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Lá em 2013, Martin Scorsese fez de O Lobo de Wall Street um golpe como filme feito para golpistas, que até hoje usam as cenas de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) como guia motivacional, pois acreditam que a obra feita para ridicularizá-los é sobre o quanto eles são incríveis. Pois bem, 11 anos se passaram e Madame Teia (2024) também surge como um golpe. No entanto, um tipo diferente, que não é nada genial ou artístico, mas diverte sob certa perspectiva.
O golpe começou na concepção do filme, quando executivos da Sony Pictures convenceram o presidente Tom Rothman de que investir US$ 80 milhões em um filme da Madame Teia – cuja base de histórias originais é muito pequena – seria uma excelente ideia. Há duas perspectivas para encarar isso: A sem graça – que sugere que esses executivos aprenderam a vender caneta com o Jordan Belfort; E a divertida – na qual você imagina as pessoas do outro lado da ligação fazendo gestos obscenos em celebração a sua grande e inacreditável venda de ações.

Após o convencimento, os executivos fizeram o que já era difícil ficar impossível, quando deixaram a responsabilidade do roteiro com a dupla Matt Sazama e Burk Sharpless, que você deve lembrar por Morbius (2022), um dos maiores fracassos da história da Sony Pictures.
Ao se deparar com diálogos risíveis que lembram o final de Cinderela Baiana (1998), algumas coincidências bobas e personagens sem qualquer traço de personalidade desenvolvido, você é capaz de afirmar com clareza que nossos meninos não decepcionaram e fizeram mais um péssimo trabalho. E olha, não fizeram isso sozinhos, pois Claire Parker (Life on Mars), Kerem Sanga (O Jovem Kieslowski) e a própria diretora S.J. Clarkson (Jessica Jones) ajudaram no roteiro.
Cinco pessoas envolvidas na criação da história e, mesmo assim, é impossível se apegar às personagens principais, pois não há qualquer desenvolvimento característico para nenhuma delas. Juntas, são pessoas unidimensionais, cuja importância para a história se dá a partir de uma predestinação divina ao heroísmo que liga cada uma delas.
Já conversamos muito sobre isso por aqui, mas é sempre bom reforçar: Uma boa história depende totalmente de bons personagens, e “bons” não é o mesmo que “conhecidos“, pois seja conhecido ou não, quem aparece em tela tem que ser desenvolvido.
Madame Teia (2024) deixa esse argumento claro quando dá ao conhecido Tio Ben (Adam Scott) bastante tempo de tela, sem justificar em nenhum momento a sua função narrativa no filme. Ele é apenas um amigo da Cassandra Webb (Dakota Johnson), cuja cunhada está grávida do Homem-Aranha.
O trabalho narrativo feito com as protagonistas e o Tio Ben é péssimo, mas se existe algo abaixo do péssimo, pode-se dizer que foi o que fizeram com o vilão Ezekiel Sims (Tahar Rahim), que entra e sai de tela sem que você saiba exatamente quem ele é. Isso sem contar a sua motivação, que é preguiçosa ao extremo.
Em resumo, o nosso cara mal quer obcecadamente eliminar “As Aranhas” ainda jovens, pois tem a visão de que elas vão tirar sua vida anos depois de 2003 – ano em que o filme se passa. Daí, tudo gira em torno de ele se antecipar atrapalhadamente ao confronto para ser ceifado mais cedo.
Honestamente, é difícil cobrar qualquer coisa do elenco nesse sentido, pois eles também caíram nesse golpe e tiveram que extrair algo de onde não se tinha nada.
Quem mais sentiu foi Sydney Sweeney, que não conseguiu inventar um tom para sua atuação, como Isabela Merced (The Last of Us) e Celeste O’Connor (Ghostbusters: Mais Além) conseguiram, e apareceu a todo tempo como se estivesse incomodada com o seu trabalho.
Ao abordar o tópico elenco, é difícil não lembrar das matérias das atrizes dizendo o quanto estavam empolgadas por seus treinamentos e uniformes. No fim, toda essa felicidade resultou em segundos de tela.
