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Casa de grande parte das séries baseadas nas histórias em quadrinhos da DC, a CW hospedou Raio Negro assim que a FOX, que originalmente estava desenvolvendo o projeto, desistiu de produzi-lo. E que grande sorte: o ótimo episódio-piloto, que chegou à emissora norte-americana anteontem e que deve entrar no catálogo da Netflix brasileira em breve, sugere um de seus títulos mais promissores, e eu não estou me referindo somente às adaptações com super-heróis.

Esquivando-se de clichês de histórias de origem, os roteiristas Mara Brock Akil e Salim Akil criam uma narrativa cativante ao escolher abordar o protagonista como um homem de meia idade que está aposentado de sua vida como super-herói. O resultado não é uma reinvenção histórica na TV, mas um interessante tratamento realista que desvenda o porquê de alguém não querer ser um super-herói, transformando derrotas em resposta às glórias (ou vice-versa). 

Os dias heroicos de Jefferson Pierce estão no passado, e agora ele trabalha como diretor em uma escola de sua comunidade. Muito respeitado, ele soa como alguém que controla os eventos de sua vida com tranquilidade, mas guarda, secretamente, demônios no interior de seu psicológico. Obviamente, os traumas estão relacionados ao seu antigo alter ego, que abandonou por causa dos danos que estava causando à sua família.

Depois de nove anos de aposentadoria, ele encontra uma oportunidade para reviver o Raio Negro, e não poderia ser em um momento mais adequado: suas duas filhas, sequestradas por uma conhecida gangue do bairro, estão em perigo. Desesperado, ele busca ajuda de Peter Gambi, seu antigo companheiro (uma espécie de mistura entre Alfred e Lucius Fox), que está empolgado com o retorno e oferece um traje completamente atualizado e tecnológico – que pelo menos não segue o modelo de couro usado com exaustão nas outras séries da CW, mas falha com uma concepção visual estranha e inexpressiva (imagine-o como um desenho e verá como é pobre).

Como bom drama familiar, Raio Negro acerta na dose de melancolia, ainda que aposte em conceitos sentimentalistas batidos da TV. Você certamente conhece a história da filha rebelde e irresponsável que encontra problemas ao se misturar com gente da pesada, e sabe ainda os conflitos que isto gera e “blá, blá, blá”. Entretanto, tudo ganha um aspecto novo e palpável com o bom elenco e sua química: eles se parecem com uma família de verdade. Cress Williams acerta ao interpretar Pierce como um pai dedicado e, ao mesmo tempo, compreensivo, e sabe balancear estas características com a imponência de ser um vigilante – sem parecer brucutu demais. China Anne McClain e Nafessa Williams convencem como irmãs radicalmente diferentes, e Christine Adams faz uma boa participação como ex-esposa de Jefferson, por quem ele ainda nutre sentimentos amorosos.

Contudo, quem surpreende mesmo é William Catlett. Tendo saído praticamente do nada (eu sequer me lembro de tê-lo visto antes), ele entrega uma performance carismática e intimidadora como Lala, parceiro do grande “chefão”, Tobias Baleia. Tobias, encarnado pelo desconhecido Marvin “Krondon” Jones III, é um antagonista bem mais maduro do que os padrões da CW costumam permitir, e definitivamente parece ter saído de alguma série da Marvel na Netflix, mas ainda é cedo para fazer grandes julgamentos sobre sua índole.

Outro ponto positivo é a maneira como Raio Negro debate violência em um cenário um pouco menor do que é mais comumente visto em outras séries de super-heróis. Freeland, como é chamado o lugar, é mais uma prova de como pontuais mudanças no material original podem ser benéficas: a comunidade é transformada em uma periferia comum que você pode encontrar em várias partes do mundo, em vez de ser adaptada como um bairro de Metrópolis, cidade do Superman, como nas histórias em quadrinhos. A liberdade tomada também é sentida visualmente, com o designer de produção Arlan Jay Vetter compondo o subúrbio com casas mais baixas que sugerem uniformidade social, dado importante considerando o aspecto de união que é reforçado em um diálogo entre Pierce e Lala.

Com boas atuações e conteúdo o bastante para ser atraente, o episódio-piloto de Raio Negro supera, de muitas maneiras, o “pontapé inicial” de suas companheiras de emissora, misturando elementos que são sucesso garantido no canal com questões raciais levantadas de maneira elegante, madura e inteligente. Resta saber quanto tempo irá resistir antes de se transformar em um drama meloso sobre um pai com dificuldades para aceitar os relacionamentos amorosos das suas filhas.

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.


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