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Não é a toa que está se fazendo uma euforia desnecessária em torno da forma mais imaculada de se assistir O Irlandês, o novo filme de Martin Scorsese, (você pode pausar pra ir no banheiro, aliás, não tem nada demais) ou comparações sem nexo com filmes da Marvel (o pior é que tem uma discussão muito válida sobre oligopólios e saturação de mídia aí que está sendo totalmente perdida em prol de bobagens como definir o que é “cinema” de verdade). Mas é compreensível que isso esteja ocorrendo, afinal, é difícil não imaginá-lo como um grande marco de transição.

Apresentando-se quase como uma despedida do épico de máfia – um dos gêneros mais respeitados especialmente desde os anos 70 – O Irlandês é produzido pelos mesmos nomes que imortalizaram muitos desses clássicos e que enfim é lançado primariamente para um serviço de streaming, com apenas um lançamento limitado para, à essa altura, a mitológica tela grande. O velho consagrado se deparando com o novo inevitável e todas as mudanças de paradigma que a indústria ameaça. É o suficiente para alguns autointitulados cinéfilos mais puristas encararem como um sinal do apocalipse cinematográfico (não é, mas, de novo, eu entendo que parece assustador).

E nesse ponto, é uma pena que tanto do discurso em torno do filme esteja concentrado em futilidades, porque ele não apenas é uma obra-prima tardia (tanto na carreira de Scorsese, como de todo o gênero de máfia e a geração de diretores da Nova Hollywood) como seus temas não poderiam ser mais apropriados para marcar esse rito de passagem.

Formando uma trilogia não-oficial com Os Bons Companheiros e Cassino, o filme marca a reunião de Scorcese com figuras icônicas de seu elenco, Robert De Niro e Joe Pesci, e também seu primeiro trabalho com Al Pacino (curioso que isso tenha demorado mais de 40 anos para acontecer). Como bônus, outras pessoas que você esperaria ver em um filme desses, como Harvey Keitel, Ray Romano e Stephen Graham também dão as caras aqui.

Adaptado do livro de não-ficção “I Heard You Paint Houses”, o filme narra a saga de Frank “O Irlandês” Sheeran (De Niro), veterano de guerra e motorista de caminhão, que se torna um matador da máfia ao se tornar amigo do criminoso Russel Bufalino (Pesci). À medida que ele cresce na organização, Sheeran se torna próximo do famoso líder de sindicato, Jimmy Hoffa (Pacino), ganhando nome entre as partes corruptas da organização trabalhista.

Ao longo das décadas, Sheeran se vê dividido entre sua amizade com Hoffa e sua lealdade com a máfia, à medida que as tensões entre o sindicalista e Bufalino e seus superiores se tornam cada vez mais antagônicas.

Para manter o mesmo elenco ao longo de todo o filme, foi utilizada tecnologia de rejuvenescimento digital para representar os personagens ao longo das décadas, em um processo complexo envolvendo duas câmeras digitais simultâneas ao lado da principal, em película. O resultado é interessante, mas não tão convincente ao ponto de não distrair, especialmente com seu protagonista.

Eles conseguem remover as rugas de De Niro, mas sua boca, peso e postura entregam que ele é um homem na casa dos 70, especialmente na primeira parte do filme, onde Sheeran deveria ter em torno de 35 anos. O efeito funciona melhor à medida que a narrativa prossegue e Sheeran entra na meia-idade. Já Pacino e Pesci interpretam personagens que já são relativamente mais velhos desde o início, e especialmente, mais maduros que Sheeran, então a transformação é bem mais crível.

O Irlandês

Tal qual os depoimentos de Sheeran no livro, o filme retrata alguns crimes que ele “confessou” no fim da vida, cuja veracidade é muito contestada por historiadores (tem até teoria da conspiração da morte do Kennedy no meio), mas a importância disso é secundária, afinal, não se trata de um documentário, mas um estudo da figura semi-ficcional do Irlandês.

Mais um na lista de protagonistas criminosos e anti-heróis patéticos sem autoconsciência de Scorsese e que hoje, mais do que nunca, entendemos como um estudo sobre os perigos da masculinidade tóxica. O diferencial de Sheeran é que sua hubris não é impulsividade ou arrogância, como tantos outros na filmografia do diretor (o próprio Hoffa se encaixa nisso), mas a sua complacência criminosa e facilidade de engajar em violência brutal quando ordenado, sem questionar as implicações morais de seus atos. Essas tendências são estabelecidas desde cedo, quando aprendemos que ele executava prisioneiros de guerra quando no exército, e informam as ações do persona ao longo da trama.

É uma representação precisa da “banalidade do mal”, o famoso conceito introduzido pela autora Hanna Arendt ao cobrir o julgamento de nazistas alemães em Israel nos anos 60, transportado para o universo da máfia americana.

Uma narrativa tão pesada e trágica poderia facilmente se tornar um melodrama enfadonho, mas Scorsese conduz a narrativa com firmeza e naturalidade, valorizando a humanidade brutalmente falha de seus protagonistas

Também diferente de um filme como Os Bons Companheiros, aqui não há sinal do humor negro ou diversão mórbida que davam vitalidade ao longa. Não há espaço para tal. Mesmo se passando em diferentes estágios da vida do nosso protagonista, esse é inegavelmente um filme sobre velhice e sobre arrependimento amargo que chega ao fim de uma vida mal vivida, marcada pela tolice. Um feito que só poderia ser executado por um cineasta experiente nesse ponto de sua vida.

O Rei Lear de Scorsese

Obviamente essa não é a aposentadoria do diretor, o homem tem mais energia aos 77 anos do que eu em qualquer idade e já tem mais de um projeto novo em desenvolvimento, mas é difícil imaginar um retorno desse tipo de filme, dessa forma específica e com essas pessoas envolvidas.

Então se essa realmente for a despedida dos filmes de máfia longuíssimos sobre caras brancos em ternos cafonas recapitulando suas vidas no século 20 através de narração em primeira pessoa enquanto percebemos o quão fracassados eles foram como seres humanos, não se pode imaginar um encerramento mais ideal.

Positivo
  • • De Niro, Pacino e Pesci em performances fantásticas (que surpresa)
  • • Um soco no estômago sobre velhice e arrependimento
  • • Uma elegia ao épico de máfia das décadas passadas
Negativo
  • • Robert De Niro rejuvenescido no começo não convence (e eu ainda assim vou dar 10 pro filme, porque notas em críticas são uma quantia abstrata e qualidade não pode ser medida com uma fórmula matemática)
Nota 10010
Crítica | O Irlandês



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