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A história do desenvolvimento até o lançamento da Liga da Justiça de Zack Snyder é tão interessante quanto o próprio filme. Afastado em 2017, durante as filmagens do longa, após passar por uma tragédia pessoal, Snyder acabou sendo substituído por Joss Whedon, que já havia dirigido os dois primeiros filmes dos Vingadores na Marvel, e que por isso alguém na Warner achou que seria uma boa ideia. O resultado foi um filme sem identidade, que flertava o tempo inteiro com a galhofa, e cujo bigode mal apagado digitalmente do Superman de Henry Cavill era o menor dos problemas.

Independente de seus erros e acertos nessa jornada (Batman vs Superman foi um filme bastante divisivo), Snyder vinha contando a história que havia construído em sua cabeça, como o arco do Superman, e seus fãs sentiram como se lhes tivesse sido tirado o direito de assistir a conclusão de algo que acompanharam (e defenderam) com tanto afinco. Surge então o movimento “Release the Snyder Cut“, tratado por muita seriedade por uns, considerado piada por outros, mas sempre sustentado pelo próprio Snyder, que por meio de suas publicações na rede social Vero, demonstrava uma grande frustração por ter sido impossibilitado de completar sua visão.

Corta para 2021 e temos finalmente o tão pedido “Snyder Cut” chegando com suas 4 horas de duração no serviço de streaming HBO Max, que acabou se revelando como a casa perfeita para que Snyder pudesse finalmente lançar o seu filme e presentear os fiéis fãs que ficaram ao seu lado durante todos esses anos. Mas afinal, o que muda no filme?

Primeiramente, é preciso citar que você não encontrará um filme radicalmente diferente do de 2017. Porém, ele é mais completo, melhor construído, melhor desenvolvido, muito mais consistente e com um terceiro ato bem mais satisfatório, ainda que no cerne apresente a mesma trama. E não digo isso como demérito, afinal é o suficiente para Snyder entregar um filme que é não apenas muito consistente consigo, mas também com toda a jornada apresentada em O Homem de Aço e Batman vs Superman.

O Snyder Cut escancara o que já parecia um problema no filme de Joss Whedon lá em 2017: a colcha de retalhos criativa, principalmente pelo fato de os dois diretores possuírem assinaturas muito marcantes e que ao mesmo tempo são tão diferentes quanto água e vinho. Não era sequer preciso ser um grande fã de cinema ou dos ditos diretores, para perceber a quem cada cena pertencia no filme que chegou às telonas. O filme saía de uma cena sombria para uma piada com a sutileza de uma locomotiva.

Só por esse aspecto o Snyder Cut já vale muito mais a pena. Vemos a história sendo contada por seu idealizador, sem interferência externa, e entendendo o motivo pelo qual cada cena está presente ali. Um dos maiores beneficiados por isso é o Cyborg de Ray Fisher, que assim como Snyder havia prometido, possui o arco mais interessante e mais importante do filme. Ainda que possamos questionar algumas decisões criativas do Snyder Cut, é um ponto extremamente positivo que o filme seja honesto com tudo que foi estipulado naquele universo.

Sim, é questionável se Snyder realmente precisava de 4 horas para contar a sua história, e durante o filme existem diversas cenas que você percebe que ele próprio não teria problemas em cortar caso conseguisse um lançamento cinematográfico com um limite de pelo menos 3 horas. Porém, depois de toda a batalha para conseguir lançar a sua versão, além do fato de estar lançando em um serviço de streaming, Snyder está mais do que certo em querer mostrar cada minuto de sua visão completa. E, sendo sincero, ao contrário do que acontece em Batman vs Superman, Snyder consegue imprimir um ótimo ritmo aqui, um dinamismo que não deixa a peteca cair dentro de suas 4 horas de filme, tornando a experiência na verdade bem agradável.

Talvez o grande diferencial do filme seja mesmo a presença de Darkseid, o que é o suficiente para dar uma abordagem muito mais interessante para a narrativa. Não apenas por deixar claro o papel do Lobo da Estepe como lacaio, mas porque a presença do déspota de Apokolips na trama torna a ameaça muito mais urgente e muito mais reconhecível para os fãs. Porém, o icônico vilão criado pelo lendário Jack Kirby empolga na mesma medida que decepciona.

Kirby, que lutou na Segunda Guerra Mundial, criou Darkseid como uma clara extrapolação sci-fi da figura de Adolf Hitler, e usou aquilo que o vilão tanto busca, a Equação Antivida, como uma metáfora o fascismo, sendo a completa anulação da vontade própria. A busca de Darkseid pela Equação Antivida é algo repleto de camadas, que o define completamente e que o torna um vilão extremamente complexo já lá nos 70, diferente da maioria dos antagonistas unidimensionais dos quadrinhos daquela época.

Mas o fato é que Darkseid, e principalmente a Equação Antivida, não possuem muito espaço no longa , muito disso para que o grande destaque fique mesmo com as Caixas Maternas e o seu background a la O Senhor dos Anéis que Snyder quis imprimir. Ainda que a ideia de Snyder talvez fosse a de guardar Darkseid para depois, essa decisão apenas fez diminuir uma das maiores criações dos quadrinhos, cuja sequência mais longa no filme é justamente a de um brucutu descamisado arrancando cabeças.

Na verdade, é curioso que Snyder, que já declarou anteriormente ser “um cara dos quadrinhos”, demonstre mais uma vez uma certa inaptidão em realmente se valer de aspectos dos quadrinhos que não estejam meramente no campo do espetáculo visual.  Quando suas referências ao material de origem precisam de consistência, ele geralmente falha, valendo-se apenas de imagens bonitas – mas um tanto vazias. Se é um cara dos quadrinhos, Snyder é daqueles que passa as páginas sem ler os balões.

Mas para não parecer injusto, o filme realmente parece ser aquilo que Snyder vem declarando há muito tempo: a primeira parte de algo maior. E eu nem estou falando das cenas do universo Knightmare que o diretor gravou depois, mas sim de coisas que já sabíamos que estariam no filme desde muito tempo. São muitas pontas soltas, e Darkseid e sua busca pela Equação Antivida é uma delas, que provavelmente seria explorada na continuação desse arco em outros filmes.

Obviamente, Snyder não é bobo nem nada. Ele entendeu o poder do engajamento dos fãs, e aproveitou a gravação de suas cenas adicionais para quem sabe provocar um novo movimento. Ao assistir o longa, principalmente em seus últimos minutos, dá para saber exatamente o que o diretor inseriu como gancho e quais foram as suas intenções ali. Dá para culpá-lo? Eu diria que não.

De uma forma geral, a Liga da Justiça de Zack Snyder é um produto bastante positivo. O diretor conseguiu a justiça de entregar finalmente o seu projeto (ao qual ele sempre demonstrou ter muito carinho), os fãs conquistaram uma grande vitória com o direito de assistir aquilo que realmente queriam ter assistido lá em 2017, e o HBO Max conseguiu um lançamento gerador de hype em um ano onde a indústria cinematográfica ainda sofre com o impacto da pandemia global de Covid-19.

Positivo
  • • Um longa muito mais consistente
  • • Respeita o tom e construção dos outros filmes
  • • Um espetáculo visual
Negativo
  • • Snyder volta a demonstrar inabilidade quando precisa se voltar mais aos quadrinhos
  • • Darkseid merecia mais
Nota 8


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