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luke cage

Finalmente estreou no Netflix a terceira série da parceria entre a Marvel e o serviço de streaming, Luke Cage, que talvez fosse a mais subestimada dentre as quatro séries programadas desde 2013. No entanto, o produtor Cheo Hodari Coker teve bastante êxito em levar para live-action um dos heróis negros mais interessantes dos quadrinhos, trazendo para a série até mesmo uma certa cafonice que emanava das histórias do personagem na década de 70, mas de uma forma absurdamente elegante, é claro.

Se Jessica Jones já diferia bastante do tom utilizado em Demolidor, com uma pegada muito mais voltada para o drama em um roteiro mais tenso e psicológico, Luke Cage consegue ir mais longe, e difere de muitas formas de ambas as séries. Para começar, a série já possui um universo diferente pelo simples fato de não se passar em Hell’s Kitchen como as duas anteriores, mas sim no Harlem, bairro de Manhattan conhecido amplamente como um grande centro cultural e comercial de afro-americanos. Assim, o que vemos durante os 13 episódios que compõem a temporada é uma grande homenagem à cultura dos negros norte-americanos, em um roteiro que traz ainda um grande debate social envolvendo política, a marginalização dos jovens, a impunidade e o tráfico de drogas e armas. Tudo isso recheado com um elenco em sua maioria composto por atores negros e cuja trilha sonora enaltece grandes músicos afro-americanos em estilos que vão do jazz ao rap.

É interessante que a estrutura narrativa segue um caminho parecido com o que vimos na segunda temporada de Demolidor, onde os 13 episódios são praticamente divididos em dois arcos, e já na metade da temporada temos uma espécie de “resolução” onde ficamos com a impressão de que todos os problemas já se resolveram. No caso de Luke Cage, no entanto, existe ainda outro agravante: a série é recheada de plot twists, com um deles se passando exatamente nessa transição, e que pega o espectador de surpresa. Particularmente, percebo que a série também apresenta mais uma coisa em comum com a segunda temporada de Demolidor, que não ocorreu na primeira temporada da série do Homem Sem Medo e nem em Jessica Jones: um certo desgaste próximo dos últimos episódios. Em Luke Cage esse desgaste é percebido um pouco mais cedo, e passa a impressão de que houve um certo esforço da série para conseguir preencher os 13 episódios propostos. É impossível não ficar com a impressão de que tudo poderia ter se resolvido em pelo menos 10. Não chega a ser um problema, mas é notório que o roteiro, apesar de muito bom e funcional para o que a série se propõe, acaba sendo insuficiente para o número de episódios, ocasionando então as constantes reviravoltas para se manter funcionando.

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Mike Colter permanece não sendo um excelente ator, apresentando uma postura geralmente travada e com poucas expressões. No entanto, ele demonstra uma melhora considerável desde Jessica Jones, e no decorrer dos episódios parece se soltar mais e ficar mais confortável no personagem. Isso aliás acaba sendo até mesmo usado a seu favor, e nos acostumamos a admirar esse Luke que consegue ser amável, carismático, e até engraçado em toda sua cafonice.

O elenco da série é excelente, mas o destaque sem dúvidas fica com o ator Mahershala Ali, que já vem chamando a atenção do público desde sua participação na série House of Cards. Seu personagem, o vilão Cornell “Boca de Algodão” Stokes, é um dono de boate e traficante de armas nas horas vagas, que usa dinheiro da campanha de sua prima, a vereadora Mariah Dillard (Alfre Woodard) para financiar seus atos ilícitos. Cornell é egocêntrico e quer deter o poder sobre o Harlem, e seus encontros com Luke são sempre ótimos de se ver. O personagem consegue realmente transmitir uma aura de “poder à base do medo” à sua volta, e seu fator imprevisível é não apenas um dos grandes destaques do personagem, mas proporciona também excelentes momentos à série.

Quem retorna para sua personagem pela quarta vez é Rosario Dawson como Claire Temple, cada vez mais confortável em seu papel. Mais uma vez a personagem se vê envolvida sem querer na confusão de outros, mas agora, sem o seu emprego desde os acontecimentos da segunda temporada de Demolidor, pela primeira se vê decidida a dedicar a vida a ajudar essas pessoas que buscam fazer a diferença na vida de outras sem ganhar nada em troca. Já começamos a ver os primeiros indícios da Enfermeira Noturna surgindo, e o mais provável é que a Claire já esteja nessa função quando Os Defensores for ao ar. Será ela a responsável por suturar nossos heróis quando eles decidirem se juntar para enfrentar alguma ameaça em comum.
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Na década de 70, quando Luke Cage foi criado, os Estados Unidos viam surgir um fenômeno conhecido como Blacksploitation, um movimento cinematográfico com filmes que comumente eram protagonizados e realizados por atores e cineastas negros, essencialmente para o público afro-americano, e batizado dessa forma por uma junção das palavras black (negro) e explotaition (exploração). Aproveitando esse momento, onde a cultura afro-americana tornava-se algo interessante do ponto de vista comercial, a Marvel então resolveu trazer para os quadrinhos esse herói classicamente urbano, ex-membro de gangue e preso injustamente por um crime que não cometeu. E como a série do Netflix mesmo faz questão de ressaltar em diversos momentos: trazendo a poderosa visão de um homem negro que é á prova de balas. No entanto, a série em quadrinhos de Luke Cage foi cancelada em 1980, com o personagem perdendo muito de sua relevância e aparecendo apenas como coadjuvante nas histórias de outros personagens. Foi somente anos depois que o personagem voltou a ter alguma relevância nas HQ’s, quando se tornou um Vingador e casou-se  com Jessica Jones.

Sendo assim, todos os vilões, coadjuvantes, e mitologia do personagem estavam nas histórias dos anos 70. Como trazer isso para uma série em live-action que se passa nos dias atuais? Essa era a preocupação de muitos fãs, e acredito que dos produtores também. Mas o que vemos é um casamento perfeito entre ambas as coisas, de uma forma perfeitamente bem adaptada. Como a maioria dos vilões de quadrinhos da época, os de Luke Cage não fugiam à regra e eram extravagantes e bizarros até mesmo para os padrões que os quadrinhos se permitem ser extravagantes e bizarros. A série do Netflix consegue transmitir isso, por meio de pequenos detalhes, nuances, ou até mesmo em easter eggs um pouco mais descarados, mas que estão lá. O quão legal é ver, por exemplo, Luke por um acaso do destino e uma série de fatores, usando um visual idêntico ao da clássica camisa amarela? Ou a marcante risada do Boca de Algodão, que o torna tão adoravelmente bizarro e ao mesmo tempo assustador? Ou ainda o traje colorido (sem contar a personalidade caricata) do vilão Kid Cascavel?

Luke Cage não é uma série perfeita. Ela peca em alguns detalhes, corre o risco de ultrapassar a linha da cafonice carismática e cair em algo trash por diversos momentos, mas consegue se segurar e contar sua história de maneira competente. Ainda acho que a série não consegue superar nenhuma das duas temporadas de Demolidor, e nem mesmo Jessica Jones, que acabou revelando-se uma grata surpresa. Mas é fato que Luke Cage não fez feio, e manteve acesa a curiosidade não apenas para a próxima série da parceria entre Marvel e Netflix, Punho de Ferro, mas principalmente para o que vem por aí quando os 4 heróis se juntarem em Os Defensores.

E é claro, ainda precisamos saber como Finn Jones irá se sair como Punho de Ferro, mas… alguém aí também já quer uma série dos Heróis de Aluguel?

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