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Quando um filme se propõe a ser um retrato de algo, mesmo adotando uma perspectiva tendenciosa, contribui mais para suscitar conflitos e debates do que para transmitir uma mensagem pronta. O Aprendiz (2024), de forma muito interessante, é esse tipo de obra.
Preciso jogar limpo aqui: a figura de Donald Trump não me causa simpatia alguma, muito pelo contrário. Portanto, quando o marketing da Diamond Films começou a vender O Aprendiz (2024) como “o filme que Donald Trump não quer que você veja“, muita coisa passou pela minha cabeça, incluindo algo próximo a uma comédia política. No entanto, para minha grande surpresa, não foi isso que eu encontrei. O que recebi foi algo muito distante disso, na verdade.

O longa, que se passa entre os anos 70 e 80, fala sobre a cultura de poder norte-americana através da jornada ascensão de um jovem ambicioso, que se tornaria um poderoso magnata de Nova York e, décadas depois, seria eleito presidente do Estados Unidos. Em tom, o Trump do filme parece muito o personagem principal da música “Money For Nothing“, do Dire Straits, o que somado ao excelente trabalho de Sebastian Stan, traz alguma simpatia para essa figura.
A narrativa estruturada como uma tragédia, entretanto, tendencialmente enquadra essa história como a origem de um vilão. Sem que você tenha assistido, talvez não faça muito sentido o que vou escrever a seguir: O Aprendiz (2024) é muito parecido com a série da HBO do Pinguim em vários aspectos, principalmente na forma como desenvolve seu personagem principal.
Para quem não gosta de Trump e já procurou saber das acusações que ele sofreu ao longo da vida, o filme não traz muita novidade. Então, se você for assistir sob essa expectativa, talvez se decepcione. Quanto aos apoiadores do ex-presidente, não tenho certeza se eles vão ficar felizes, pois, embora reconheça que o magnata não obteve suas conquistas por acaso, o longa tenta fazer dele um vilão, inclusive, através de sequências aterrorizantes, como uma cirurgia de lipoaspiração que lembra muito a transformação de Anakin em Dath Vader de A Vingança dos Sith (2005).
O grande charme de O Aprendiz (2024), no entanto, reside em como ele evolui de um bromance entre Trump e seu mentor Roy Cohn para um filme de terror sobre um homem sendo consumido pelo monstro que ajudou a criar.
Repare que cito Roy Cohn como alguém que ajudou a criar o magnata, e não como alguém que o criou. É importante entender que, em O Aprendiz (2024), Trump não é encarado como um problema, e sim um sintoma do “sonho americano“, que divide as pessoas entre ganhadores e perdedores.
Essa cultura de poder do Estados Unidos é muito próxima da nossa, e todo dia somos alvos de sua romantização. Existe uma grande pressão social e familiar para sermos “alguém de valor“, porque caso contrário, você é “ninguém“. Ou você mata, ou você morre, e como o Trump de Sebastian Stan faz questão de dizer várias vezes no filme, ele é um matador.
Não existe moralidade no “sonho americano“. O Aprendiz (2024) usa Roy Cohn para ensinar a Trump que o Estados Unidos é um país de homens e não de leis. Se as leis tentam ser claras rígidas, os homens são maleáveis.
Outro grande ensinamento que o magnata aprende é que ele não precisa ligar para o que as pessoas falam dele, já que bem e mal são conceitos subjetivos e, com o poder na mão, ele pode criar a sua própria realidade. Quanto aos crimes, polêmicas e acusações, Roy Cohn deixa claro para Trump: “negue tudo“.
O aprendizado principal de Roy Cohn para Trump, entretanto, é o de jamais admitir fraqueza ou derrota. Isso é brilhantemente representado por Sebastian Stan em uma sequência trágica, que traz seu personagem lutando com todas suas forças para controlar o choro ao lado de Ivana Trump (Maria Bakalova), pois ele não queria demonstrar fragilidade nem para a mãe de seus filhos.
Aliás, isso vale destaque: o elenco inteiro está incrível e só por eles já valeria a pena assistir ao filme nos cinemas. Sebastian Stan e Maria Bakalova são sérios cotados a indicações ao Oscar, enquanto Jeremy Strong é forte cotado a ganhar o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante por sua performance brutal como Roy Cohn. Arrisco a dizer que é o melhor trabalho de atuação da carreira dele, e olha que ele já fez grandes trabalhos.
A figura de Roy Cohn, sem dúvida, é a grande carga emocional do filme. O personagem é extremamente conflituoso, um homem ruim que defende criminalmente outros piores do que ele, mas que vive em sofrimento por jamais assumir sua homossexualidade. Ao longo do filme, você pode sentir desde repulsa por esse sujeito sínico até compaixão pelo conflito interno que existe nele.
Há de se destacar também o trabalho de Gabriel Sherman no roteiro. Seria muito fácil e raso abordar Donald Trump como uma figura simplesmente brega e rir disso, mas o roteirista seguiu por um outro caminho, destrinchando o modus operandi desse homem de poder como algo que funciona — não é por acaso que Trump está tão forte na corrida presidencial dos EUA novamente. Embora de forma tímida, O Aprendiz (2024) também retrata a lógica da extrema-direita, não a condenando, mas estudando por que pessoas se atraem por ela e qual o papel dessa cultura americana sobre perdedores e vencedores nisso.
Estava muito curioso para ver como Ali Abbasi se sairia no controle de uma história baseada em fatos sobre uma figura real tão controversa. O diretor iraniano famoso por Holy Spider (2022), Border (2018) e os dois últimos episódios da 1ª temporada de The Last of Us, tem como forte assinatura a mistura do realismo com elementos mais surrealistas e perturbadores para criar tensão e provocar o público, às vezes até usando fortes simbolismos. Em seu novo filme, ele conseguiu repetir isso sem perder a mão.
Há uma sequência final que envolve uma joia falsa e remete diretamente à forma como o diretor lida com simbolismos. Nela, ele representa tudo o que pensa sobre os personagens dessa história: por fora podem até ser chamativos e parecerem valiosos, mas quem os conhece de fato não lhes atribui valor algum.
Visualmente, Abbasi empreende uma jornada bastante interessante. Aproveitando a popularidade de Donald Trump como figura pública na televisão norte-americana, a fotografia propositalmente brega e reluzente do filme remete às telas quadradas características dos anos 70 e 80. A ambientação da época, seja através desse recurso visual ou da incrível trilha sonora, é extremamente precisa.
O Aprendiz (2024) é, surpreendentemente, um filme tão atroz quanto divertido. Como retrato da cultura de poder norte-americana sobre ganhadores e perdedores, o longa não ousa impor respostas, mas traz uma visão necessária sobre o ônus do sonho americano, que também pode ser uma fábrica de monstros, e isso não tem a ver só com a extrema-direita, vale destacar. A situação é mais complexa que isso.
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