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Por mais consagrados que Phoebe Waller-Bridge (Fleabag) e Donald Glover (Atlanta) possam ser, nem seus nomes foram capazes de espantar a desconfiança do público quando o Prime Video anunciou um reboot de Sr. e Sra. Smith. Os questionamentos iam desde uma suposta falta de criatividade de Hollywood, até a real necessidade de uma nova iteração da franquia. Afinal, quem pediu por isso?

Sendo justo, a tonelada de materiais vazios vomitados por grandes estúdios nos últimos anos até deram um pouco de razão para essa desconfiança, que só cresceu quando justo Phoebe Waller-Bridge, que já tinha experiência no ramo de espionagem por ter trabalhado no roteiro de 007: Sem Tempo Para Morrer (2021), largou o projeto por “divergências criativas“.

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Reprodução/Prime Video

Com total controle criativo sobre a produção, Glover se aliou novamente à sua parceira de Atlanta, Francesca Sloane, e como resultado disso temos o teor intimista do reboot que, além de contar uma história muito bem estruturada sobre amor e solidão, diz muito sobre o próprio Glover.

Não é difícil pescar a metalinguagem de quando John (Glover), logo no começo da série, diz para Jane (Maya Erskine) que está se voluntariando para missões de “alto risco“, no auge de seus 40 anos, apenas por dinheiro. Mas será só por isso mesmo?

É claro que o dinheiro é algo importante na equação, até porque existe um grande risco por parte dos criadores da série. A dupla, no entanto, invoca o clássico de Khalil Gibran, O Profeta, para começar um debate que faz de Sr. e Sra. Smith algo mais do que um bom valor de entretenimento.

Reprodução/Prime Video

A série vai fundo em alguns dos principais capítulos do livro para construir seus personagens, distantes na fantasia da espionagem, mas muito próximos do tangível quando o assunto é humanidade.

Acompanhar a aconchegante e delicada jornada de nossos heróis imperfeitos, John (Glover) e Jane (Erskine), é como voltar no tempo e escutar a canção “Perfect“, do The Smashing Pumpkins, pela primeira vez.

Embora a música não esteja na ótima trilha sonora da série, é difícil conhecê-la e não sentir ecoar o trecho “we are reasons so unreal; we can’t help but feel that something has been lost” (“Nós somos razões tão irreais; Nós não podemos evitar sentir que algo se perdeu”, em tradução livre) na trama de deterioração do romance dos protagonistas.

Reprodução/Prime Video

É impressionante perceber o quanto uma simples comédia de ação com romance, aos poucos vai se tronando um filosófico estudo sobre solidão, com personagens tão fundamentalmente ricos.

Muitos vão voltar sua atenção para o belíssimo episódio derradeiro, que tem muito mais ação que os outros e encerra tudo de uma maneira intrigante e poderosa. Mas particularmente, nenhum chamou mais minha atenção do que o 6º. “Terapia de Casal (Nus & Com Medo)” é daquele tipo de episódio capaz de resumir toda uma série, e funciona como um grande divisor de águas.

O fato de Sr. e Sra. Smith não se levar muito a sério no começo é motivo diversão e o entretenimento segue até o fim, mas depois desse divisor de águas, o que servia apenas para o humor se tornou algo importante para destacar o lado dramático de essa ainda ser uma história sobre pessoas de carne e osso.

Reprodução/Prime Video

Sim, é verdade que antes desse reboot existir, ninguém realmente precisava dele. Mas não é assim com qualquer produção?

No fundo, a forma como Sr. e Sra. Smith é desenvolvida deixa o recado de que uma história só prova o seu verdadeiro valor quando é contada. E nesse caso, estamos diante de algo narrativamente brilhante.

Não há como negar, a série deve um pouco em ação, mas isso é facilmente compensado com a profundidade intrigante de sua principal mensagem, que recorre a Khalil Gibran para dizer que: “O amor só conhece a sua profundidade ao chegar a hora da separação“.

Reprodução/Prime Video

O rumo da história deixa claro que, para John (Glover), as missões de “alto risco” nunca foram só pelo dinheiro, assim como para Glover este projeto não foi atrativo só pelo cheque gordo da Amazon.

Ninguém pediu por uma série de Sr. e Sra. Smith, mas ela veio mostrando que esse não é um questionamento relevante. No fim, tudo se trata sobre contar boas histórias. Como escrito em O Profeta, “todo trabalho é vazio, exceto quando há amor“, e Donald Glover definitivamente é alguém que ama o que faz.

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Nota 9