
Não é preciso nem pensar muito para decidir qual o melhor adjetivo que pode ser utilizado para se classificar Deadpool, o novo filme da Fox estrelando o Mercenário Tagarela mais famoso dos quadrinhos. E essa palavra sem sombra de dúvidas é redenção. E redenção não apenas da própria Fox após entregar o péssimo Quarteto Fantástico no ano passado, mas também do ator Ryan Reynolds, que depois de um Deadpool completamente descaracterizado em X-Men Origens: Wolverine e de uma bomba chamada Lanterna Verde, precisava expiar seus pecados perante os fãs de quadrinhos. E ambos conseguiram cumprir as expectativas. Deadpool é tudo que os trailers já haviam apresentado, traz uma das melhores personificações de um personagem de quadrinhos em live-action, e diverte o espectador do início ao fim em uma história amarradinha que apesar de contar com uma narrativa não-linear, é construída de forma simples. E na verdade, ser simples é o grande trunfo do filme.
Quem é acostumado com os quadrinhos de Deadpool sabe que para curtir o personagem é preciso se desligar de qualquer pré-conceito existente de como funcionam as histórias de outros super-heróis. E isso não apenas pela óbvia irreverência do personagem, mas por um outro ponto que permeia as suas HQ’s e que é o principal fator para gostar de Deadpool: suas histórias não se levam a sério. E no filme, como não poderia deixar de ser diferente, esse tom é definido já nos primeiros segundos da película, deixando claro que – assim como nos quadrinhos – quem for procurar qualquer seriedade pode acabar se decepcionando. Da mesma forma que suas HQ’s agradam a um público específico (o que inclusive faz com que o número de fãs do personagem seja equivalente ao seu número de haters) Deadpool não é um filme para qualquer um. E na sua jornada de ser simplório, não se levar a sério em nenhum momento e fazer piada de absolutamente tudo (inclusive seu próprio orçamento) é que o filme cresce criando sua própria identidade.
Dadas as devidas modificações na origem do personagem, a adaptação é perfeita e extremamente fiel. Reynolds está claramente confortável no papel, fazendo aquilo que faz de melhor: comédia escrachada. É simplesmente o papel de sua vida, e o amor pelo personagem torna sua interpretação tão crível que faz com que o filme seja um daqueles em que praticamente nos sentimos lendo um gibi. Tim Miller (diretor do longa) optou por um interessante método narrativo intercalando a história entre presente e passado, onde já começamos com Deadpool em ação, ao mesmo tempo que vamos aprendendo sobre suas origens em forma de flashbacks. O artifício torna o filme interessante e constantemente em movimento, com quebras regulares que prendem a atenção de forma que uma narrativa linear talvez não conseguisse, já que não existe curva de aprendizado em Deadpool. A simplicidade do longa, ao invés de ser um ponto positivo, poderia acabar expondo um ponto fraco que traria ao filme a sensação de clímax rápido demais. Felizmente não é o caso.

Um dos conceitos mais famosos de Deadpool nos quadrinhos e que faz parte do cerne do personagem é a chamada quebra da quarta parede, artifício onde os personagens dirigem-se diretamente ao público, com pleno conhecimento de que suas ações não são reais e fazem parte de uma obra de ficção. Como não poderia faltar, Deadpool se utiliza da quebra no filme, e conversa com o público em alguns momentos que são muito bem escolhidos e dosados. Aliás, a forma como o filme se segura em alguns momentos mantendo todos os seus artifícios em tela sem qualquer exagero é mais um de seus pontos positivos, pois não existe a apelação que poderia transformá-lo em nada mais do que um típico besteirol americano que faz piada com outros filmes. Deadpool debocha de tudo, desde o Lanterna Verde de Ryan Reynolds ao ridículo Deadpool de X-Men Origens: Wolverine, sobrando até para o astro Hugh Jackman (o Wolverine da franquia X-Men), porém o filme não perde tempo focando nisso, deixando esse tipo de zoeira mais como easter-egg do que qualquer outra coisa.
A participação dos X-Men também é bem pontual, resumindo-se apenas a Colossus (Greg Lasalle, por captura de movimentos) e Míssil Adolescente Megassônico (Brianna Hildebrand) personagem criada por Joss Whedon durante sua passagem em Surpreendentes X-Men. Aqui Tim Miller merece os parabéns, por entregar simplesmente o melhor Colossus que o cinema já viu, e que não lembra nem de longe o apagado Daniel Cudmore nos filmes de Bryan Singer. Colossus aqui é devidamente grande, passa realmente a sensação de ser de metal, e ainda por cima tem um sensacional e caricato sotaque russo. Mas nem só de super-seres vive o filme. Morena Baccarin está muito bem como Vanessa, uma prostituta que se torna namorada de Wade, assim como T.J. Miller se sai bem como o alívio cômico e amigo de Deadpool, Fuinha. O ponto fraco fica por conta dos vilões: Gina Carano como Angel Dust entra muda e sai calada, e Ed Skrein como Ajax é o típico vilão britânico sem profundidade alguma que está ali apenas para antagonizar com o herói sequestrando sua namorada. Porém, o filme faz piada até disso, e quando você lembra que ele não se leva a sério em momento algum, desarma qualquer crítica.
De uma forma geral, Deadpool é um filme com um roteiro simples, porém bem construído, que avança bem rápido para contar a história que havia proposto a contar. Não tenta inventar a roda, mas ainda assim define alguns novos padrões. Afinal, nem sempre um filme de super-herói precisa se levar tão a sério, obrigando seus super seres coloridos a se encaixarem de qualquer forma dentro de um mundo real. Obviamente, a própria persona do Deadpool permite esse extravasamento, mas talvez alguns conceitos precisem ser revistos no mundo dos filmes baseados em quadrinhos, aprendendo que não se levar a sério pode dar certo sim, e às vezes é tudo de que precisamos.





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