TV não chega a surpreender. A dúvida real recai sobre o quanto o alcance limitado de um streaming menos popular pode dificultar a ascensão de Rhea Seehorn ao panteão das lendas da TV. A atriz já era extraordinária como Kim Wexler, mas parece ter nascido para interpretar Carol — e, claro, ajuda o fato de o papel ter sido escrito sob medida para ela.
Depois do professor de química desesperado por grandeza e do advogado trambiqueiro movido pelo mesmo desejo, chegou a vez da autora que — apesar do sucesso — é uma grandíssima egoísta frustrada, alcoólatra e profundamente dependente de afeto, assumir os holofotes. E confesso: estou entregue até o último fio de cabelo a essa jornada.
Esta parece ser uma manifestação de Vince Gilligan em favor da liberdade criativa, em uma era em que a indústria nunca falou tanto sobre padrões. É o universo compartilhado, a imagem lavada, as piadas expositivas que dissipam a tensão; um marvelismo cultural que, somado à ascensão das maratonas e dos vídeos curtos, sangrou a cultura audiovisual.
Nesse sentido, há também a retomada de tradições que fazem falta, como o conceito de um episódio piloto que realmente dita os rumos da obra. Essa arte de sintetizar a história e traçar a alma dos personagens em uma hora perdeu espaço para um mercado que trata séries como “filmes longos” — algo que elas jamais foram. Não à toa, Hollywood enfrenta dificuldade para formar novos showrunners: para além da escassez de oportunidades, falta a prática dos rituais que a profissão exige.
Nesses tempos, ouvi que a direção de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022) — que está longe de ser uma maravilha — soava datada, como se estilo fosse um produto com prazo de validade. É a prova de que o mal venceu batalhas importantes: ele viciou o público em um padrão genérico, desprovido de qualquer personalidade.
Pluribus se espelha na complexidade dessa Carol que rejeita o padrão e ensaia um ato de resistência à lógica do streaming. Assim como a sua protagonista, a série entende que faz parte desta nova realidade, que é, inegavelmente, confortável. Afinal, os orçamentos são maiores e as liberdades criativas superam as da TV tradicional. Ela até se esforça para conviver pacificamente com esse mercado, mas jamais abre mão de seus próprios termos: os seus rituais.
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