Comentários

Como fã das animações da Disney e Pixar, uma coisa que sempre me foi fascinante é aprender sobre a evolução criativa de um filme ao longo de seu desenvolvimento na pré-produção. Muitos DVDs e Blu-Rays tem material extra dedicado a isso, onde podemos aprender sobre as versões iniciais de clássicos amados como A Bela e a Fera ou Monstros S.A. Descobrimos esse primeiro vislumbre, no qual a ideia central e temas que estariam no filme que conhecemos já existem, mas essa narrativa primitiva frequentemente ainda tem muitas tramas que não dão em nada, faltam conflitos interessante, urgência ou arcos bem definidos ou cativantes. É apenas após muitas revisões meticulosas que a história vai apresentando sua forma cinematográfica adorada.

Frozen II, por outro lado, parece diferente. Eu nunca tive tanto a impressão que estava assistindo uma versão inexplicavelmente finalizada desses primeiros tratamentos de roteiro, antes do árduo trabalho de polimento que faz com que a narrativa alcance a excelência que ela merece.

Faz seis anos desde que o primeiro Frozen se tornou um inesperado fenômeno cultural, maior bilheteria de uma animação de todos os tempos e sucesso avassalador do tipo que uma animação Disney não alcançava desde os tempos de O Rei Leão. O maior destaque do que muitos já arriscam considerar uma segunda Renascença para o estúdio, o filme triunfou em grande parte porque tantos de seus elementos conseguiram conectar intimamente com os mais variados públicos.

Para alguns, foi a pegada revisionista que a Disney aplicou em sua consagrada fórmula de contos de fadas, simultaneamente familiar e refrescante, para outros, foi a narrativa de amor entre irmãs e, para muitos, com certeza foi a rainha Elsa, inegavelmente uma das personagens mais icônicas da década, e sua Let It Go/Livre Estou, canção que foi abraçada por inúmeras óticas, desde manifesto de superação a depressão, até hino LGBTQ. O importante é que foi a música (e filme) definitiva da infância de toda a jovem Geração Z.

Então, tipicamente, a Walt Disney Animation não faz continuações do seu cânone de animações (as infames sequências direto para vídeo que foram uma praga na década passada eram feitas por outro estúdio). As exceções são o esquecido e subestimado Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus, de 1990, e o decepcionante Wifi Ralph, do ano passado. Mas como Frozen se tornou tão grande a ponto de eclipsar a própria marca de Princesas Disney na qual o filme se encontrava, a tentação de uma sequência legítima nos cinemas era grande demais para o rato, então Frozen II chega prometendo ser um sucessor mais épico, sombrio e maduro. A promessa não se cumpriu.

Três anos após os eventos do primeiro filme, a rainha Elsa começa a ouvir uma voz misteriosa a guiando. Ao se entregar a esse chamado, ela acidentalmente acorda antigos espíritos elementais, colocando o reino de Arendelle em perigo. A resposta para restaurar a ordem está na Floresta Encantada, lar da tribo vizinha dos Northuldra, que foi selada por uma neblina mágica após um conflito dos nativos com o povo de Arendelle décadas atrás. Agora Elsa, Anna, Kristoff e Olaf devem viajar até a terra misteriosa em busca do que perturba os espíritos, em uma trama que envolve o passado dos pais de Anna e Elsa e a verdade por trás de seus poderes.

Tem muita coisa interessante proposta pelo filme. Seus temas de contato com a natureza e equilíbrio espiritual remetem mais a Ghibli que a Disney e, enquanto ainda ocidental demais para o cinema contemplativo do estúdio japonês, a animação arrisca uma narrativa mais abstrata, simbólica e ocasionalmente mais sútil do que estamos acostumados. Adicione aí comentários bem-intencionados de pós-colonialismo e reparação histórica, mais toda a expansão de mitologia e temos todas as ideias para não apenas uma continuação digna, mas um ótimo filme.

Mas o roteiro amador para o nível de competência que as produções da Disney – que não são remakes insípidos em live-action – ficaram conhecidas, é o principal inibidor de sua qualidade.

