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Aos 61 anos, David Fincher faz de O Assassino (2023) uma autobiografia metafórica, que se propõe a fazer uma reflexão ácida sobre a selvageria do mundo moderno.

Ao apresentar Michael Fassbender na figura de um assassino metódico e perfeccionista, que deixa os sentimentos de lado para executar seu trabalho, o diretor remete a si mesmo como artista exigente que é.

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Reprodução/Netflix

A situação fica ainda mais interessante quando Fincher começa a refletir em tela se, assim como o assassino, realmente não dá a mínima para as causas que envolvem seu trabalho. Afinal, tudo se trata realmente de executar perfeitamente, pegar seu dinheiro e sumir?

Tal reflexão não encontra uma conclusão no filme, que não se esforça para encontrar todas as respostas para as questões que levanta, mas faz questão de enfocar na mensagem central de que todos somos descartáveis perante o sistema.

Quando mostra o assassino errando e tudo desmoronando, o diretor está claramente dizendo que, mesmo ele, com nome e carreira que tem, terá sua cabeça a prêmio caso cometa um grande erro.

Aliás, não se trata apenas de não errar, mas também de não ser perfeito. Basta lembrar que, mesmo com todo prestígio que tem, David Fincher não foi capaz de livrar Mindhunter do cancelamento.

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Reprodução/Netflix

Não é só sobre si que Fincher fala em O Assassino (2023), mas também sobre como o mundo se tornou mais ansioso com a velocidade das informações.

A ansiedade é provocada desde os primeiros minutos, quando impaciente por ação, o público é obrigado a assistir o assassino esperando dias para dar o tiro perfeito. É uma espera agoniante que, embora um pouco frustrante, está na edição para preparar perfeitamente o que vem a seguir.

Quanto a edição, trilha sonora, iluminação, fotografia e atuações, O Assassino (2023) é tão impecável quanto qualquer obra de David Fincher.

Já o tão divulgado roteiro de Andrew Kevin Walker (Seven: Os Sete Crimes Capitais) é tecnicamente bem estruturado, porém, não é algo do tamanho da expectativa gerada. Trata-se de um desenvolvimento de história que serve mais para justificar o filme, do que para deixá-lo complexo.

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Reprodução/Netflix

O que vale exaltar dos trabalhos de Andrew, Fincher, Fassbender e do editor Kirk Baxter, é o modo como cada um deles consegue exibir em tela uma linguagem muito característica dos quadrinhos, horando o material original de Matz e Luc Jacamo.

Fassbender quase não fala em tela, e isso é algo que exige muito de sua atuação. Ele não só entrega muito bem o trabalho, como assume o personagem com um dos principais de sua carreira como ator.

Kirk Baxter tem muito êxito ao dividir o filme em capítulos, tal qual uma série em quadrinhos. Importante ressaltar que, há uma sequência de ação em Miami, que sua edição se faz estrela no filme.

Baxter tem feito um ano incrível, aliás, pois além de ter entregue O Assassino (2023) com uma montagem ímpar, também fez um trabalho extraordinário em Dinheiro Fácil (2023), filme que tem suas bases de sustentação em sua edição revolucionária.

Quanto ao trabalho de Fincher, é o mesmo que encantou os fãs de cinema nos anos 90, de modo que o filme se faz quase como uma viagem no tempo.

Reprodução/Netflix

No entanto, o problema dessa viagem para os anos 90, é que ela também traz de volta um Fincher que não aborda mulheres da melhor maneira, e carrega algumas ideias erradas sobre estereótipos sociais. É bem verdade que, narrar a história sob a ótica de um assassino deplorável dá um pouco de liberdade poética para isso, mas não deixa de ser um ponto negativo do filme.

Há também uma grande semelhança a Clube da Luta (1999), no modo em que o personagem principal comete todo tipo de atrocidades e não sofre qualquer consequência relevante. Isso faz com que a mensagem principal do filme fique aberta a interpretações erradas.

Por mais que Fincher deixe literal em tela que não dá a mínima para se a pessoas vão entender seu filme errado, vivemos em tempos onde esse tipo de postura é perigosa.

Fato é que, O Assassino (2023) é um pacote completo de David Fincher, que faz do filme seu ato de resistência ao mercado moderno de Hollywood. Um verdadeiro deleite para os fãs do diretor.

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Nota 8
Ramon Vitor, Editor-Chefe do site, engenheiro civil convertido em jornalista, é um apaixonado por cinema, quadrinhos e pelo poder transformador da comunicação. Com um olhar analítico aprimorado por anos de estudo da indústria cinematográfica, ele mergulha em seus artigos para O Vício desde 2021, transformando sua paixão em conteúdo cativante. Descubra uma perspectiva única sobre o universo do cinema e da TV.


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