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Doutor Estranho no Multiverso da Loucura teve muita expectativa ao seu redor desde o anúncio de que Sam Raimi seria o diretor do longa. Afinal, estamos falando do cara responsável pela trilogia do Homem-Aranha dos anos 2000, filmes que estipularam muito do que vemos hoje no cinema super-heroico. Além disso, o próprio conceito de multiverso, que já vem sendo explorado pelo Universo Cinematográfico Marvel em outras produções, criou um interesse imediato do público, somado à participação da Feiticeira Escarlate no longa, diretamente após os eventos de WandaVision.

Como se só isso não bastasse, após alguns vazamentos de supostos roteiros, criou-se quase que uma lenda ao redor do filme, a respeito das participações especiais com as quais ele poderia contar. Claro que com isso cria-se toda uma inesperada expectativa, que o estúdio obviamente fez questão de alimentar e surfar o máximo possível na onda. Mas isso pode ser uma faca de dois gumes.

Afinal, tanto em conceito quanto em execução, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura acaba sendo um filme bem simples. Não é um definidor de nada, embora apresente conceitos que com certeza irão pautar o UCM daqui para a frente (e que muita gente só vai perceber que essas sementes foram plantadas nesse filme muito depois). Ainda assim, embora talvez frustre as expectativas dos fãs mais sonhadores, o filme é competente em tudo aquilo que se propõe a apresentar e fazer – e convenhamos, ele tem muita coisa a apresentar e fazer.

Talvez por isso esse seja, de longe, o filme mais frenético da Marvel. Dizem que muito disso é devido às refilmagens e remontagens do longa, onde toda a “gordura” foi retirada. Mas o fato é que o resultado foi um corte onde tudo acontece bem rápido, com uma sequência de eventos, um atrás do outro, que mantém o filme inteiro em um ritmo que não se permite respirar. Isso não apenas mantém o espectador o tempo inteiro interessado, como também cria uma boa imersão devido ao senso de urgência que a trama imprime.

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Reprodução/Marvel Studios

Essa trama, aliás, como já havia sido alardeado, conta com muitos elementos de horror, que é onde podemos dizer que Sam Raimi está em casa, afinal estamos falando do idealizador de Evil Dead. Obviamente, não é um filme de terror, e é curioso como alguns ainda tentam se enganar hoje em dia, mesmo 27 filmes e 14 anos depois. Doutor Estranho no Multiverso da Loucura é um bom e velho filme da Marvel em toda a sua concepção. Mas como já citado – e como comprovado em outros filmes do estúdio – isso não quer dizer que não se possa brincar com gêneros, que é justamente o que Raimi faz aqui.

Além de elementos clássicos de filmes de horror presentes a todo momento, o longa carrega homenagens à própria cinematografia de Sam Raimi, como o já citado Evil Dead e Arraste-me Para o Inferno, além de referências gerais a clássicos do horror, como A Noite dos Mortos Vivos. O longa tem um pouco de jump scare, luzes piscando, perseguições desesperadas e até um certo nível de gore que é inesperado para um filme do estúdio. Mas tudo isso temperado com a velha magia já conhecida da Marvel, o que ameniza os elementos de horror.

E Raimi se sai muito bem em reunir o melhor de seus dois mundos: o elegante horror beirando o trash oitentista consegue casar de forma surpreendente bem com a veia super-heroica que o cineasta provou ter na trilogia do Homem-Aranha. Esse casamento deu a Raimi uma liberdade criativa que fez muito bem ao filme, onde qualquer bizarrice que passasse pela sua cabeça poderia ser justificada – afinal, como já dizia Joe Quesada: “É mágica, não precisa ser explicado.”

Defensor Strange na Marvel
Reprodução/Disney

A assinatura de Raimi, aliás – aquela que vai muito além dos elementos de horror que ele tanto gosta –  também se faz presente o tempo inteiro. Do clássico zoom no rosto dos personagens às transições criativas entre as cenas, tudo evoca Sam Raimi, colocando Doutor Estranho no Multiverso da Loucura no seleto hall de filmes da Marvel onde o diretor consegue imprimir identidade e personalidade mesmo dentro das rédeas curtas de Kevin Feige.

Na trama, sem entrar em território de spoilers, temos de maneira central a personagem America Chavez (Xochitl Gomez), que tem a capacidade de viajar pelo multiverso. Esse poder único está sendo cobiçado, o que faz com que ela seja caçada através de diferentes universos, até vir parar no universo regular do UCM, onde vai contar com a ajuda do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) para protegê-la. E mais do que isso seria entregar pontos importantes da trama, afinal, temos também nessa equação o papel da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), que é crucial.

E por falar em Feiticeira Escarlate, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura levantou um interessante debate a respeito de como o Universo Cinematográfico Marvel está começando a ter o mesmo problema que acomete os quadrinhos: acúmulo de cronologia. Isso foi tão debatido que, assim como acontece com tudo que é muito debatido, virou meme. Porém, dentre What If e tudo mais que foi comentado como sendo importante para supostamente “entender” o filme, é necessário dizer que muito disso não passou de um plano de marketing da Marvel – muito bem sucedido, por sinal – para promover suas séries. No fim, apenas WandaVision é importante para um melhor aproveitamento do filme. Crucial, eu diria. Mas só.

Reprodução/Disney

E agora eu quero falar sobre um problema dos filmes mais recentes da Marvel, que é a falta de acabamento visual. Claro que sabemos que a crise global prejudicou muito todo a indústria e especialmente a Marvel, que precisa contar com um calendário muito bem controlado para que tudo faça sentido e que também mantenha o interesse do público vivo. Com isso, adiar mais ainda esses filmes se torna impraticável. Dito isso, assim como o último filme do Homem-Aranha, esse aqui sofre bastante com efeitos visuais (e até práticos) claramente inacabados, e no terceiro ato é impossível não ser “tirado do filme” devido à maquiagem um tanto quanto bizarra de um personagem.

Mas e o futuro do Universo Cinematográfico Marvel? Bem, conforme já dito, embora a princípio pareça que o filme não deu grandes passos em direção à tapeçaria maior do UCM, a verdade é que algo que provavelmente será extremamente importante em filmes posteriores foi plantado aqui – e quem não leu toda a complexa saga de ficção científica do escritor Jonathan Hickman à frente dos Vingadores nos quadrinhos, realmente vai achar que o filme não trouxe nada de importante. Ledo engano.

Por fim, embora Doutor Estranho no Multiverso da Loucura não faça jus a toda a expectativa criada, ele ainda é um filme com bastante personalidade e muita ousadia em tomar certas direções que eu não achei que teria coragem. Além, é claro, de contar com elementos que gritam a linguagem dos quadrinhos e ainda abrir certo espaço para experimentação e surtos de criatividade, como uma certa “batalha sinfônica”. Não é dos melhores filmes da Marvel, mas certamente é o que mais conversa com o fã assíduo de quadrinhos – tanto em fanservice quanto em narrativa.

Nota 8


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