De forma modesta e sem tanto brilho, Mulher-Hulk: Defensora de Heróis mostrou que a Marvel Studios está aos poucos aprendendo a fazer séries de TV.
Em algum momento, quando o streaming estourou e as maratonas de episódios ficaram mais comuns, criou-se a ideia de que fazer séries como longos filmes seria um caminho interessante a se seguir.

De fato, em alguns casos essa ideia até pode ser interessante, porém nunca funcionaria em qualquer série de publicação semanal, pois isso vai contra os fundamentos estruturais de roteiro para TV, que determinam que todo e qualquer episódio deve conter um evento completo, e ao final tem que promover a venda do próximo, mantendo assim a curiosidade e fidelidade do público.
É simples entender isso, pois quando se tem um compromisso semanal com seu público, você tem que entregar algo sempre, pois ele não pode se sentir enrolado. E isso costuma acontecer na maioria das séries da Marvel, que geralmente se preocupam mais em vender o próximo episódio do que em desenvolver e entregar algo no atual.
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Eis que surge a série da Mulher-Hulk, que mesmo não sendo, nem de longe, uma das melhores já feitas pelo estúdio, muda esse formato e tem sucesso ao fidelizar e entreter aqueles que lhe assistem de coração aberto.
Aliás, é preciso ter boa vontade para gostar desta série, pois ela é talvez um dos mais ousados projetos da fase mais experimental que a Marvel vive hoje.
Repleta de personagens obscuros, a série acerta ao trazer o bizarro para o cotidiano do MCU, e entrega um lado até então pouco explorado no universo dos super-heróis.
O clima de sitcom traz um toque de leveza, que causa uma sensação de conforto parecida com a de um almoço caseiro de domingo em família.
É de se elogiar o trabalho do roteiro nesse quesito, que leva o expectador para dentro daquele universo, que é, de certa forma, tão imersivo quanto o de The Boys.
Se ao imaginar que super-heróis existem em nosso mundo, The Boys mostra o lado corporativo, imoral, sangrento e pessimista da coisa, Mulher-Hulk: Defensora de Heróis traz otimismo quase que em um clima de parque de diversões.
Veja bem, não está sendo feita uma comparação entre as duas séries em quesito de qualidade, e sim de proposta narrativa. Até porque quando se cita The Boys, se fala de algo com eventos mais grandiosos do que os da série do Disney+.
Mas vamos com calma, não é a falta de algo grandioso que deixa a série sem brilho, pois ela ainda comete alguns erros tanto digeríveis, quanto indigestos.
Quando se fala em ter boa vontade para poder aproveitar a série, não tem como não se referir ao seu processo de renderização de CGI apressado. A opção pela captura de movimentos da Mulher-Hulk certamente não foi a melhor possível, pois em muitos momentos isso chega a incomodar bastante a quem está assistindo.
Mas dá para digerir os efeitos especiais ruins, o que é mais difícil é sentir-se confortável assistindo às cenas de quebra de quarta parede, que definitivamente não funcionam na grande maioria das vezes.
Sim, nos quadrinhos a quebra da quarta parede é um elemento importante para a personagem, e nós já vimos filmes como Deadpool usarem tal recurso e entregar algo satisfatório.
Porém, ter que intercalar isso ao longo de uma trama, exige um certo nível de sutileza e pontualidade, que passou longe de ser atingido na produção do Disney+.
Se pegar Fleabag como exemplo, é possível notar isso de forma mais clara, pois enquanto a série do Prime Video é certeira em suas quebras de clima com piadas, Mulher-Hulk: Defensora de Heróis algumas vezes perde o timing, o que faz com se crie um certo nível de constrangimento.
Não dá para adivinhar onde que as coisas não se resolveram bem para que tais momentos existissem, porém, é um fato que em algumas ocasiões a série soa como algo industrializado, feita só porque tinha que ser feita.
Mas, não sejamos tão ranzinzas, pois muito pouco se esperava da série depois da divulgação das prévias, e também devido a todos os problemas de produção relatados antes da estreia. No fim, ela acabou entregando algo satisfatório, superando as expectativas de muitos.
É aquilo, tudo na vida é aprendizado, e a melhor forma de aprender é errando. Assim como a Marvel parece estar aprendendo o formato ideal para fazer séries de TV, ela pode muito bem aprimorar o bom conceito de Mulher-Hulk: Defensora de Heróis, e entregar uma ótima 2ª temporada no futuro.