Comentários

Um projeto tão supérfluo quanto um remake quadro-a-quadro em CGI de O Rei Leão pode parecer, no pior dos casos, uma perda de tempo completamente inofensiva. E no entanto, cá estamos, com MUITA coisa pra descarregarmos desse filme. E nada particularmente bom.

Trata-se de um filme nascido inteiramente por comitê, no qual figuras como o diretor, Jon Favreau, ou aqueles que produziram o original de 1994 são meramente decorativas. Muitos engravatados contemplaram a boa recepção do remake de Mogli – O Menino Lobo e o seu uso impressionante de computação gráfica, o sucesso (mesmo que não a qualidade) das animações da Renascença como a Bela e a  Fera e Aladdin e a popularidade monstruosa do Rei Leão, o ápice dessa aclamada fase da Disney nos anos 90, e fizeram na cabeça a seguinte equação:

Efeitos de Mogli + sucesso dos remakes live-action + popularidade do Rei Leão = $$$$$$

E enquanto essa fórmula realmente faz sentido para produzir um ou outro recorde de bilheteria fácil, ela definitivamente não se aplica para fazer um filme bom ou até mesmo um que  seja coerente.

A trama é sobre o leãozinho Simba, o herdeiro ao trono de rei da savana africana, sucedendo seu pai, Mufasa. Mas o conflito se instaura quando seu tio maquiavélico, Scar, arquiteta um golpe para tomar o trono para si e… gente, é o Rei Leão, todo mundo já assistiu, vocês sabem qual é a história e esse remake não tem absolutamente nenhuma intenção de tentar nada diferente.

A tecnologia aplicada no filme é realmente impressionante, criando cenários e animais tão verossímeis que podem muito bem enganar até mesmo os olhos treinados por anos assistindo imagens criadas no computador. Nesse ponto de vista meramente técnico, o filme é como um milagre…

E no entanto, ele também é extremamente feio.

Como uma demo para testar os limites do software, ele impressiona, mas como filme, esse visual não faz nada além de sugar toda a beleza e magia do original. É quase como se muito dinheiro investido em tecnologia de ponta não fosse o mesmo que bom cinema. Quando foi que isso deixou de ser óbvio?

Não que o realismo não possa ser uma escolha criativa válida. Clássicos animados como Watership Down (Uma Grande Aventura no Brasil), por exemplo, retratam o seu elenco de coelhinhos da forma mais natural possível, para contrastar com a brutalidade da trama e do reino animal. Nada disso está presente aqui. Trata-se apenas de uma colagem hiper-realista em cima de uma das narrativas mais tradicionalmente românticas e emocionais das animações. E isso cria uma óbvia dissonância:

Ele quer se comprometer nessa abordagem fotorrealista e ao mesmo tempo ser um remake semi-idêntico plano-a-plano do original, um filme que foi todo planejado em cima da linguagem da animação tradicional Disney. E isso porque nem estamos discutindo o quão perfunctória é a ideia de fazer um remake plano-a-plano.

Essa proposta do remake só teria alguma chance de funcionar se eles estivessem dispostos a reinventar O Rei Leão drasticamente a sua própria maneira… mas aí o apelo de nostalgia barata não seria tão grande, né?

Nessa devoção ao fotorrealismo, o filme apenas perde (e muito) e no lugar não se acrescenta absolutamente nada além de uma falsa noção de prestígio. Afinal, se parece live-action quer dizer que essa é a versão mais adulta, certo?

Muito se discutiu se esse filme realmente pode ser chamado de live-action ou se não é apenas uma outra forma de animação, mas o que se perde nessa discussão é como isso consegue ser um tremendo insulto à arte, implicando que o live-action ou o fotorrealismo é aquilo que toda animação aspira ser e o “upgrade” de luxo que ela um dia pode receber se for boazinha o suficiente.

O original, mestre em guiar o espectador de qualquer idade em uma jornada emocional poderosa, fazia uso de todo tipo abstrações para transmitir seus sentimentos, com cores vibrantes e simbólicas, iluminação dramática e níveis variados de antropomorfização dos animais (ainda com muito estudo e respeito pelo anatomicamente correto, mas sem deixar que isso se tornasse uma limitação).

Esses são todos elementos que o remake precisa se despir em sua busca incessante pelo realismo:

A fotografia naturalista dessaturada que por algum motivo quer parecer com um documentário de natureza da National Geographic, bem como planos e movimentos de câmera mais lentos e menos dinâmicos. Pior, os animais não podem se movimentar de qualquer forma antropomorfizada, nem transmitir qualquer expressão humana que um animal de verdade não teria (ou seja, qualquer expressão). Não é nenhuma surpresa que leões na vida real não são exatamente os animais mais dramaticamente dinâmicos. O resultado parece apenas o filme de cachorro falante da Sessão da Tarde mais caro já feito.

