
Cercado de polêmicas desde a sua concepção, por ter tido o seu primeiro roteiro vazado gerando a fúria do diretor Quentin Tarantino – que chegou até mesmo a dizer que havia desistido de produzir o filme – finalmente Os Oito Odiados chega essa semana aos cinemas brasileiros, consagrando uma marca que o diretor faz questão de deixar exposta em letras garrafais tão logo a tela se ilumina: o oitavo filme de Quentin Tarantino.
Novamente se enredando pelo tema de faroeste por onde já havia se aventurado em seu último filme, Django Livre (2012), aqui Tarantino decide tratar de um período histórico bastante interessante dos EUA: o pós-guerra civil, ou guerra de secessão, como também é conhecida. Usando como pano de fundo a rixa ainda existente entre sulistas e nortistas, o diretor deixa bem claro o palpável racismo existente na época, em diálogos inteligentes – seu ponto forte – com argumentos que defendem ambos os lados, deixando claro que assim como a maioria das guerras, é tudo uma questão de ponto de vista e interesses. Mas obviamente, esse não é o mote principal do filme, servindo apenas para contextualizar o período e algumas das situações que virão a se desenrolar no decorrer do longa.
A trama do filme é bem simples, e é impossível não lembrar de outro clássico do diretor, Cães de Aluguel (1992), mas já explico por que. A história segue oito personagens: o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russel) que precisa chegar até a cidade de Red Rock e levar sua prisioneira para a forca, a divertidíssima Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh); um outro caçador de recompensas chamado Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) um negro que lutou na guerra civil e é conhecido por ter matado dezenas de brancos; o quase-xerife Chris Mannix (Walton Goggins); o veterano de guerra e extremamente racista General Sanford Smithers (Bruce Dern); o carrasco da cidade, Oswaldo Mobray (Tim Roth); o misterioso cowboy Joe Gage (Michael Madsen); e o estalajadeiro mexicano chamado apenas pelo nome de Bob (Demian Bichir). Existe ainda um nono personagem, o cocheiro O.B. (James Parks), porém sua participação é pontual, e como até mesmo um diálogo do filme deixa claro, é um personagem neutro. Essas peculiares figuras se veem em meio a uma tempestade de neve que faz com que se abriguem em uma estalagem até a nevasca passar, e a tensão permeia o ambiente quando John Ruth cisma que algum dos abrigados pode não ser quem diz, com objetivo de libertar a condenada Daisy Domergue.
Um grupo de pessoas presos em um mesmo ambiente com uma forte tensão no ar onde um deles pode não ser confiável lembra muito o plot central de Cães de Aluguel, o primeiro filme de Tarantino, como disse ali acima. Mas isso é um problema? De jeito nenhum. Na verdade é maravilhoso ver Tarantino voltando às origens e criando essa sensação de suspense que mantém o espectador vidrado na tela e se surpreendendo com cada reviravolta apresentada no filme, de forma que as quase 3 horas de duração passam despercebidas. De uma forma geral o filme parece ser um Cães de Aluguel com uma pitada da linearidade de Pulp Fiction (em determinado momento) no universo de Django Livre. E digo isso de maneira positiva.
É interessante como Tarantino segue com seu objetivo de redimir a pouca participação dos negros no faroeste. Se em Django Livre o diretor usou o período da escravidão para criar um herói negro para o western, aqui ele usa o preconceito pós-guerra dos confederados (que defendiam a escravidão) para trabalhar o personagem de Samuel L. Jackson, o major Marquis Warren. A dificuldade aqui é outra no entanto, pois diferente de Django, que era um herói nato, Warren é dotado de tons de cinza e não dá para dizer com clareza se o personagem é bom ou ruim. Ele é apenas o resultado do holocausto americano da guerra de secessão, marcado pela sombra da opressão histórica. Algo muito interessante a respeito do personagem é justamente o fato de sempre andar como um suposta carta de Abrahan Lincoln, já que o presidente republicano era declaradamente favorável à libertação dos escravos no sul.
Enquanto assistia o filme – que é dividido em capítulos – fiquei com a mesma sensação que tenho lendo um bom livro. Parte disso com certeza vem muito dos ricos diálogos de Tarantino, que fazem com que o espectador preste atenção nos detalhes e fique completamente imerso naquele mundo. E para quem, assim como eu, tem gostado da incursão de Tarantino no universo dos faroestes, uma boa notícia: o diretor deu um declaração recentemente onde disse que “você precisa fazer três westerns para ser considerado um diretor de westerns“. Então por favor, Tarantino, nos presenteie com mais um.