
Os primeiros minutos da série já estabelecem seu clima. A história se passa em 1983, em uma pequena cidade no estado de Indiana. Um cientista corre em um laboratório, fugindo de uma ameaça misteriosa. Um garoto desaparece depois de encontrar um monstro assustador. E uma jovem com roupa de hospital e cabelo raspado surge perdida na cidade. Todos esses elementos se juntam para formar a trama principal.
A série não tem medo de pular de cabeça nas homenagens, que podem ser encontradas em toda parte. Os criadores citaram Steven Spielberg, John Carpenter e Stephen King como suas principais influências. O grupo de amigos em uma aventura é Os Goonies, a jovem perdida e com poderes é o E.T, um dos personagens assiste O Enigma de Outro Mundo e muito mais. E para deixar as referências ainda mais claras, os personagens têm pôsteres de A Morte do Demônio, Tubarão e O Enigma de Outro Mundo nas suas paredes.
Os personagens são definitivamente o ponto alto da série. O grupo de garotos de 12 anos formam a imagem clássica de crianças nerds do cinema. Eles jogam Dungeons and Dragons no porão e é difícil terminarem uma conversa sem fazer pelo menos uma referência a Star Wars ou O Senhor dos Anéis. Temos o líder, o sensível, o engraçado e o idealista e todos eles são igualmente adoráveis. A jovem perdida, que se chama Eleven, é acolhida pelos meninos e demonstra aos poucos seu o potencial, sendo vulnerável em umas cenas e mortal em outras. Ela usa seus poderes para ajudar os meninos a encontrarem seu amigo desaparecido.
Uma boa surpresa é que os adolescentes também não decepcionam. Personagens dessa idade costumam ser pouco carismáticos e atrapalham a vida das pessoas ao seu redor. Mas não aqui. A irmã fútil é corajosa, o namorado bad boy tem um bom coração e o “esquisitão” da turma é um herói.
Liderando o grupo de adultos da série temos a maravilhosa Winona Ryder, trazendo uma atuação incrível no papel da mãe do menino desaparecido. Uma mãe solteira e com histórico de instabilidade mental, ela poderia somente atrasar a história. Mas seu amor e dedicação pela família fazem com que ela não desista nem por um minuto, mesmo quando todos acreditam que ela enlouqueceu. Os flashbacks que mostram a relação dela com o filho são lindos e nos fazem sentir ainda mais por ela.
Mas ao se analisar a série mais profundamente, é possível ver que ela não vai muito além desse clima de nostalgia. Não existe nenhum ponto inovador na história. O grande mistério da série não atrai tanto assim, sendo pouco desenvolvido. Vários elementos interessantes são apresentados. Temos monstros, super-poderes, dimensões paralelas, conspirações do governo e experiências científicas, mas parece que nada disso é bem aproveitado.
Além disso, o andamento é lento. Como os elementos apresentados não são bem desenvolvidos, a série se arrasta por um bom tempo, sem ir para lugar nenhum. Isso não é um problema tão grande quando se trata de séries da Netflix, já que a temporada é lançada inteira em um só dia e não precisa se criar suspenses para que o público queira voltar toda semana. Mas também não quer dizer que a série pode ter uma sequência de episódios mornos sem perder o interesse da audiência.
Stranger Things não inova no enredo e peca no ritmo, mas aposta suas cartas nos personagens bem construídos e nos ótimos atores que os interpretam. Apesar de todos os defeitos, a série ainda é um prato cheio para fãs do gênero e vale a pena ser conferida.