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Talvez já seja um pouco clichê a essa altura falar da tremenda importância cultural do filme do Pantera Negra, o primeiro herói negro da Marvel, criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1966 nas páginas do Quarteto Fantástico, e que agora finalmente chega aos cinemas. Talvez já seja um pouco clichê falar da representatividade e do significado que tem esse filme, composto por um elenco quase que predominantemente negro. Talvez já seja um pouco clichê falar que o filme dirigido por Ryan Coogler é o mais ousado e corajoso da Marvel Studios em seu histórico de 10 anos. Mas… ele realmente é tudo isso.

Ultimamente,  tem se tornado muito comum em cada nova estreia do estúdio ouvirmos declarações como “uau, esse foi o melhor filme da Marvel” ou “esse sim parece que vai ser o filme mais ousado e diferente da Marvel“. Apenas para algum tempo depois, passado o frenesi inicial, chegarmos à conclusão de que… não, talvez não. Talvez tenha sido só mais um filme seguindo a já tão falada “fórmula Marvel”, amada por uns, odiada por outros, mas inegavelmente um sucesso. Portanto, acho até um pouco natural, que sejamos um tanto quanto céticos quando uma das duas frases citadas acima são proferidas. E com Pantera Negra não foi diferente.

Mas sabe o que é o mais interessante em tudo isso? Pantera Negra é realmente o mais corajoso, ousado e diferente filme que a Marvel já fez. De verdade. Muito mais consciente, politizado, sério e capaz de lidar com os mais diversos temas com a maturidade necessária, sem nunca perder a sua essência de filme de super-herói. O equilíbrio estabelecido pelo longa, aliás, é o seu maior trunfo, pois ele consegue patinar tranquilamente por temas como racismo e segregação, ao mesmo tempo que lida com questões de empoderamento e identidade, sem nunca deixar de lado o fator entretenimento de massa que já nasce atrelado a seu status de blockbuster.

Enquanto que em diversos filmes da Marvel podemos questionar o timing para certas cenas – principalmente no que se refere a humor – o mesmo não pode ser dito de Pantera Negra. De um ponto de vista de tom, construção e narrativa, ele é tecnicamente impecável. E muito disso, obviamente, devido à liberdade que o diretor Ryan Coogler teve em seu filme – uma liberdade que vemos a Marvel finalmente dando a seus criadores, citando como outros exemplos James Gunn (Guardiões da Galáxia) e Taika Waititi (Thor: Ragnarok);  não à toa, diretores que também entregaram filmes com uma identidade muito peculiar e original para o Universo Cinematográfico Marvel.

E o que Coogler faz aqui é simplesmente incrível. O filme em nenhum momento demonstra qualquer preocupação em entregar um conteúdo africano enlatado para agradar o público americano – muito disso, é claro, devido à garantia que um produto possuindo o selo Marvel Studios possui hoje em dia. Graças a isso, o filme se permite não apenas se passar 95% dentro de Wakanda, mas também glorificar e enaltecer a cultura africana, enquanto explora os costumes, a espiritualidade e o legado da nação fictícia de Wakanda. E aliás, o trabalho realizado em Wakanda é tão perfeito que o país pode facilmente ser considerado mais um personagem da trama. Tudo é impecável, desde suas cores, tradições, e o perfeito casamento entre isso e fato de possuírem a tecnologia mais avançado do planeta.

O roteiro, assim como em diversos outros filmes da Marvel, é perfeitamente funcional, mas não carrega nada que seja um diferencial muito atrativo, e na verdade se escora em diversos clichês e viradas previsíveis.  A sua força está realmente no discurso e no sensacional elenco de personagens, com destaque para o vilão Erik Killmonger, interpretado por Michael B. Jordan, que repete aqui sua parceria com o diretor Ryan Coogler após Fruitvale Station: A Última Parada e Creed: Nascido Para Lutar. E isso acaba entrando em outro ponto que diferencia o filme dos demais do estúdio, já que os vilões também costumam ser uma constante – e muitas vezes justa – reclamação dos fãs, por possuírem motivações pouco convincentes e geralmente receberem um tratamento “genérico” que os torna ameaças previsíveis e esquecíveis. Killmonger, ao contrário, é um personagem profundo e extremamente intimidador, que representa real ameaça e que desperta no espectador uma real tensão e preocupação pelos personagens. Sua frieza e falta de empatia tornam o personagem facilmente o melhor vilão que a Marvel Studios já viu em seus 10 anos de história.

Mas é claro que não podemos deixar de falar do protagonista, T’Challa, novamente interpretado por Chadwick Boseman, após sua introdução em Capitão América: Guerra Civil. Boseman já parece muito confortável com o personagem, e consegue fazer com que nos importemos com tudo que T’Challa está sentindo, sejam suas dúvidas, motivações, frustrações e alegrias. E ele vem acompanhado de personagens muito bem construídos, que conseguem tempo suficiente para se destacarem na trama, sem qualquer desperdício, como é o caso de Okoye (Danai Gurira), Nakia (Lupita Nyong’o) e Shuri (Letitia Wright). E é claro, termos Andy Serkis, perfeito no papel do asqueroso vilão Ulisses Klaue. 

É inegável a importância sociocultural de Pantera Negra, que em meio a cenas de ação de tirar o fôlego e duelos pelo trono, ainda consegue fazer com que uma revolta política seja o centro da história. E de forma sutil e inteligente, ele faz o espectador refletir sobre diversas situações como expansionismo, refugiados, segregação e extremismo. O legado deste filme o torna extremamente poderoso e importante, e diria até mesmo necessário nos dias atuais. O Rei está entre nós. Vida longa ao Rei. Wakanda para sempre.