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Heróis em Crise acabou este mês no Brasil. Neste post discutimos um pouco sobre alguns fatores editoriais e narrativos da minissérie.


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Sempre quando um roteirista se torna muito popular, como é o caso de Tom King, logo ele é escalado para alçar voos maiores dentro de uma editora. Mas Tom King já tinha sob suas asas o título mais popular da DC Comics, que era Batman. O que mais ele poderia querer/ Uma minissérie que redefinisse o Universo da DC Comics, talvez. E foi assim que Heróis em Crise foi vendida, como mais uma daquela sagar definidora, ou como você quiser, redefinidoras do multiverso. Era uma das tais Crises, afinal.

Mas, na verdade Heróis em Crise não foi isso. Heróis em Crise foi um reflexo de uma crise, certamente, e que se abatia sobre os heróis. O problema é que essa crise não acontecia dentro das histórias da minissérie, mas sim fora dela. Se os heróis sofriam de algum tipo de stress pós-traumático que precisavam encaram um Santuário onde faziam terapias cognitivos-comportamentais observando e conversando consigo mesmos, esse stress era terem sido manipulados por outros num caos sistemático que foram os últimos reboots da DC Comics.

O próprio Heróis em Crise traz esse caos sistemático em que a DC Comics enfiou os seus personagens. Tom King faz muito bem colocando os personagens em um layout de nove quadros, prendendo-os em confessionários estilo Big Brother para declarem suas aflições para si mesmos. Encarar a si mesmos, como espelhos retorcidos, faz parte de muitas terapias psicológicas, como por exemplo o psicodrama. Psicanalistas dizem para seus pacientes encherem suas casas com espelhos para que os suicidas desistam de suas ideias de por fim em suas vidas. Mas quando se encara um espelho e parece que o espelho é uma imagem muito melhor do que jamais seremos?

Foi o caso que aconteceu com Wally West, o Flash, que estava no Santuário para tratar a perda de sua família – a mulher, Linda e os filhos Jay e Iris, – que existiam junto à sua versão de dois reboots atrás. Foram apagados da realidade, aparentemente pelo Doutor Manhattan. Só que aqui o Doutor Manhattan serve como uma metáfora para os escribas e editores que maltrataram os personagens. Quando Wally olha para si mesmo e vê um defeito no que ele é hoje é uma metáfora para os leitores observando seus personagens – com exceção de alguns poucos – se desfigurarem por falta de planejamento editorial.

Os próprios personagens escolhidos por Tom King para colocar fazendo declarações no confessionário do grid de nove quadros são personagens descartáveis, que os criadores e editores costumavam fazer gato e sapato. Outros como Hot Spot e Protetor foram criações do próprio King para demonstrar personagens restolhos. Gaio e Gládio foram, por anos, os personagens da Liga da Justiça que se foram para nunca mais retornar. O Garoto do Lago e Solar são dois membros dos Novos Titãs bastante obscuros que ninguém nunca se importou. O Tatuado foi manipulado de uma maneira semelhante em Crise Final. E assim vai.

O que me parece é que, no frigir dos ovos e no passar dos tempos, pouco vai ser lembrado de Heróis em Crise como um megaevento ou uma maxissérie. A HQ vai ser lembrada da mesma forma que Crise d Identidade é lembrada hoje em dia: como um interlúdio. Como algo que esteve no caminho dos super-heróis da DC, lidava com seu passado, mas somente numa análise macro do cenário ele vai fazer sentido e não pela história confeccionada dentro deste escopo. Isso está sendo comprovado com os efeitos de O Relógio do Juízo Final e da minissérie Flash Forward, sem revelar demais spoilers.

Você pode adquirir o encadernado de Heróis em Crise neste link.

Guilherme "Smee" Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, redator e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. Entre seus quadrinhos publicados estão Desastres Ambulantes, Sigrid, Bem na Fita e Só os Inteligentes Podem Ver.


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