Quando questionado sobre os motivos para produzir Gladiador II (2024), Ridley Scott afirmou, com sua habitual franqueza, que a decisão foi motivada por fatores financeiros. Bem, eu não acredito que tenha sido apenas o dinheiro que tenha motivado o diretor, mas sim a necessidade ególatra de mostrar para todo mundo que ele é capaz de atender aos padrões atuais de blockbusters de Hollywood fazendo algo melhor com suas próprias criações. Sob essa perspectiva, o lendário cineasta não poderia ter sido mais bem sucedido em seu bom novo filme.
Embora sua postura algumas vezes diga o contrário, Ridley Scott não precisa provar nada a ninguém. Sua capacidade de criar épicos e brincar com as possibilidades da ficção gerou muitos momentos clássicos para a história do cinema, e Gladiador II (2024), como não poderia ser diferente, transcende essa veia artística.

A escala do filme é gigante e potencializa as sequências de ação pretensiosas, que por si só poderiam ter ficado truncadas pelo excesso de cortes. Além disso, os visuais são funcionais para agregar contraste à fotografia que, embora auxiliada por recursos digitais mais aparentes do que deveriam, reforça a mensagem que o filme pretende passar.
Perceba que a ambição por poder está proporcionalmente ligada ao quanto de dourado vemos em tela, enquanto a discordância e ruptura pelo modelo atual de governo estão representados pelo preto do luto, destacado pelos detalhes em prata. Há ainda os anéis como representação de linhagem e conquistas. Quanto mais se tem nos dedos, mais aquele personagem passou por cima de pessoas para chegar onde está.

Há uma sagacidade política interessante no roteiro assinado por Peter Craig (Top Gun: Maverick) e David Scarpa (Napoleão), que conecta a história do filme ao contexto global atual de nações divididas e líderes loucos e pouco capacitados levando impérios à ruína. No entanto, a mensagem que pretendia ser sobre o poder unificador do povo para se rebelar contra tiranos acaba se perdendo em meio a uma trama básica de vingança, que não resiste à tentação de encontrar refúgio em um salvador da pátria deus ex machina.
Assim como qualquer outro blockbuster padrão de Hollywood, Gladiador II (2024) é pouco original e parece evitar um aprofundamento em seu aspecto político, abordando o tema de forma tangencial e esquivando-se completamente dele na metade do filme. A partir daí, transforma-se em um pastiche megalomaníaco de ação sobre o Império Romano, sustentado por conveniências forçadas e, por vezes, constrangedoras.

Isso é ruim? Não necessariamente. Sequências grandiosas, como a da batalha naval do coliseu, ainda são muito divertidas de se assistir. Além disso, há uma força considerável no elenco liderado por um carismático Denzel Washington, que em cena é magnético ao ponto de melhorar exponencialmente os desempenhos de seus companheiros.
Pedro Pascal não está muito diferente do que já conhecemos dele, e o texto definitivamente não ajuda sua performance. Mesmo caso de Paul Mescal, que não parece tão convincente como astro de ação como Russell Crowe. Para o azar do jovem, a sequência faz questão que o público faça essa comparação, uma vez que volta constantemente ao filme original com exageradas sequências de flashback.

Tão bem quanto Denzel, entretanto, estão Joseph Quinn e Fred Hechinger. O trio carrega o carisma inteiro do filme, que também sofre para gerar alguma comoção por seus personagens principais de desenvolvimento apressado.
A aposta do frágil roteiro de Craig e Scarpa é de que o público vai se conectar com Lucius pela lembrança do primeiro filme, e isso os leva a abdicar de trabalhar esse elo no presente. Infelizmente não dá resultado.

Em saldo geral, Gladiador II (2024) é um filme divertido, que funciona principalmente como um grande espetáculo por sua escala gigantesca e suas performances carismáticas. No entanto, assim como quase toda a Hollywood atualmente, é uma obra que se prende ao passado.
Esta sequência seria feita mais cedo ou mais tarde. De todo modo, duvido que seria sequer sombra do que é o original. É muito nobre e sagaz que, ao saber dessa realidade inevitável, Ridley Scott se dispôs a provar que se alguém iria reinicializar a franquia para fazer disso uma espécie de Velozes e Furiosos no Império Romano, não tinha razão para não ser ele mesmo. O cinema ganha com isso.
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