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Existem poucos autores mais prolíficos e bem sucedidos que Stephen King. Com quase cem adaptações de seu material, só no cinema e TV, de qualidades mais variadas, ele é uma das fontes mais inesgotáveis de ideias. A minissérie It – A coisa, de 1990, (estrelando Tim Curry) fica algum lugar no meio na da escala:

É lembrada com carinho por muitos, mas não envelheceu muito bem e os que leram o (enorme) livro de 1986, acham que ela não faz jus ao material de base. Ótima oportunidade para um remake, o igualmente nomeado It – A Coisa.

“A Coisa” do livro se trata de uma entidade paranormal que se alimenta de crianças, encarnando seus piores medos, especialmente a forma do palhaço macabro, Pennywise. O romance alterna entre duas narrativas cronológicas, uma nos anos 50, retratando o primeiro encontro da Coisa com o grupo de crianças do Clube dos Otários e a segunda nos anos 80, no qual eles se reencontram quando adultos.

Nessa adaptação, somente a primeira linha narrativa é retratada (a segunda fica para a já confirmada sequência) e o seu período é atualizado dos anos 50 para os 80.

É irônico que os anos 80, dominados pela Era Raegan, tenha sido marcada por uma nostalgia e ânsia pelos “tempos melhores” do passado. Agora, temos um novo presidente americano prometendo fazer “a América grande de novo” e a nostalgia agora é por um passado que, por sua vez, ansiava já por um outro passado.  É apropriado que ambas as versões retratem esses tempos nostálgicos como lugares muito mais sinistros do que nos lembramos.

A nostalgia pode ser observada no sucesso de Stranger Things, que, além de filmes como Os Goonies e Poltergeist, também deve muito aos maiores sucessos de King, como Conta Comigo, Carrie – A Estranha e, é claro, It – A Coisa. Nada mais justo que Stranger Things retribua o favor na hora de retomar diretamente o material original.

O filme sabe muito bem pegar do que funcionou na série da Netflix (o timing no seu lançamento, um mês antes da segunda temporada da série também é acertado), à começar pelo desenvolvimento excelente do elenco principal:

O elenco mirim, impecável, consegue dar vida aos arquétipos simples das crianças (o líder gago, o gordinho, o falastrão, o negro, o judeu, o neurótico e a única menina tomboy, muito de acordo com os anos 80) e expandi-los em personagens críveis e absolutamente carismáticos que carregam o filme com tranquilidade.

Ele tropeça, no entanto, em certos clichês ultrapassados, como como a garota forte e madura, mas que ainda precisa ser salva no final, ou a unidimensionalidade de todos os personagens secundários. Certas convenções oitentistas são melhores se deixadas de lado.

O horror definitivamente está lá e vai assustar os mais despreparados e divertir os veteranos, mas este é longe de ser um filme desolador e sem esperança. É um filme sobre o medo infantil e como superá-lo, naturalmente, através da amizade. Ele tem sucesso em trazer os adultos de volta à infância e é uma escolha muito interessante para ser o primeiro verdadeiro filme de terror das crianças mais corajosas.

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.