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Houve algum espanto quando Zach Cregger, uma das vozes mais autorais da geração atual de cineastas, revelou estar trabalhando em Resident Evil (2026). Ele se renderia às franquias tão cedo assim? O que ninguém imaginava na época, no entanto, era que ele conseguiria entregar algo refrescante que fosse ao mesmo tempo estilisticamente fiel à obra original. Na prática, é um filme que desmistifica a ideia de que as franquias sejam um problema para o cinema atualmente, mostrando que o problema mesmo é a preguiça ou a falta de coragem dos criadores em pensar em algo novo.
As histórias de Leon, Claire, Jill e cia. já foram contadas nos jogos, que há décadas são pensados de forma cinematográfica. Em nenhum momento Zach se coloca na posição de alguém que quer reinterpretá-las ou melhorá-las. Pelo contrário. A meta aqui é prestar uma homenagem e se divertir com as possibilidades daquele mundo. Por isso, a história segue uma noite muito ruim na vida de Bryan, um zé-ninguém desprovido de qualquer habilidade de sobrevivência, que age no puro instinto e desespero diante de um caos que jamais imaginava possível.

Bryan é um entregador de material hospitalar que está tentando se apegar a qualquer coisa para adiar uma conversa com a esposa sobre o que fazer quanto à gravidez surpresa dela. Daí surge a fuga perfeita: um frete irrecusável para Raccoon City. O protagonista, que se recusava a crescer e tomar decisões difíceis, agora se vê encurralado por um ambiente do qual não pode fugir. Em parte, é como se o novo Resident Evil fosse uma versão bem macabra de Marty Supreme.
Há mais personagens além de Bryan no longa, mas tudo depende muito de Austin Abrams, que se alça a um status de astro completo pelo que o papel pede. Esse é o terceiro filme de Zach Cregger. A esse ponto, todo mundo já deveria ter em mente que o cineasta, que já foi/ainda é comediante, traz uma assinatura de humor muito forte para o seu horror, de forma que suas obras são simbioses bizarras de medo e riso frouxo. Como o humor não se sustenta principalmente pelo texto, exige muito da fisicalidade dos atores, e em nenhum outro filme de Zach alguém foi mais exigido que Austin. O filme precisava de um rosto convincente e relacionável — afinal, pensa-se no protagonista como um literal avatar do público —, e é isso que Austin entrega.

Esse tipo de filme cheio de jumpscares, onde se ri ao mesmo tempo em que se fica tenso, não é exatamente inédito. Vários outros cineastas imprimiram essa abordagem antes de Cregger — parece até que estamos vendo um novo Sam Raimi nascendo. O diferencial do cineasta de Resident Evil é a forma autoral e refinada como ele pensa a imagem e como essa abordagem é adaptada para cada tipo de obra. A câmera física e ansiosa de A Hora do Mal, por exemplo, agora vira um jogo de perspectivas de primeira e terceira pessoa na ação, onde o escuro e os pontos vazios são sempre ameaças. Essencialmente, esse é o sentimento de se jogar Resident Evil. Você nunca sabe o que te espera pela frente, mas tem noção de que é algo muito ruim. Também não pode voltar. Tudo o que pode fazer é seguir em frente.
Resident Evil confia tanto na própria imagem que você não escuta uma nota sequer da trilha sonora nos momentos mais tensos. Claro, ela existe e está lá como complemento — assim como a mixagem de som, que busca e acentua constantemente sons de sirenes e alarmes nos objetos de cena. Mas o medo no filme está na ausência, no que não se vê. E há cineastas vencedores do Oscar que jamais conseguiriam emular esse tipo de sentimento e tensão sem o auxílio de uma trilha sonora alta.

É reconfortante ver cineastas como Cregger retomando o espírito de um cinema onde nada precisa ser grandioso demais se for divertido.
Sem se explicar ou supervalorizar a própria história, Resident Evil não se poupa da diversão, lembrando à indústria que o cinema permite às histórias irem muito além do texto. Cinema é uma arte sobre imagens que provocam sensações — e, no novo filme de Zach Cregger, essa ideia é uma religião.
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