
Se as redes sociais servem de termômetro, toda uma geração mal pode esperar por Procurando Dory. Pelo menos a julgar pelas toneladas de posts aos moldes de “esperei treze anos por isso, saiam da frente crianças que se atrevem a pensar que um filme da Pixar foi feito para elas”.
Pessoalmente, eu estava mais preocupado com o filme que ansioso. Procurando Nemo se tornou um adorado clássico, mas não há nada em sua trama perfeitamente amarrada que pedisse uma continuação. Além disso, a Pixar tem um histórico complicado em relação a sequências (à exceção de Toy Story), especialmente quando envolvem a estranha fórmula de transformar o sidekick cômico no protagonista (como em Carros 2 e Universidade Monstros) que rendeu resultados muito abaixo do altíssimo padrão de qualidade Pixar.
Por sorte, Procurando Dory é um filme difícil de não agradar.
Após os eventos do primeiro filme, Dory, a peixinha com perda de memória recente, está vivendo com Marlin e Nemo quando se lembra da existência de seus pais, dos quais ela se perdeu há muitos anos. Agora, sua jornada para reencontrar a sua família a levará para um aquário público de um instituto de vida marinha e ela precisa descobrir o que aconteceu com seus pais antes de ser levada para um aquário em Cleveland.
Entre os novos e carismáticos personagens, que incluem uma baleia-tubarão de visão limitada e uma baleia que perdeu a capacidade de ecolocalização, quem se destaca é Hank, o polvo neurótico e mau-humorado. O filme consegue acertar a comédia com o personagem tanto nos diálogos sarcásticos, como na comédia física, explorando todo o potencial do seu corpo octópode (ou seria sectópode?).
A comédia, por sinal, também é um ponto alto. A Pixar, sempre elegante, consegue usar o potencial da animação para ótimo slapstick sem apelar para referências gratuitas a cultura pop ou escatologias. O aquário, apesar de menor e menos épico que todo o oceano no primeiro filme, é muito variado e o filme explora todas as suas possibilidades.

Como é o caso da maioria das animações, é muito difícil achar uma sessão legendada no circuito nacional, mas, por sorte, a dublagem está muito bem executada, tanto no elenco, quanto na adaptação (mesmo com um “miga, sua louca” no meio do filme que em dois anos vai ser a coisa mais datada do mundo), incluindo uma esperta e inusitada participação da apresentadora Marília Gabriela interpretando a si mesma, no lugar de Sigourney Weaver no original.
Mas o melhor elemento do filme é a própria Dory. O roteiro pega desafio de ter como protagonista uma personagem que não consegue se lembrar do que acabou de acontecer e torna isso em uma de suas melhores qualidades. Uma das regras de narrativa da Pixar é que nós apreciamos um personagem mais pelo o quanto ele tenta do que o quanto ele tem sucesso e é a determinação de Dory apesar de suas limitações pouco ortodoxas que faz dela uma protagonista cativante e não apenas uma coadjuvante que recebeu mais destaque do que deveria.
No geral, o filme prima mais pela aventura que pela emoção. Procurando Nemo, foi um filme muito pessoal para o diretor Andrew Stanton e a equipe da Pixar, expressando os seus próprios sentimentos em relação à paternidade. Aqui, o drama de Dory com seus pais, apesar de bem executado, não parece tão íntimo quanto a primeira vez em que Nemo se perdeu de seu pai.
O segundo ato do filme se encerra com uma boa cena de Dory se desesperando e chegando ao seu ponto mais baixo, mas não tem o mesmo impacto emocional, por exemplo, da epifania melancólica da Alegria em Divertida Mente. O que também não quer dizer que esse é um filme sem coração. As relações entre Dory e Marlin e o Hank são tão cativantes quanto engraçadas e mantém a história relacionável, mesmo que esse não seja um filme que se arrisca com os melhores filmes do estúdio.
No final, esse não é um filme como Carros 2, que dá um choque de realidade e nos faz lembrar que até a Pixar pode falhar, mas também não vai ser lembrado como um dos clássicos do estúdio. Mas como uma aventura divertida e o retorno nostalgico de personagens muito queridos, o filme mais que cumpre o seu papel.
E, fãs do primeiro filme, não saiam antes dos créditos.





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