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Star Wars: A Ascenção Skywalker é o filme que os fãs da maior franquia cinematográfica da história queriam. Retornando ao posto de diretor (após a saída do candidato original, Colin Trevorrow), J.J. Abrams entrega um produto muito reverente, não apenas à trilogia original, mas a todo o cânone consagrado da saga, sempre ansioso para recompensar o fã por todos os seus anos de devoção.

Também é o pior filme de Star Wars desde Ataque dos Clones, quase como uma fábula de “cuidado com o que deseja”.

O ex-Imperador Palpatine está de volta (e isso nem é spoiler, é literalmente a primeira informação que o filme nos dá). Como não poderia ser diferente, o lorde sith tem planos para recuperar o controle da galáxia, incluindo uma frota secreta de Star Destroyers e um destino maligno traçado para Rey e Kylo Ren. Diante dessa ameaça, Rey, Finn e Poe vão em busca da localização de Palpatine antes que o destino da Resistência seja selado.

Como diretor de blockbuster, Abrams é competente, entrega cenas de ação empolgantes e tem algumas sacadas visuais interessantes, mas o seu apego à nostalgia e autorreferência faz com que ele cometa todas as grandes escolhas narrativas erradas.

É inevitável que muito do discurso em torno do filme seja em comparação ao filme anterior, Os Últimos Jedi, de Rian Johnson, que estranhamente se tornou uma das obras mais polarizantes dos últimos anos, considerado ousado e inteligente por uns e uma traição aos fãs (?) por outros. Então já se forma uma narrativa na qual este filme seria uma contestação direta de Abrams ao filme de Johnson, um deliberado insulto cinematográfico ao seu colega. Mas essa é uma acusação um tanto séria ao se supor tal intenção por parte do diretor, e não cabe à crítica do filme especular supostas desavenças nos bastidores. O que podemos afirmar é que a falta de comunicação entre as equipes de cada filme custou caro ao seu capítulo final.

Parece surreal que os três filmes da trilogia tenham sido feitos com tão pouco planejamento da grande narrativa que estava sendo contada, como se na base do improviso. E A Ascensão Skywalker não constrói em cima do que foi estabelecido em seu antecessor – pelo contrário, tentando agressivamente levar a narrativa em direção oposta, a trama parece que foi adaptada de algum post de “Como consertar Star Wars depois de Os Últimos Jedi” no Reddit (o que inclui, sim, um número de retcons destinados a se tornar infames na história da franquia).

O resultado é acima de tudo um filme inchado. Tanta coisa precisa ser estabelecida e desenvolvida ao longe de sua duração que ele parece não apenas a conclusão da trilogia, mas também tudo que hipoteticamente teríamos em uma versão alternativa do filme do meio em que Abrams também teria comandado. E isso também resulta em um filme de desenvolvimento apressado e tematicamente perfunctório.

Todas as novas e ousadas ideias de Os Últimos Jedi sobre classe, fracasso e a renovação de ciclo, livre das amarras da tradição, são jogadas fora em busca da autoafirmação mitológica da própria franquia. Mas o pior é que uma vez estabelecida essa “correção de curso” sobre o que a história deve ser, é impressionante o quão pouco o filme tem a dizer de relevante ou interessante além da própria reverência cega. É o filme para todos aqueles obcecados por detalhes pedantes da mitologia, mas que não conseguiriam dissertar sobre seus temas de forma relevante nem que suas vidas dependessem disso.

A reintrodução de Palpatine é tão abrupta e tão mal-estabelecida que chega a ser cômica, sem contar que a própria noção de trazer o vilão de volta como ameaça final da trilogia é regressiva. O ponto de virada da outrora interessante relação de Rey e Kylo Ren confunde fanservice com desenvolvimento de personagem orgânico. O único desenvolvimento interessante que Finn e Poe recebem é a inexplicável adição de interesses românticos para cada um na forma de um grande “no homo” do filme para continuar garantindo aquela deliciosa bilheteria do mercado chinês. E claro, Lando Calrissian está de volta adicionando absolutamente nada, assim como tantos outros personagens.

Apenas a reverência que o filme tem por Leia (inserida aqui a partir de gravações não-utilizadas de O Despertar da Força) parece justificada como uma homenagem em bom tom à Carrie Fisher.

E enquanto eu já estou exausto só com a ideia da nova guerra cultural online que esse filme certamente servirá de munição, o mais irônico é que ele sequer deve agradar a maioria dos que não gostaram de Os Últimos Jedi também.

 Alguém lembra quando Star Wars era uma coisa divertida que pessoas gostavam? A essa altura, isso sim parece que foi há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante… 

Positivo
  • • Como grande espetáculo de ação blockbuster, ele é perfeitamente decente
Negativo
  • • Não tem muito a oferecer além de fanservice vazio
  • • Se contorce para encaixar o desenrolar da trama na visão de J.J. Abrams
  • • O potencial dos personagens novos da trilogia é desperdiçado
Nota 5010
Crítica | Star Wars: A Ascensão Skywalker



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