Com essa total inexpressividade dos personagens, a emoção depende unicamente da trilha sonora e da performance vocal dos atores. E com todo respeito a Donald Glover e Beyoncé, mas eles não fazem milagre. Do elenco, destacam-se apenas Billy Eichner e Seth Rogen, que ainda mantém um bom timing cômico para Timão e Pumba, e Chiwetel Ejiofor, que tem uma voz adequadamente imponente para Scar (mesmo que não tão memoravelmente afetado como na animação). Também é sempre um prazer ouvir James Earl Jones reprisar seu papel icônico de Mufasa, mesmo que a essa altura ele já possa gravar essas falas enquanto dorme. Parte de mim suspeita que isso é exatamente o que aconteceu.

Por sorte, a trilha de Hans Zimmer continua uma obra-prima inesquecível (mesmo que isso ainda seja um elogio mais ao que seu trabalho em 1994, já que os novos rearranjos são sutis). Os números musicais, por outro lado, se tornaram elementos completamente incoerentes com a proposta realista e tiveram que ser drenados de tudo aquilo que os tornava impactante.

“O que eu Quero Mais é Ser Rei” perde suas cores abstratas e animais que flertam com o cartunesco, “Se Prepare” não pode mais ter o cenário dinâmico infernal e a marcha de hienas nazistas a la O Triunfo da Vontade, e “Nesta Noite o Amor Chegou” se passa inexplicavelmente de dia (!). Até mesmo a icônica “Ciclo Sem Fim”, em tese a mais fácil de se traduzir para o pseudo-live-action, não consegue ser mais que a contraparte broxa do original em toda a sua paudurecência. A única música adicionada é Spirit, cantada pela Beyoncé (não como Nala, é só a Beyoncé cantando de forma não-diegética mesmo), que claramente é uma música feita para tocar nos créditos do filme, mas que foi enfiada no meio da trama de forma desajeitada para surfar no star power da cantora e conseguir mais espaço nas rádios ou uma indicação ao Oscar de melhor canção original. O único alento é “Quem Dorme é o Leão”, originalmente apenas um pequeno trecho cantarolado por Timão e Pumba que aqui foi extrapolado a um número musical completo, em uma das poucas cenas do filme que permite brincar com a sincronia da movimentação dos animais com a melodia, dando um vislumbre da originalidade que o resto do filme desesperadamente precisava.

O Rei Leão

E nem mesmo para tentar aproveitar a oportunidade para acrescentar algo de relevante. A quase meia hora a mais que esse filme tem em relação à animação não adiciona nada de relevante (porque filmes “de respeito” tem duas horas): Mais cenas com a Nala que não aprofundam sua personagem em nada, o Scar tentando coagir Sarabi a se casar com ele para reforçar a heterossexualidade do personagem, Pumba lutando contra… a gordofobia (as tentativas corporativistas da Disney de tentar adequar o filme às sensibilidades atuais são sofríveis) e uma sequência inexplicável onde o filme, ao tentar se distanciar do misticismo do original e encontrar como alternativa realista aos poderes xamânicos de Rafiki, mostra que ele descobre que Simba ainda está vivo graças a um besouro rola-bosta carregando o majestoso cocô de girafa que contém a essência do legítimo rei. É preciso ver para crer.

Se a experiência já é maçante para adultos, eu mal posso imaginar como deve ser para as crianças. O que, incidentalmente, mata qualquer argumento que esse filme existe para apresentar O Rei Leão para uma nova geração e não só pra atiçar a nostalgia de millenials, que muito facilmente podem cair nessa armadilha enquanto batem no peito orgulhosos que vão ver o filme cinco vezes com a família inteira porque tem boas lembranças de assistir o original na fita de VHS verde.

Trata-se de um projeto tão extravagantemente cínico e sem alma que apenas um estúdio que domina uma parcela cada vez mais assustadoramente maior do mercado se atreveria a fazer e ter fé que pode se safar. Uma regurgitação sem alma de uma de suas obras mais amadas, tomando o espaço do principal slot de lançamento do estúdio no ano. Ele representa a apoteose de tudo o que tem errado com essa onda de live-actions. Muito menos um ciclo sem fim e mais um ouroboros da Disney se auto-canibalizando.



Comentários