Comentários

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Em uma era onde tudo parece estar se repetindo, George Miller ousa mudar seu ritmo característico em Furiosa: Uma Saga Mad Max (2024), mas sem fugir do seu timbre.

Analisar Furiosa (2024) como um estudo sobre a brutal natureza humana e sua capacidade de se adaptar ao caos seria tocar um disco repetido, uma vez que esse é basicamente o resumo de todos os filmes de Mad Max.

No filme estrelado por Anya Taylor-Joy, você assiste George Miller mais uma vez botando pessoas para correrem atrás de um caminhão. O foco, no entanto, se volta para outro norte, a cultivação de um sentimento humano poderoso e destrutivo: o ódio.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

O cultivo do ódio em Furiosa (2024) é lento e, de certa forma, melódico, pois o diretor entende que não há como cultivar tal sentimento tão profundamente sem trabalhar bem com seu grande opositor: o amor.

O amor de mãe, a paixão entre amantes, o afeto de um pai, tudo isso é combustível para a tragédia que Miller entrega para o público, sob o olhar penetrante de Anya e da jovem e talentosa Alyla Browne, que funcionam como a grande potência desse novo espetáculo visual de Wasteland.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Se há potência na performance incrível das atrizes, é graças à forma como Chris Hemsworth alimenta o ódio no filme, com seu interessantíssimo Dementus.

Alimentado pela dor de uma grande perda, o vilão é uma figura trágica afogada no desengano, que se sobressai como sobrevivente por entender que não tem mais nada a perder.

O desengano, entretanto, faz Dementus tirar de Furiosa tudo o que um dia também foi tirado dele, e toda a saga de 15 anos da guerreira do deserto é motivada por uma complexa e praticamente imparável cadeia de ódio.

Se Anya Taylor-Joy é vibrante como uma corda de guitarra, Chris Hemsworth dita o ritmo como uma barulhenta e cadenciada percussão. Juntos, são coração e sangue, motor e combustível, engrenagens e óleo. Enfim, o par que mantém o filme rodando.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Quando o assunto é ritmo, Furiosa (2024) está para Estrada da Fúria (2015) como “Living Bad Dreams” está para Painkiller, do Judas Priest. Um B-Side escondido por 10 anos que faz perfeita contraparte às faixas originais barulhentas e aceleradas do disco.

Sim, este filme é mais lento, e sim, você vai sentir às 2 horas e 28 minutos, mas isso também não quer dizer que há cenas em vão.

Se por algum momento você se deixar trair por suas expectativas e se desligar do filme, talvez a obra não funcione perfeitamente, já que é preciso estar integralmente ao lado daqueles personagens para imergir na proposta de Miller.

Fato é que, uma vez imergido, todo que é tangencial, inclusive os efeitos especiais, fica para último plano, pois as pessoas em tela importam e a ação nos faz temer pelos destinos delas.

É plausível dizer que a poeira real em frente a câmera faz falta, mas o velho Miller das cenas aceleradas, do close em zoom na ação e na expressão dos atores, está lá, e em grande estilo.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Para um filme sobre vingança repleto de cenas pesadas e com uma mensagem sobre desesperança, Furiosa (2024) tem muito de lindo a mostrar ao público, e não estou falando só da fotografia vívida sobre morte deste épico impressionante.

Para contar sua praticamente literal história sobre o cultivo do ódio, George Miller imprime em tela uma ode ao cinema de gênero, que toca forte o coração dos fãs desse tipo de arte.

Furiosa: Uma Saga Mad Max (2024) é, acima de tudo, o bom e velho cinema de gênero em grande estilo, respirando a plenos pulmões sob a jovem e saudável visão artística de um senhor de 79 anos. Ante a realidade atual de Hollywood, o que poderia ser mais lindo que isso?

Leia também sobre Furiosa

Nota 10