Mesmo sendo mais sombrio do que a maioria dos filmes da Marvel Studios, Guardiões da Galáxia Vol. 3 responde à melancolia de Blade Runner de forma linda e otimista, ao discutir sobre a vida, seu propósito e as várias figuras culturais de Deus.
O mais novo filme de James Gunn faz isso sem apelar para muita complexidade, mantendo a identidade da franquia que é marcada pela química entre seus personagens, e também por contar histórias divertidas.

Sendo assim, o humor caraterístico dos Guardiões permanece intacto, as músicas que impulsionam as cenas de ação ainda estão lá, assim como os momentos de dança. Porém, tudo está sob uma ótica mais melancólica, que se faz evidente desde o primeiro frame do filme.
Primeiro frame este, que deixa claro que Rocket é o coração da nova aventura do grupo mais desajustado da galáxia, e por isso o tom fica tão pesado quanto foi o – apenas sugerido nos filmes anteriores – passado dele .
No filme, o público é levado ao horror e às lágrimas com o passado do personagem de Sean Gunn e Bradley Cooper, que estabelece o Alto Evolucionário como o vilão mais desalmado e puramente mau do MCU.
A Marvel, que se acostumou a trabalhar com vilões em tons de cinza, achou na atuação de Chukwudi Iwuji uma figura completamente diferente disso, capaz de envolver o público de diferentes maneiras com sua postura detestável.

Graças a esses elementos, o passado de Rocket é de fato o grande destaque do filme, tanto positivamente, quanto negativamente.
Positivamente, pois, todas as discussões filosóficas que Guardiões da Galáxia Vol. 3 se propõe a fazer saem de lá. Negativamente, pois ocasiona em uma montagem mal resolvida.
Tal qual Avatar: O Caminho da Água, o filme deixa aparente que bastante material teve que ser deletado para que sua duração não fosse mais longa do que é. Isso ocasiona algumas transições confusas, assim como algumas músicas não tão bem-inseridas quanto deveriam. Tudo isso acontece devido a necessidade de espremer os flashbacks do passado de Rocket entre os eventos da trama no presente.
Felizmente, essa imperfeição não é algo que tira o foco do filme, pois o motivo de ela existir acaba fazendo valer a pena o sacrifício de não ter algo bem-estruturado em tela. Além disso, a forma como James Gunn mantém o público preso no clima denso de perigo iminente, faz com que isso seja tranquilamente ignorado no final.

A montagem não é o único problema de Guardiões da Galáxia Vol. 3, que até seu ato final, não acha uma boa função para Adam Warlock. O personagem de Will Poulter até participa de um ato fundamental na abertura do filme. Porém, além de ter ficado sem muita utilidade depois disso, qualquer outro poderia ser responsável pelo que ele fez.
Se Gunn sofreu para dar uma boa trama para Warlock, o mesmo não aconteceu com os outros personagens, que individualmente têm seus momentos de brilho.
A forma como o roteiro trabalha dinâmica de grupo é muito competente, pois respeita completamente as caraterísticas de seus personagens. Cada um deles se destaca por motivos únicos, que são muito bem-especificados em tela.
Outra coisa que o roteiro trabalha muito bem é a dosagem de humor, que se faz presente de forma certeira entre os diálogos mais pesados e filosóficos, envolvendo criação e interferência humana nas formas de vida.

Um desses diálogos, remete a – já citada nesta crítica – resposta otimista ao final de Blade Runner, onde a vida e as mémórias são tratadas com a insignificância de lágrimas derramadas na chuva.
James Gunn, colocando muito do seu coração na escrita, reforça em Guardiões da Galáxia Vol. 3 que, independente de quem nos criou, ou para o que fomos criados, o importante da vida é viver nossa jornada ao lado das pessoas que amamos.
Isso pode ser interpretado de diversas maneiras, uma delas – talvez a principal, remete diretamente a aquele grupo de pessoas que, tanto de frente quanto por trás das câmeras viveram coisas incríveis juntos por 10 anos, ao lado do público, claro.
Quando se despede dos Guardiões, Gunn se despede de grandes amigos com quem viveu céu – com o sucesso estrondoso do filme de 2014 – e inferno – com sua demissão em 2018.

Gunn faz isso ao seu modo, remetendo muitas vezes às suas origens no “cinema Troma“, em uma obra que permeia tanto limite do PG-13, que você até se questiona como a Marvel permitiu que fosse possível.
Como resultado disso, temos um filme que difere muito em tom de sua própria franquia, sendo divertido, sombrio, gore, emocionante e extremamente violento com suas cenas de ação esplêndidas.
Ver todos esses elementos em tela de uma vez pode até soar como bagunça, mas é a forma como uma das mentes mais brilhantes e perturbadas de Hollywood imprime sua personalidade, em uma obra que foge completamente do padrão artificial que alguns filmes de super-heróis vem seguindo nos últimos anos.
Muita da personalidade de James Gunn está impressa nessa franquia, que será reformulada após a saída do diretor. Para quem for assumir Guardiões da Galáxia no futuro, muita sorte, pois vai precisar.

Sem entrar na discussão de se é o melhor ou não da franquia, Guardiões da Galáxia Vol. 3 não é mais do que precisava, nem menos do que deveria ser. É a despedida perfeita para o grupo original, que deixa um recado para Hollywood: Não importa de quem são os personagens, nem por qual intenção real eles estão sendo levados aos cinemas ou para a TV, o importante é que eles emocionem e envolvam o público com boas histórias.
Leia mais sobre Guardiões da Galáxia Vol. 3:
- Siga o O Vício no Google Notícias e não perca nada sobre Cultura Pop!
- Guardiões da Galáxia | Todas as músicas da franquia
- Guardiões da Galáxia Vol. 3 | Saiba como são as cenas pós-créditos






Comentários