
Dessa forma, confesso que já tenho um certo preconceito com esse tipo de filme, indo sempre assistí-los com várias ressalvas. Para um filme biográfico me agradar, ele precisa convencer de diversas formas. Desde a sua construção até as atuações. Precisa mostrar a que veio, e não que é apenas mais um. E ainda não sei o que pensar sobre O Jogo da Imitação, filme do diretor Morten Tyldum que conta a história do matemático Alan Turing, considerado o pai da computação, e de como ele liderou uma equipe secreta durante a Segunda Guerra Mundial para desencriptar mensagens alemãs.
No papel principal temos Benedict Cumberbatch, em alta devido a seus trabalhos na série Sherlock e em filmes como Star Trek e 12 Anos de Escravidão, além de ter sido recentemente escolhido como Dr Estranho no vindouro filme da Marvel. Por seu trabalho em O Jogo da Imitação, Cumberbatch concorre pela primeira vez na categoria de melhor ator no Oscar.
O ator entrega um Alan Turing completamente crível, que nos faz torcer por ele e ao mesmo tempo emociona com seus dilemas e desafios devido à sua homossexualidade, algo que era tabu e inclusive considerado crime na Inglaterra daquela época. Porém, apesar de brilhante como sempre, Benedict Cumberbatch ainda não conseguiu me surpreender. Seu papel aqui não é diferente do que precisa fazer quando é Sherlock, ou de quando interpretou o ativista Julian Assange em O Quinto Poder. É como se sempre o presenteassem com o mesmo estereótipo de personagem, alguém estranho, arrogante e antissocial, o que faz com que o ator não tenha oportunidade de mostrar uma outra faceta.
Baseado no livro Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges, o filme é narrado em três linhas temporais: Uma com Turing contando como se sucederam os acontecimentos; outra mostrando sua infância onde nos é revelado o seu primeiro amor (seu melhor amigo); e uma terceira que é a principal do longa, onde os acontecimentos principais se desenrolam.
O filme inicia com Alan Turing sendo recrutado pelo Comandante Denniston (Charles Dance) para fazer parte de uma equipe secreta com outros matemáticos brilhantes, cujo propósito é desencriptar a máquina Enigma, aparelho com o qual os alemães codificavam suas mensagens. O problema é que os esforços diários para decodificar as mensagens dos inimigos acabam se mostrando inúteis, pois a cada novo dia o código muda, fazendo com que todo o trabalho retorne à estaca zero. Com esse obstáculo no caminho, Turing decide focar todo o seu tempo na construção de uma máquina que segundo ele iria revelar qualquer código, mais rápido do que qualquer homem. Ali nascia o primeiro projeto do que hoje conhecemos como computadores.
Enfrentando a relutância de seus companheiros de trabalho em ajudá-lo, muito disso devido ao seu temperamento difícil e antissocial, Turing explica para seus superiores sobre a máquina e acaba conseguindo permissão para liderar a equipe. Porém seu temperamento difícil somado ao ego dos outros matemáticos, pode fazer com que isso seja mais difícil do que ele pensava.
É quando surge Joan Clarke (Keira Knightley), uma jovem brilhante que encanta Turing com sua inteligência e faz com que o grupo se aproxime, aprendam a trabalhar juntos, conheçam uns aos outros e se respeitem. É após a chegada de Joan que Turing aprende o que é ter amigos e precisar de ajuda, e só então o projeto evolui.
A personagem de Knightley está ali apenas para mostrar como era o tratamento dado às mulheres naquele tempo, em cenas que vão desde a preocupação dos pais em deixá-la trabalhar em um lugar onde predominam homens, até o noivado de aparências entre ela e Turing somente para que possam trabalhar juntos sem que a moça fique “mal falada”. Porém sua relação com o matemático é muito interessante e bem trabalhada, mostrando que os dois possuem um afeto e amizade que não é amor entre homem e mulher, e sim algo muito mais próximo de respeito e admiração.
No final, como todo filme baseado em fatos reais, temos informações do que aconteceu após os acontecimentos mostrados durante o longa, e a estimativa de que os esforços de Turing e sua equipe reduziram a Guerra em pelo menos 2 anos, salvando cerca de 12 milhões de vidas. Uma pena que um ato tão heróico tenha passado 50 anos escondido como segredo de Estado, e Turing tenha sido condenado por homossexualismo (era crime na época) . Para escapar da prisão, o matemático acabou optando pela castração química e tratamento com hormônio feminino, o que lhe ocasionou o crescimento de seios e o jogou em uma terrível depressão, até o seu suicídio em 1954, aos 41 anos.
O filme, infelizmente (embora já esperado, como sempre), não aborda esses acontecimentos, encerrando no início do tratamento de Turing. Uma pena, pois teria dado mais peso à narrativa, e ainda mais importância à realização do matemático, que só veio receber o perdão real da Coroa Britânica em 2013, após uma longa campanha apoiada por alguns dos maiores cientistas do mundo, entre eles, Stephen Hawking.
De forma geral, O Jogo da Imitação é um excelente filme. Emociona e nos coloca a par da história desse homem brilhante que merece toda homenagem. Peca apenas por não ousar, mas cumpre seu papel.