Dos filmes indicados ao Oscar 2015, talvez Selma – Uma Luta pela Igualdade seja o mais subestimado. Bem menos badalado ou comentando do que os outros concorrentes, o filme esteve até mesmo envolvido em uma polêmica, por ter sido indicado em apenas duas categorias pela Academia: Melhor filme e melhor canção. Após o anúncio, houve uma extensa discussão sobre o filme ter sido esnobado e até mesmo ter sido vítima de preconceito, visto que nenhum ator foi indicado, ainda que o longa tenha excelentes atuações.
Muito se falou sobre a decisão ilógica de um filme ser indicado entre os melhores, mas não ser considerado para melhor roteiro, direção ou fotografia, passando a impressão de que a indicação a melhor filme teria sido alguma espécie de prêmio de consolação. Além de que, se a diretora Ava DuVernay tivesse sido indicada na categoria de melhor diretor, seria um acontecimento histórico para a premiação, sendo a primeira mulher negra a concorrer em tal quesito.
Cinebiografia de Martin Luther King, o filme possui uma vantagem sobre outros filmes biográficos recentes como O Jogo da Imitação e A Teoria de Tudo, que é a não romantização dos personagens e da história. Apesar de algumas licenças poéticas em prol do roteiro, os personagens não são perfeitos e temos um Luther King (interpretado pelo ator David Oyelowo) que é completamente político, tático e recheado de falhas morais. É interessante como o filme mostra que King era tão focado em sua causa pelos direitos dos negros, que não media consequências para conseguir o que achava justo para seu povo. Isso fica evidente em sequências onde ele usa de seu carisma e poder de oratória para inflamar os negros em protestos, sabendo que alguns iriam se ferir. Claro que ele não toma essas decisões friamente, e sofre com as escolhas que precisa tomar.

Algo que me atraiu em Selma é que ele é um filme que se permitiu ousar e trazer uma abordagem diferente. Ava DuVernay poderia ter buscado o caminho mais fácil, e martelar novamente a trajetória de King até o momento do famoso discurso “I have a dream“, ou ainda apelar para o drama filmando seu trágico assassinato. O filme porém opta por outra das batalhas do ativista, uma muito importante ainda que não tenha tanto poder midiático ou glamour: a marcha da cidade de Selma até Montgomery, no estado do Alabama, pelo direito do voto aos negros em 1965.
Por mais que naquela época o governo já tivesse permitido aos negros o direito de votar, não era bem assim que acontecia, sendo comum eles serem impedidos de se registrar quando tentavam, mesmo que toda documentação estivesse correta. Martin Luther King é mostrado como alguém decidido a resolver essa questão, indo diretamente ao presidente Lyndon Johnson (vivido por Tom Wilkinson), que ainda que procurasse sempre receber e dialogar com King, mostrava-se nada preocupado com o problema e dando pouca importância à situação. É quando o ativista político decide agitar os moradores da racista cidade de Selma, afim de escancarar o problema a nível nacional em jornais e noticiários, obrigando o presidente a tomar alguma iniciativa.

É interessante a abordagem que o filme dá à situação, humanizando os personagens e trabalhando suas falhas e caráter de forma crível. O Martin Luther King de David Oyelowo por exemplo não é heróico e perfeito como em tantos outros filmes biográficos, e sim um homem que se divide entre sua causa e sua familia, ainda que perceba em diversos momentos que está deixando de lado esta última. O personagem é prático, decidido, mas isso não impede que o roteiro mostre suas dúvidas e aflições. Oyelowo entrega uma atuação impecável, em que fala mais com expressões e olhares do que com diálogos. Esse é um outro ponto positivo do longa, aliás, pois ele não possui uma narrativa mastigadinha e explicada nos mínimos detalhes como outras produções (ainda que seja completamente linear), e sim força o espectador a observar e entender as entrelinhas.
O filme peca, talvez, apenas em alguns exageros a respeito da demonização de certos personagens políticos como o próprio presidente Johnson -mostrado como alguém fraco, sem pulso, suscetível e pouco interessado – e o governador George Wallace (Tim Roth), que no filme é exageradamente mesquinho, manipulador e sem escrúpulos. Talvez tenhan faltado os mesmos tons de cinza com que foram trabalhados os personagens do núcleo de King, ao invés de uma busca insensata do filme em mostrar “vilões.” O que não era necessário, visto que o grande vilão já é o preconceito por si só.
Selma – Uma Luta pela Igualdade, por tudo que representa e pelo grande filme que é, merecia mais atenção no Oscar. Uma pena que a cada ano que passa, a premiação se torne mais voltada para os queridinhos de Hollywood.






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