As acrobacias e uniformes dos materiais promocionais praticamente não existem em Madame Teia, cujas grandes sequências de ação são perseguições capengas de carros.
Aliás, Sydney Sweeney, Isabela Merced e Celeste O’Connor ainda tiveram a ‘sorte‘ de aparecem com seus uniformes por pouco mais de 30 segundos. A pobre da Dakota Johnson teve que se contentar com 5 segundos de tela com o seu.
Bem, já deu para notar que o material promocional de Madame Teia fez do público mais uma vítima desse grande golpe, que se estende pela promessa de que este filme iria avançar na apresentação de um novo Homem-Aranha. Afinal, ele é a grande estrela do show, não é?
Parece que para os executivos da Sony não é. Pois o máximo de menção ao herói que o filme faz está nos momentos constrangedores de ocultação do nome do bebê de Mary Parker (Emma Roberts), que fariam mais sentido se fossem apresentados pelo João Kléber.
Claro que, nada disso aconteceu sem que tivesse a canetada da diretora S. J. Clarkson (Os Defensores), cuja equipe de fotografia e edição estão incompreensíveis.
Quem trabalha com criação de conteúdo sabe que esse é um ramo que exige muita energia e dedicação, portanto é sempre muito forte alegar que alguém trabalhou de má vontade. Mas francamente, nos casos do diretor de fotografia Mauro Fiore (Homem-Aranha: Sem Volta para Casa) e do editor Leigh Folsom Boyd (Homem-Aranha: Sem Volta para Casa), ou foi isso ou estes são profissionais completamente incompetentes, o que eu resisto a acreditar.
A edição é confusa e desleixada. É impossível entender o que está acontecendo em tela quando as coisas começam a se movimentar mais rápido. A escolha visual dos cenários e das cores na fotografia é paupérrima de inspiração. Estes são profissionais que já entregaram trabalhos interessantes no passado, eles certamente podem mais que isso.
A S. J. Clarkson, que também já fez trabalhos bem melhores que este, toma algumas decisões que flertam com vícios de iniciantes, como enquadramentos em zoom que remetem a takes de plano e contraplano de telenovelas dos anos 80, excesso de uso de plano holandês, e encaixes de merchandising completamente forçados em momentos importantes do filme.
Além disso, ela também cria momentos muito genéricos, ao tentar, sem sucesso, homenagear algumas cenas clássicas de outros filmes como o plano holandês de Obadiah Stane imobilizando Tony Stark em Homem de Ferro (2008) e, principalmente, a queda de Hans Gruber (Alan Rickman) do Nakatomi Plaza em Duro de Matar (1988).
Em saldo geral, Madame Teia (2024) é um filme pobre em narrativa e sem qualquer inspiração ou personalidade. Um grande golpe aplicado não só no estúdio – que vai arcar com o grande prejuízo, como também no elenco – que vai carregar essa marca negativa por muito tempo, e no público – que foi enganado pelos materiais promocionais.
Mas isso não quer dizer que seja de todo inútil, pois se The Room (2003) – que é um péssimo filme – foi capaz de inspirar o baita filme que é Artista do Desastre (2017), por que o golpe por trás de Madame Teia (2024) não poderia se transformar em uma grande obra?
Hollywood ama filmes sobre golpes, assim como também ama histórias sobre si mesma. Me parece ser muito interessante a ideia de descobrir como um grupo de pessoas convenceu artistas de peso e, um estúdio centenário a dar luz verde a uma ideia de US$ 80 milhões que resultou em um dos piores filmes do século.
Lembrar da forma metafórica como Martin Scorsese tratou o tema “golpe” em O Lobo de Wall Street (2013), e acreditar que isso pode ser repetido com Hollywood como cenário, me fez enxergar a experiência de assistir Madame Teia (2024) sob a divertida perspectiva de talvez estar vivenciando uma história cômica sobre o cinema, assim como alguns vivenciaram The Room (2003) antes da chegada de Artista do Desastre (2017).
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