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Nos últimos anos, vemos muitas notícias de inteligências artificiais capazes de criar e escrever histórias. A forma como isso funciona é na verdade bem simples: a IA é alimentada com milhares de histórias semelhantes às que precisa escrever, de modo a aprender a estrutura literária e criar um banco de dados gigantesco . Esse ano, inclusive, foi divulgada a primeira peça teatral escrita por uma inteligência artificial.

Você pode se perguntar por que eu decidi começar essa crítica com um assunto aparentemente aleatório, mas a verdade é que às vezes é assim que eu me sinto ao assistir um filme da Marvel Studios – especialmente os últimos. A tão alardeada “Fórmula Marvel” sempre esteve por aí, desde os primeiros filmes do estúdio, sendo amada por uns e odiada por outros. E ela tem seus prós e contras, claro. Ao mesmo tempo em que mantém uma identidade coesa e com basicamente um mesmo tom (o que é bom para a ideia de universo compartilhado), ela também parece engessar a criatividade dos diretores em alguns momentos e criar peças de entretenimento apenas mercadológicas, com pouca sensibilidade artística por trás. Nem todo mundo é um James Gunn ou um Taika Waititi, que conseguem imprimir sua visão particular mesmo nesses filmes formulaicos.

E Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis sofre um pouco com isso. A direção de Destin Cretton é boa, segura, mas cai naquele vale que eu gosto de chamar de “filmes dirigidos pelo Kevin Feige”. O resultado é satisfatório, o entretenimento é bom, mas dificilmente vai entrar naquele seleto grupo de filmes a serem sempre lembrados do estúdio. É a Fórmula Marvel até o talo, para o bem ou para o mal.

Idealizado para representar para a cultura asiática (especialmente a chinesa) aquilo que o Pantera Negra representou para a comunidade negra, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis realmente deposita bastante esforço nisso, mas de uma forma mais mecânica e direcionada, com pouco da originalidade do longa de Ryan Coogler. E talvez o grande problema tenha sido tentar abraçar o máximo possível de representações chinesas sem de fato se aprofundar em qualquer uma delas, que vão de O Tigre o Dragão, a kung-fu urbano e criaturas mitológicas, condensando tudo isso em um longa de pouco mais de duas horas que ainda precisava apresentar um protagonista, definir suas motivações e encaixá-lo no plano geral maior de um universo cinematográfico. A lógica então foi massificar a cultura chinesa da forma que desse para encaixar naquela determinada cena, porque o marketing precisava vender isso.

Mas isso até que faz certo sentido, quase como um ciclo se fechando. Quando criado em  1973, Shang-Chi não era uma homenagem à cultura asiática ou às artes marciais chinesas, mas sim uma tentativa da Marvel Comics em capitalizar o máximo possível da “Kung-Fu Mania” que dominava os EUA naquele momento, muito devido à figura icônica de Bruce Lee e da série Kung-Fu, estrelada por David Carradine. Shang-Chi, aliás, é extremamente influenciado por essas duas figuras, com o personagem sendo criado com base no visual de Bruce Lee e surgindo apenas porque a Marvel não conseguiu os direitos de adaptação da série de Carradine.

O filme, no entanto, não tenta incorporar em Shang-Chi as lutas cruas de Bruce Lee, mas sim  um kung-fu que acabou ficando muito mais popular pelos anos 90 e 2000 nos EUA: aquele representado por Jackie Chan e filmes como Policy Story e A Hora do Rush, onde as cenas de luta do astro são dinâmicas, com muito humor, e fazem bom uso de objetos ao seu redor. As lutas de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis bebem muito da influência dos filmes de Chan, e o intérprete do protagonista, Simu Liu, consegue emular muito bem as caras e bocas do artista marcial que parece desengonçado mas que derrota vários inimigos de uma só vez, das formas mais criativas possíveis – até mesmo usando seu casaco para atrapalhar os oponentes. Liu, aliás, foi um baita achado da Marvel nesse momento onde o estúdio perdeu vários de seus pesos pesados e precisa de carisma para uma nova fase que se inicia e que precisa reconquistar um público que enxerga um final em Vingadores: Ultimato. O astro é divertido, exala carisma, e consegue passar muito bem das cenas de humor para as dramáticas.

Reprodução/Disney

Na trama, temos Shang-Chi (Simu Liu) vivendo nos EUA por 10 anos após ter fugido de seu pai, Wenwu (Tony Leung) líder de uma organização criminosa conhecida como Os Dez Anéis, que fazem referência aos poderosos anéis energéticos (ou seriam pulseiras?) que ele carrega nos braços. Usando o nome de Shaun, o protagonista trabalha como manobrista ao lado de sua melhor amiga Katy (Awkwafina), quando é reencontrado pelo pai, que possui planos bem diferentes para ele.

Com muita coisa para apresentar, representar e desenvolver, Destin Cretton opta por uma estrutura narrativa que faz muito bem ao filme. As peças do quebra-cabeças que montam as motivações do personagens vão sendo apresentadas por meio de flashbacks não lineares ao longo da história, enquanto os personagens vão sendo desenvolvidos em suas tramas pessoais no presente. É um artifício interessante, que faz o diretor ganhar um tempo precioso, já que só precisa entregar pequenos fragmentos ao longo do filme, que se encaixam perfeitamente na tapeçaria maior e que servem ao seu propósito sem deixar muitas perguntas ou lacunas.

Reprodução/Disney

A estrutura talvez seja o ponto alto do filme, já que se fosse montado de qualquer outra forma, seria ainda mais evidente o quanto ele tem muita coisa para apresentar em pouco tempo e como a história está sempre avançando depressa (inclusive criando algumas soluções meio improváveis para que isso aconteça). Inevitavelmente, isso acaba fazendo com que alguns personagens sejam desperdiçados, como o Agente da Morte, que embora seu visual praticamente grite o contrário, consegue ser menos relevante que o obscuro Punho de Lâmina.

Aliás, vale dizer que o filme possui duas cenas pós-créditos, que já começam a ditar o papel de Shang-Chi no Universo Cinematográfico Marvel . Nesse momento, onde a Marvel precisa mostrar que o UCM ainda importa e que ainda tem o que contar mesmo sem os seus Vingadores, era algo já esperado, e que na verdade fico feliz de ter sido deixado para uma cena pós-créditos, de modo a não atrapalhar na história de introdução do personagem. E para um herói relativamente desconhecido, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis faz sim um ótimo trabalho de introdução ao mainstream. Mas eu ainda espero por filmes menos formulaicos nessa fase.

Nota 8