Não se é grande sendo só bom, ou só ruim, ser grande é uma coisa natural, e o Neymar Jr. é. Seja pelas reações de amor, que são intensas, ou pelas de ódio que fazem até mais barulho, tudo que envolve o nome do atleta é intenso, como um caos, um caos perfeito, que faz dele essa figura tão particular.
Em ‘Neymar: O Caos Perfeito‘, a Netflix tira o jogador de campo para contar sua história, sem entregar muito para quem já o conhece. A grande parte narrada ali quem já é fã conhece até de forma mais detalhada, e de fato a narrativa é estruturada como uma apresentação.
O diretor David Charles Rodrigues é competente nesta missão, pois narra de forma linear e coesa os acontecimentos. Ele manda bem inclusive na escolha dos depoimentos, por um lado os amigos jogadores do atleta, por outro, desafetos históricos como Renê Simões.
O Juka Kfouri ter um papel de tecer comentários também é interessante, pois é um dos que mais pega pesado com o camisa 10 da seleção brasileira. Na série, o jornalista deixa claro que reconhece o seu talento, mas que sente decepção por enxergar que ele nunca atingiu o seu máximo.
A relação entre o atleta e seu pai é o grande destaque da série. Sem seu pai, Neymar Jr. jamais teria se tornado o que é hoje, mas ao mesmo tempo, isso é algo mal resolvido que nitidamente mexe com o emocional do craque. Ele até diz que sente falta do pai dele, e que as vezes sente ele mais como seu empresário do que como alguém da família.
Um exemplo disso é visto na cena em que os dois tem uma conversa séria, após a acusação grave de 2019 contra o Neymar. Seu pai se refere a ele a todo tempo como uma marca, e não como seu filho. Em alguns momentos até, ele chega a soar mais preocupado com a imagem do seu filho, do que propriamente com sua vida e bem estar.
Ao mesmo tempo que a relação entre pai e filho parece um pouco abusiva, ela é determinante para que esta história exista. É como um caos, mas não de forma simples e pejorativa, pois é o complexo caos perfeito que a série traz em seu subtítulo.
Caos este que envolve as polêmicas em que o atleta se envolve, nas quais ele diz não ligar para as reações. No fundo ele liga sim, ele fica irritado com isso, e chega a dizer até mesmo que gostaria de ser anônimo e não famoso. Aí vem as cobranças de sua mãe, e a frase clássica proferida por ela “a quem muito é dado, muito será cobrado“.
Dentro de campo, Neymar nunca fugiu desta cobrança que existe desde que ele era uma criança. O camisa 10 portanto nunca quis ter essa responsabilidade fora dos gramados, o que irrita muita gente, que inclusive vai se decepcionar com o que é mostrado, pois a Netflix conta a história de um personagem, e não o demoniza.
A série dá um tom do motivo do jogador do PSG não ser ativo nisso, que é o fato dele ter sido quase um “rato de laboratório”, educado para ser apenas a melhor versão possível de um jogador de futebol.
Sobre isso, Bruno Formiga, comentarista esportivo da TNT Sports, que fala que “Neymar é um refém do próprio talento“, já havia dito que culturalmente não damos educação para nossos atletas, que vivem basicamente de treinar desde cedo, com a responsabilidade de mudar a vida de sua família. Em resumo, quando cobramos posicionamento político e social deles, estamos cobrando algo que não demos para eles.
Por mais que já escrita como segundo maior artilheiro da história da seleção brasileira, maior transferência do futebol mundial, e brasileiro com mais gols na Champions League, a história do Neymar Jr. ainda não acabou, e a série deixa o futuro em aberto para novas temporadas.
Segura, a série cumpre bem seu papel em apresentar o atleta para quem o conhece apenas pelos fóruns de fofocas, ou matérias de jornais. Porém, falta uma dosagem maior de ousadia em sua mistura com a alegria, para compor todo este caos perfeito.






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