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Em 1965, Duna surgiu como uma das mais relevantes ficções cientificas da história, ao debater com destreza a dubiedade da relação entre religião e poder. O tema era pertinente na época, assim como era muitos anos antes, e, é até os dias de hoje, quando fanatismo religioso ainda motiva conflitos sanguinários, com interesses por territórios e recursos naturais como planos de fundo.

A complexidade de seus temas e a necessidade por um tom visual épico, tornava a obra de Frank Herbert algo muito difícil de se levar aos cinemas, e, mesmo ciente do nível do desafio, Denis Villeneuve teve dificuldade de entregar algo decente na Parte 1 (2021) de sua adaptação, que, quando lançada, sofreu para encontrar seu propósito em meio a seu areal de diálogos expositivos e cenas caracteristicamente contemplativas em demasiado.

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Reprodução/Warner Bros. Pictures

A boa notícia é que Duna: Parte 2 (2024) é um quase total oposto da Parte 1 (2021), e finalmente aborda a essência do material original sob a ótica de grandiosidade que ele pedia.

Em um processo de criação muito mais inspirado, Villeneuve entrega o seu filme de ritmo mais acelerado, com alguns dos planos aéreos mais complexos de sua carreira. Tudo é bem coreografado e registrado, e não importa quantas pessoas estão em tela, sempre será possível entender a ação, o que por mais básico que soe, é louvável na Hollywood de hoje.

Obviamente, não dá para falar sobre inspiração sem destacar os reforços significativos de Greig Fraser e Hans Zimmer, que entregam alguns dos mais belos trabalhos de suas carreiras, como diretor de fotografia e compositor de trilha sonora, respectivamente.

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Reprodução/Warner Bros. Pictures

Embora o roteiro ainda recorra a alguns recursos expositivos, há um trabalho cinematográfico muito recompensador no novo filme, que não subestima a inteligência do público, mesmo quando precisa deixar clara a derrocada de Paul Atreides (Timothée Chalamet) ao egoísmo, ao utilizar Chani (Zendaya) como conflito e agente motivador.

Embora ChalametZendaya e Javier Bardem conduzam o filme com maestria, e Austin Butler ainda some ao elenco como um reforço impactante, é a coragem de Villeneuve em tomar partido e aumentar o tom trágico da história com grandes mudanças envolvendo Chani, que faz da adaptação algo realmente marcante.

Duna nunca foi uma obra sobre um salvador, mas sim sobre o poder destrutivo de um populista egoísta. A história é, em essência, uma tragédia sobre alguém que traiu a todos que ama por medo e vingança. A escolha de como focar na história de amor entre Chani e Paul se torna um grande acerto do diretor, uma vez que isso não deixa nenhuma margem para interpretação contrária quanto ao arco sombrio do protagonista.

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Reprodução/Warner Bros. Pictures

Embora a Parte 1 (2021) de Duna encontre seu propósito anos depois, como uma obra necessária para economizar tempo de desenvolvimento de personagens na Parte 2 (2024), o fato de Villeneuve ter errado uma vez na abordagem da adaptação não é apagado. O diretor, no entanto, teve uma segunda chance de voltar a Arrakis, e, abrindo mão de egoísmo cômodo, aprendeu com os erros e entregou algo finalmente digno do material original.

Duna: Parte 2 (2024) chega aos cinemas em momento pertinente, onde o messianismo atrelado ao populismo é novamente uma grande ameaça em uma esfera bem maior do que a religiosa. Como uma história de vingança trágica, focada em um personagem trágico, o filme se estabelece como uma das ficções científicas mais importantes do cinema em muito tempo, ao debater com personalidade o poder destrutivo do egoísmo humano.

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Nota 9


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