Personagens, conceitos e subtramas acabam jogados e mal estabelecidos, faltam batidas emocionais e de ação e a progressão de tensões e o ritmo da narrativa é tão truncado que até pontos que são tecnicamente explicados, não transmitem a relevância que precisam. Da mesma forma, tem muito lore e worldbuilding que não serve pra muita coisa, exceto, é claro, abrir caminho para mais continuações

A ausência de um vilão tradicional a princípio dá a impressão de um ar sofisticado comparado à narrativa típica Disney, até que você percebe a falta que faz uma figura antagônica direta nessa trama, que dê um necessário senso de urgência maior e ajude a movimentar os arcos dos personagens para frente.

Em suma, parece que falta um bom polimento no roteiro, e a uma hora e quarenta minutos de duração típicos de uma animação não é o suficiente para desenvolver todos esses elementos. Dá a impressão que uns bons vinte minutos de filme acabaram cortados (algo que os trailers parecem corroborar) e o resultado é um filme que paradoxalmente parece que está cheio demais e, ao mesmo tempo, onde muito pouco acontece e acaba rápido demais.

Mas a sua maior fraqueza é aquilo que anteriormente foi sua maior força: a caracterização e a conexão emocional com os personagens. Não há sinal de um conflito interno tão bem estabelecido ou relacionável quanto o primeiro filme. A voz misteriosa que Elsa ouve parece uma manifestação um tanto literal do chamado para a aventura no ciclo da jornada do herói, sem um embasamento forte do que esse chamado simboliza (e um bom lembrete para todos os roteiristas por aí que a obra de Joseph Campbell não é um manual de roteiro).

Existem algumas breves alusões em canções sobre a rainha temer deixar sua vida e família para trás, mas é tudo muito vago, a superfície de um arco interessante com nada por baixo. Especialmente comparado com a poderosa empatia que seu antecessor criava pela personagem logo no começo, usando seus poderes como metáfora eficaz. É claro, sempre tem a possibilidade muito bem-vinda de tirar Elsa desse armário de gelo, o que preencheria o novo filme de significado, imediatamente retificando muitos dos seus problemas, mas a empresa do rato não tem coragem para isso, restando apenas as interpretações mais generosas dos fãs e suas fanfics.

Quanto ao resto do elenco, o filme não tem muita certeza de qual jornada ele quer tomar com Anna. O grande escopo da trama parece sugerir que é sobre a princesa encontrar a própria agência e se tornar independente de sua irmã mais velha, aceitando a inevitabilidade da mudança, mas suas pequenas interações no filme não dão suporte a isso, já que ela sempre age de forma mais madura e sensata que Elsa e, mesmo com a própria música solo, não parece ter sofrido nenhuma grande transformação interna.

Kristoff é resumido a uma única gag de sempre tentar e falhar em pedir Anna em casamento e acaba essencialmente dispensado de maneira forçada na metade, quando o filme oficialmente não tem mais ideia do que fazer com ele.

Já Olaf traz um alívio cômico interessante ao filme, tendo atingido uma espécie de adolescência precoce, onde sua curiosidade se manifesta em um existencialismo excêntrico que é bem diferente do tipo de humor que a Disney está habituada.

O maior alento do filme é o punhado de sequências musicais e de ação impressionantes, com algum dos mais incríveis exemplos de animação em CGI já feitos. Cenas que como clipes, serão vistas individualmente no Youtube gerando milhões de visualizações, mas cujo contexto realmente não faz jus ao espetáculo (a cena final seria uma das melhores da história da Disney se o arco que a precedeu fizesse jus a ela).

Enquanto é fácil argumentar contra uma continuação de Frozen por essência e encerrar com alguma frase de efeito boba que a Disney devia simplesmente “let it go” a franquia ou coisa do tipo, o projeto era de potencial inegável, mas apesar dos seis anos de distância do seu antecessor, tudo parece apressado. O resultado é um filme que deve receber muita passada de pano indulgenciada pela boa vontade do público graças ao original, mas que ao fim não consegue realmente aprofundar a conexão com os personagens que o mundo se apaixonou em primeiro lugar. Ou seja, pode reacender o desejo de produtos licenciados agora, mas não consegue reforçar a marca a longo prazo.

E falando a linguagem da Disney atual, isso simplesmente não são bons negócios.

Positivo
  • • Sequências de ação e musicais visualmente sensacionais
  • • Uma tentativa de uma continuação mais madura e sombria...
Negativo
  • • Uma TENTATIVA.
  • • Um roteiro enrolado e confuso que não tira proveito dos seus melhores conceitos.
  • • Desenvolvimento de personagem vago e superficial que não faz jus à força do primeiro filme
Nota 6010
Crítica | Frozen II



Comentários