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Com dimensões continentais, o Brasil é um país de muitas faces, e dentre elas há uma que é geralmente negligenciada: a dos sobreviventes. Em Mais Pesado É o Céu (2024), Petrus Cariry volta suas lentes potentes para esse povo, pintando um retrato brutal com as variações das cores primárias de um cenário sofrido, mas de uma beleza sem igual.

Peço perdão antecipadamente por usar a primeira pessoa nesta crítica mais do que gostaria e deveria, mas não há como falar desta obra sem me sentir parte de seu cenário. Embora tenha tido o privilégio de ficar alheio às necessidades, conheci essa face do Brasil que meus pais e avós já fizeram parte tão de perto, que reconheço o quão preciso Petrus foi em seu registro.
Lembro de viajar pelas estradas do cariri cearense e me impressionar com a complexidade dos contrastes, não apenas entre o amarelo vibrante do solo e o azul vívido do céu, mas também com o fato de que algo tão lindo poderia esconder em suas entranhas rurais e urbanas coisas tão pesadas como fome e violência.
Isso me remete à primeira vez que assisti a Vidas Secas (1963), filme que foi matéria de uma aula de produção de texto no ensino médio, e me marcou pelo fato de, pela primeira vez, ter visto essa versão nordestina do Brasil dos sobreviventes retratada de forma crua e nada caricata. O foco da adaptação da obra de Graciliano Ramos não está na fome ou na miséria da seca, mas em como aquelas pessoas fazem para sobreviver.
Desde que conheci esse grande trabalho do diretor Nelson Pereira Dos Santos que volta e meia me pegava pensando: como seria repaginar essa história em um drama atual usando cores? Mais Pesado É o Céu (2024) é a resposta.
No filme de Petrus Cariry, a seca severa não é mais o grande drama, mas sim a taxa de desemprego e um período sombrio em que a peste tornou a vida de todos mais difícil.
A cama de couro “igualzinha à de Seu Thomas” da vez são os manguezais de Parnaíba, onde Antônio (Matheus Nachtergaele) acha que encontrará sua botija de ouro, além das ruas de Fortaleza, onde Teresa (Ana Luiza Rios) acredita que vai conseguir espaço para prosperar.
Os dois protagonistas, movidos por sonhos desencantados, unem-se pela necessidade de sobrevivência. No entanto, nunca parecem totalmente conectados, como se estivessem juntos, mas vivendo cada um em seu próprio mundo. É como aquela família de Vidas Secas (1963), que não consegue conversar em sintonia quando se perguntam que fim levou Seu Tomás desde que se largou no mundo feito eles.
Antônio e Teresa são, o que Zé Ramalho descreve em “Beira-Mar” como “peixes que lutam para se salvar daqueles que caçam num mar revoltoso“. Por mais que viver canse e o desejo de simplesmente sumir seja convidativo, eles prosseguem “cantando, beijando o espaço” num ato de resistência sustentado pelos restos mortais de uma esperança que os abandonou há tempos.
Como Vidas Secas (1963), que começa mostrando uma matriarca matando o papagaio de estimação para alimentar a família, Mais Pesado É o Céu (2024) não tem medo de forçar seus personagens a lidarem com situações onde é necessário tomar decisões difíceis, em que o pior pode ser tudo o que resta para seguir vivo.
As escolhas de Petrus podem soar questionáveis para quem nunca viu de perto essa face do Brasil — que não está presente só no Nordeste, vale dizer. Por isso, é necessário reconhecer a coragem que o cineasta tem de construir a história a partir das características de seus personagens, e não pelo que acha que o público gostaria que acontecesse com eles.
Todos os eventos, agradáveis ou não, são fundamentados no medo que Antônio tem da morte e o desprendimento que Teresa tem com a própria vida. Os dois estão lidando com um fator novo, uma criança abandonada que acrescenta peso às escolhas difíceis que eles têm que fazer ao longo do filme, e os força a empurrar um ao outro para um futuro do qual eles não sabem ao certo o que esperar.
A criança, no entanto, não é o único elo entre os personagens. Ambos carregam a dor de ter um passado mais leve, na “Antiga Jaguaribara“, submerso pelas águas do Castanhão.
O azul do açude se confunde com o céu, simbolizando essa união inesperada entre Antônio e Teresa, ameaçada por um amarelo conflitante, ladrão de tela, e pelo o vermelho, que serve como alerta.
Em Mais Pesado É o Céu (2024), as cores são tão importantes quanto os diálogos e os trabalhos de atuação magníficos de Matheus Nachtergaele e Ana Luiza Rios, pois elas também tem uma história para contar.
Como escrito lá no começo, essas cores do interior do Ceará são muito vivas na minha memória, e nenhum cineasta tinha as usado tão precisamente em obras situadas no estado como Petrus usa em seu filme.
O trabalho do diretor é como um registro fotográfico de pessoas que não tem muito tempo para lamentar as dores, pois para elas as coisas simplesmente são, e para se manter vivo é necessário apenas ser.
Esta é uma história de sobrevivência na vida real, que prova que não é preciso de vampiros ou zumbis para explorar esse lado primitivo da humanidade em uma trama.
Mais Pesado É o Céu (2024) não busca fazer justiça aos seus personagens, tampouco contar uma história bonita de romance com um final feliz. O que o filme de Petrus Cariry se propõe a fazer é mostrar que esses sobreviventes existem e fazem o que fazem porque precisam sobreviver. E que fique claro, este não é um filme apenas sobre uma região, mas é principalmente sobre pessoas.
Interpretação para além desse retrato do Brasil dos sobreviventes, vai de como cada um vai vivenciar esta obra indispensável para amantes do cinema.
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Mais Pesado É o Céu (2024) tem uma mixagem de som incrível e uma das fotografias mais bonitas que eu já vi em um filme nacional em muito tempo. Portanto, ter a experiência do cinema é imprescindível para que a obra seja aproveitada da melhor forma. Confira se há exibição em sua cidade.