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Quando o primeiro filme da Mulher-Maravilha foi produzido, tínhamos uma diferente configuração ao redor da personagem, ela fazia parte de um universo e de um conjunto de iniciativas para criar um sucesso similar ao que o Universo Cinematográfico da Marvel conseguiu, ou seja, fazer com que cada novo longa fosse praticamente um episódio de uma série de produções da DC Comics. Infelizmente, os problemas decorrentes de uma série de fatores acabaram atrapalhando os planos existentes para a DC e Warner e isso fez com que tivéssemos uma separação mais clara seguindo a visão de cada diretor.

Obviamente que a liberdade criativa é um ponto positivo e bem vindo, mas sabemos que a falta de uma base pode ser bastante prejudicial para que haja reconhecimento e familiaridade entre o que é apresentado na tela e o que os telespectadores esperavam. Um bom exemplo disso é ‘Star Wars: Os Últimos Jedi’, em que vimos como a visão de Rian Johnson era divergente do que já tinha sido proposto para os personagens. Ainda que não seja da mesma forma e tom, é complicado dizer que Mulher-Maravilha 1984 serve como uma real sequência do longa original. Sim, temos Diana lembrando de tudo que viveu no primeiro filme, lamentando a morte de um homem que viveu há 60 anos atrás, mas existem vários fatores que não se encaixam com o que já vimos da personagem nos outros ‘episódios’ da DC. Ok, eu entendo que nenhum filme possui tal necessidade, mas se uma ‘mitologia’ está sendo construída nas telas, qual o motivo de não seguir o que já foi estabelecido?

Para um filme que deveria trazer uma personagem mais forte e resolvida, também é difícil acreditar que Diana tenha optado por passar 60 anos de luto por Steve Trevor. Ainda que fosse seu único amor, tal decisão limita muito a personagem e faz com que ela se torne bastante dependente do passado. O mais curioso é que é exatamente o passado que cria o maior furo no filme: diferente do que sabíamos antes, a Mulher-Maravilha efetivamente continuou em atividade ao longo das décadas, mas, curiosamente, não existem registros, documentos ou testemunhos sobre ela. Ela é uma lenda urbana, que age constantemente, mas que possui um certo ‘contrato de confidencialidade’ tácito entre ela e seus observadores.

Mas este não é o único problema com a história, pois, enquanto Diana não está salvando o mundo, ela está vivendo de forma solitária e triste como curadora de um museu, mesmo trabalho que ela exerce em seu primeiro longa.

Óbvio que o filme possui pontos positivos: as atuações são muito boas, Gal Gadot realmente está bastante confortável com a personagem. Kristen Wiig se esforça bastante para dar credibilidade à sua personagem e Pedro Pascal e Chris Pine conseguem imprimir bem suas qualidades artísticas. O plot do filme nos faz pensar sobre competição, inveja, egoísmo, ética, heroísmo e consentimento. E tais ideias podem se aplicar a praticamente tudo: desde o relacionamento entre Steve e Diana, quanto à estranha dualidade entre Diana e Bárbara, que mais parecem reflexos opostos.

As cenas de ação também são muito bem feitas, embora não tão frequentes. A presença de várias homenagens e easter-eggs enchem os olhos de qualquer fã de quadrinhos e a grande transformação de Barbara em Mulher-Leopardo faz com que o filme ganhe um real motivo para existir. Na verdade, também diria que a cena de abertura com as demais Amazonas já é motivo suficiente para assistir o longa.

Entretanto, não dá para dizer que o filme é realmente cativante. Há pontos bem conflitantes como a luta de Diana por um mundo em que ela praticamente só trabalha, basicamente, não há nada que a faça desejar defender, viver ou proteger além do fato de ser uma heroína. Sei que este é o principal mote do heroísmo, o amor ágape, a determinação inabalável pela justiça e proteção dos inocentes, mas para alguém que viveu triste e sozinha durante todos esses anos (afastada não só de Steve Trevor, mas de todas as suas familiares e companheiras), é difícil se inspirar ou criar esperança a partir de uma vida tão vazia. Basicamente, você acaba o filme sentindo pena da protagonista, quando o mais correto terminar o filme empolgado e sedento por mais.

Para uma heroína que representa a força, coragem, esperança, verdade, justiça e também é um ícone feminino, sinceramente eu lamento dizer que a Diana Prince de Mulher-Maravilha 1984 falha em seu propósito. Gostaria até de ter feito uma crítica mais interessante e inspirada, mas sinceramente, não traria o sentimento correto em torno do filme. Fica a torcida para que a nova versão da Liga da Justiça traga mais cenas da personagem com um take mais próximo do que vimos antes.

Positivo
  • Boas atuações
  • Boas cenas com as Amazonas (ainda que breves)
  • Algumas das cenas de ação
Negativo
  • A história
  • A triste vida de Diana Prince
  • Divergência entre o que há no filme e o que foi estabelecido antes
  • Os poderes novos de Diana poderiam ter ajudado nos filmes que acontecem cronologicamente após este
Nota 7
Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.