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Embora tenha estreado nos EUA em outubro do ano passado, Amor e Monstros chegou apenas recentemente ao Brasil, como um original Netflix. E é mais um daqueles casos que comprovam o poder da Netflix em criar um hit, como aconteceu há pouco tempo com a série Cobra Kai, que já havia estreado duas temporadas dois anos antes como um produto original do YouTube, mas que só alcançou um sucesso estrondoso ao ser disponibilizado na Netflix.
No caso de Amor e Monstros, isso foi o suficiente para colocá-lo em primeiro lugar no TOP 10 de mais assistidos da plataforma de streaming no país. Reflexo de um público consumindo cada vez mais produtos de streaming em um cenário de isolamento social onde o entretenimento vai se tornando escasso? Pode ser. Mas não deixa de ser interessante observar como isso reflete na percepção positiva do que é assistido.

Eu sei que falando assim parece até que Amor e Monstros é ruim, e realmente não é esse o caso. É só um devaneio aqui de como o cenário “streamings + isolamento” demonstra que a forma como você consome o produto pode sim influenciar na forma como ele vai ser encarado. Dito isso, Amor e Monstros é até hábil em lidar com todos os clichês e repetições que vem no pacote. O filme pós-apocalíptico dirigido por Michael Matthews não chega transformar todo um gênero em piada como acontece em Zumbilândia por exemplo, mas lida muito bem com todos os exageros, clichês, conveniências e caricaturas que filmes pós-apocalípticos oferecem.
E não apenas filmes. Não é a toa que o personagem principal vivido por Dylan O’Brien se chama Joel, mesmo nome do protagonista do popular game The Last of Us, que em breve vai ganhar uma série de TV na HBO. O visual do filme também busca claras inspirações no game, como os típicos cenários onde florestas praticamente invadiram cidades. Achou pouco? Bem, digamos que os personagens Clyde (Michael Rooker) e Minnow (Ariana Greenblatt), um homem de meia idade e uma garotinha sobrevivendo ao apocalipse, não estão ali a toa. Ainda não está convencido? Ok, então fique com essa referência das camisetas de Ellie em The Last of Us e Joel em Amor e Monstros.
Na trama do longa, acompanhamos um mundo apocalíptico onde monstros mutantes eliminaram 95% da população humana. Aqueles que restaram começaram a se esconder em colônias subterrâneas isoladas. É em uma dessas colônias que encontramos Joel, um jovem sobrevivente que vive dessa forma há 7 anos, e que descobre via rádio a localização de sua namorada da adolescência, Aimee (Jessica Henwick). Embora seja medroso e considerado por todos como incapaz de sobreviver na superfície, Joel decide encarar os 130km que o separam de sua amada, encontrando todo tipo de criatura terrível no caminho.
O’Brien se mostra confortável no papel de Joel, que é bem diferente do imbatível Thomas, de Maze Runner, praticamente um Gary Stu capaz de fazer qualquer coisa. Joel, ao contrário, é medroso e limitado, desenvolvendo-se ao longo do filme e superando seus traumas pessoais. Além disso, embora estejamos falando de um mundo onde qualquer um pode morrer a qualquer momento, o personagem exige uma veia cômica bem interessante, que O’Brien tira de letra.
Aliás, o humor do filme é um ponto a ser elogiado. O roteiro de Brian Duffield (A Babá) e a direção de Michael Matthews conseguem fazer com o que filme transite muito bem entre o terror e a comédia, um balanceamento perigoso, que poderia destruir o tom da produção se mal executado. Seria muito mais fácil seguir o caminho do já citado Zumbilândia, que entende-se como uma paródia e assim consegue ter total liberdade criativa para surtar. Amor e Monstros, por outro lado, precisa ser mais esperto enquanto brinca com o gênero, pois existe uma linha tênue entre ser brega e exagerado, e entre deixar bem claro o motivo pela qual está sendo brega e exagerado. É uma forma mais difícil de trabalhar, e isso é feito com louvor.
E embora esse seja o maior brilho de Amor e Monstros, o filme também consegue passar lições muito importantes por meio de Joel e dos personagens que o orbitam. Mesmo que você sinta a todo momento que a resolução do protagonista não será tão simples quanto ele acha que será, o punch emocional ainda funciona, pois vem carregado com todo o aprendizado que ele veio adquirindo ao longo de sua incrível jornada de “sete dias sobrevivendo na superfície”.
De acordo com o diretor, Amor e Monstros foi idealizado como um filme autônomo, e muito disso para que ele funcionasse. Porém, com o sucesso adquirido agora, principalmente após a estreia na Netflix, uma sequência já começa a ser considerada. Não seria uma surpresa, afinal a Netflix já fez o mesmo com outras produções que viraram hit em seu streaming. Felizmente, o universo criado por Matthews é criativo o suficiente para isso. Resta saber se existe espaço para mais brincadeiras com o gênero, afinal, tornar essa suposta sequência um produto clichê de um mundo pós-apocalíptico apenas para transformá-lo em franquia, seria matar toda a esperteza do filme original e reduzi-lo a aquilo que ele mais ironiza.