
Logan, no entanto, encerra a discussão e assegura que Jackman será lembrado como um dos intérpretes definitivos do gênero.
Em uma mistura de western futurista, road movie e exploitation pós-apocalíptico, o filme se passa em um futuro onde a maioria dos mutantes desapareceu e Logan agora trabalha como motorista de limusine enquanto tenta cuidar de um velho Professor Xavier, sofrendo de demência e perdendo o controle de seus poderes. Quando contratado para proteger uma menina muito parecida dele próprio, ele será arrastado de volta para a vida de violência.
O velho Logan é cínico, mal-humorado, amargurado, fala palavrão sem parar e não tem nenhum problema em fatiar seus oponentes de todas as formas mais gloriosas que a classificação indicativa para maiores do filme permite. Mas se o Wolverine dos cinemas nunca foi visto de forma tão brutal, ele também nunca foi visto tão absolutamente vulnerável.
Muito mais que o filme de ação sangrento que os fãs queriam, esta é uma estória de intensa humanidade. Os personagens são verdadeiros humanos (ou mutantes). São patéticos, felizes, deprimidos e engraçados, tem tempo de respirar e existir organicamente no seu mundo e as suas conexões criam um laço emocional fortíssimo com o público. E é essa humanidade que dá à violência verdadeiro significado além do puro espetáculo.
Sua narrativa direta ao ponto nunca se torna muito complicada (no meio da trama, um certo twist assusta com a possibilidade do filme se perder à la Wolverine – Imortal, mas por sorte, James Mangold aprendeu a lição e isso não acontece), o que é excelente, pois mantém o foco no estudo de personagem. Muito além de sua classificação para maiores, Logan realmente conquista o título de um filme adulto com maturidade.
O roteiro também não vê a necessidade de se afundar em longas cenas de exposição para justificar o novo status quo dos mutantes, deixando que as informações sejam aprendidas aos poucos. Não chega ao brilhantismo da narrativa visual minimalista de um Mad Max: Estrada da Fúria, mas é refrescante em meio a tantos blockbusters onde a verborragia impera. Certas pistas são jogadas que permitem que o espectador crie com certa facilidade uma ideia do que aconteceu. Elas inclusive parecem aludir a certos elementos e sagas dos quadrinhos, o que pode ser explorado em outros filme da franquia X-Men, se desejarem, mas se isso não ocorrer também não vai fazer nenhuma falta. Esse é um filme que se dá tão bem como uma obra autocontida que tentar levantar a velha questão de como ele se encaixa na cronologia de X-Men nos cinemas parece uma discussão completamente irrelevante.
O elenco está excelente:
Patrick Stewart dá uma performance de partir o coração, representando pessoas que sofrem de uma doença degenerativa mental. Dafne Keen é a personagem mais intimidadora do filme, mesmo tendo onze anos, ao mesmo tempo em que ancora Logan emocionalmente. Até mesmo o Boyd Holbrook, como Donald Pierce, essencialmente um vilão caricato, tem sua dose de carisma e personalidade que o impedem de se tornar esquecível.
Mas é claro, Jackman é quem mais brilha aqui, entregando a performance mais visceral de sua carreira. Mal estamos em Março e parece que Logan vai ser o (anti-)herói do ano.
E assim, em meio a sangue e lágrimas, Hugh Jackman encerra sua carreira com o Wolverine com chave de ouro, não apenas com o ponto mais alto do personagem, mas talvez de toda a franquia mutante.