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Justice-League-Gods-and-Monsters-2015-movie-posterQuando foi anunciado o retorno de Bruce Timm às animações da DC na San Diego Comic-Con 2014, a alegria dos fãs foi geral. Não apenas pelo fato de Timm ser o maior nome quando se fala em DCAU (ou Universo Animado DC em português), criador de desenhos incríveis como Batman: The Animated Series e o aclamado Liga da Justiça Sem Limites, mas também pelo fato de que as últimas animações da DC vem decepcionando fortemente os fãs, reunindo traços horrendos, roteiros rasos e diálogos de envergonhar qualquer um.

Assim, foi completamente normal a expectativa e empolgação criados com o anúncio de Liga da Justiça: Deuses e Monstros, animação que marca o retorno de Bruce Timm, que escreve e dirige o filme. Trazendo de volta o seu traço característico que durante muito tempo foi praticamente marca registrada do Universo Animado DC, Timm apresenta uma história original e criativa, onde os membros da Liga da Justiça não são muito bem aqueles que conhecemos.

Usando um universo paralelo para contar sua história, Timm nos apresenta versões completamente diferentes de Superman, Batman e Mulher-Maravilha. E o resultado é uma história incrível, que em pouco tempo consegue nos cativar e torcer por esses personagens. É a prova cabal de que, independente de seu universo, ou das pessoas que utilizam a alcunha, eles sempre serão Superman, Batman e Mulher-Maravilha.


Mas afinal, se esses não são Clark Kent, Bruce Wayne e Diana Prince, quem são afinal ? Já no início do filme, percebemos que as coisas serão bem diferentes do que estamos acostumados, ainda que a cena de abertura seja bem familiar para os fãs, com Jor-El e Lara preparando uma nave que escapará do destino fatal de Krypton, levando o seu código genético em direção ao planeta Terra. No entanto, ao contrário da história como a conhecemos, o casal é impedido por Zod, que insere na cápsula (que continha o óvulo de Lara) o seu próprio DNA. Assim, o bebê que chega ao nosso planetinha azul não é o Kal-El que conhecemos, e sim o filho do General Zod, que acaba sendo criado por um casal de imigrantes mexicanos.

Após um salto de tempo, conhecemos a violenta e truculenta Liga da Justiça – composta apenas por Superman, Batman e Mulher-Maravilha – e de cara já percebemos que as diferenças não se resumem apenas às aparências. A Liga aqui se posiciona realmente com superioridade, lembrando quadrinhos como The Authority por exemplo, onde os fins justificam os meios e super-equipes não precisam responder a ninguém, afinal são os detentores de todo o poder. Essa forma de agir faz com que o grupo não seja muito bem recebido pela população, que questiona por meio de manifestações públicas quem determina que a Liga seja detentora de tamanha autoridade apenas com base na força. É um discurso parecido com o “quem vigia os vigilantes?” da aclamada obra Watchmen, de Alan Moore, e isso fica bem claro em determinada passagem do filme. Se a referência foi proposital ou não, realmente não sei.


Na trama, alguém está matando os maiores cientistas do país, apenas para incriminar a Liga, utilizando três androides que simulam os poderes e características de cada membro da equipe. Assim, o trio precisa provar a sua inocência, mostrar que são os mocinhos na história e que as pessoas precisam deles, tudo isso enfrentando a péssima opinião pública, que detesta os ditos heróis. É muito interessante como Timm constrói o roteiro, que vai avançando sem enrolação, apresenta muito bem os novos personagens, e dentro de pouco tempo faz com o que espectador esteja torcendo por eles. O filme vai ensinando a gostar desses personagens, e o background de cada um deles é interessantíssimo.

Isso porque durante o filme, vamos vendo por meio de flashbacks a história de origem dos outros dois membros da Liga: Batman e Mulher-Maravilha. O primeiro trata-se não de Bruce Wayne, mas sim de Kirk Langstrom, que os leitores e fãs do Cavaleiro das Trevas conhecem como o alter-ego de um antigo vilão do personagem: O Morcego-Humano. Aqui, vemos que Langstron, ao tentar obter a cura para sua rara doença sanguínea, não se tornou um monstro híbrido de homem e morcego, mas sim algo bem pior… um vampiro.

Langstrom acaba sendo um personagem bem interessante, e um dos mais violentos da equipe. A animação não mede esforços para mostrá-lo quebrando pescoços, cortando gargantas e, é claro, mordendo uns pescoços.


Já a Mulher-Maravilha aqui não se trata de uma guerreira Amazona, e sim de uma dos Novos Deuses, neta do próprio Pai Celestial. Chamada de Bekka, a personagem (assim como seus parceiros de equipe) é violenta, ambígua, e passa a sensação de mulher fatal capaz de usar até mesmo do corpo e de sua sensualidade para alcançar seus objetivos, o que fica bem claro em dois momentos no filme, durante uma conversa com Superman e outra com Steve Trevor. Na verdade todos os personagens são inicialmente apresentados passando uma ideia de “vilões agindo como heróis”, e essa caracterização um tanto quanto “sem escrúpulos” é o que ajuda a definir essa sensação. No entanto, conforme o filme vai passando e vamos sendo apresentados ao mundo desses personagens, vemos que as coisas não funcionam bem assim, e que todos na verdade são personagens nobres e com um passado doloroso. Inclusive a Mulher-Maravilha.

No flashback que conta o passado de Bekka, vemos que ela era noiva do filho de Darkseid, Órion, e que o casamento dos dois supostamente selaria a paz entre Apokolips e Nova Gênese. No entanto, em uma cena que lembrou o Casamento Vermelho de Game of Thrones, o Pai Celestial trai Darkseid e quebra o acordo, matando o ditador junto com todos os seus soldados em pleno casamento. Bekka ainda tenta fugir com Órion, mas acaba presenciando recém-esposo se tornar mais um vítima dos Novos Deuses. O interessante dessa sequência é mostrar como até mesmo o Pai Celestial desse universo é mais inescrupuloso e cruel que sua contraparte do universo regular, onde sempre é retratado como um simpático e bondoso velhinho que só quer paz.


Como saldo final, diria que Liga da Justiça: Deuses e Monstros cumpre toda a expectativa gerada. Além de ter um roteiro ágil e bem amarrado, o filme traz uma história original em um momento onde só o que vemos são adaptações mal-feitas de sagas que ninguém se importa com roteiros meia-boca e animação esquisita. Bruce Timm traz um novo sopro para os fãs das animações DC, que já estavam carentes de bom material envolvendo esses personagens.

Além do bom roteiro e do bom traço (ver o traço característico de Timm é sempre um colírio para os olhos), é preciso frisar também que as cenas de batalha estão de tirar o fôlego. Com uma animação rápida e golpes arrebatadores, a equipe desse filme realmente não quis se impor limites no que se refere a destruição e sangue. Não me lembro de já ter assistido uma animação mais violenta do que essa sendo produzida pela DC.

Ao final do filme, apesar da trama apresentada ter tido uma resolução, ficam abertas ainda inúmeras possibilidades para uma revisita a esse universo. E o fã mais atento perceberá uma referência sensacional em Lex Luthor. Na verdade é uma referência bem descarada e qualquer um que leia DC a um certo tempo irá sacar no ato.  O importante é que com Liga da Justiça: Deuses e Monstros, aprendemos que Superman, Batman e Mulher-Maravilha são sensacionais. Em qualquer universo. Sejam eles quem forem.

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.