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Ao fim da sessão de Tempo de Guerra (2025), foi difícil não ter dois tipos de leitura sobre o filme — ainda não tenho certeza se complementares ou antagônicas A primeira delas, mais relacionada à forma, é que os diretores, Alex Garland e Ray Mendoza, conseguiram construir milimetricamente uma experiência tensa e inquietante, um espetáculo grotesco de imagem e som que mostra uma versão crua e brutal do combate na Guerra ao Terror. A segunda, mais ligada ao contexto da narrativa do filme, é sobre como essa é a história de um grupo de pessoas insensíveis que traumatizaram os moradores de uma casa, sem motivo aparente.
Autor da crítica — Victor Ferreira.
Tempo de Guerra (2025) reúne novamente a A24 e Garland após o sucesso de Guerra Civil (2024), e eleva o consultor militar daquele filme, Ray Mendoza, ao cargo de co-diretor. A narrativa é inspirada na própria experiência de vida de Mendoza, um veterano da Guerra do Iraque e membro dos Navy SEALs, força especial da Marinha dos EUA.

Em 2006, durante uma missão na cidade de Ramadi, parte de um pelotão se infiltra em uma casa habitada para dar apoio contra forças insurgentes iraquianas. Não demora muito para a posição deles ser comprometida, e a missão logo se torna uma luta desesperada por sobrevivência.
Garland e Mendoza já haviam mostrado suas habilidades em retratar ação militar tática em Guerra Civil (2024), e vemos isso novamente em Tempo de Guerra (2025). Mas, enquanto o filme anterior priorizava uma visão de combate em larga escala, aqui o escopo é menor e mais fechado, com quase tudo limitado à casa e seus arredores. Neste ambiente, Garland e Mendoza conseguem moldar uma experiência que tensiona e atordoa — aos poucos no começo, e impiedosamente mais tarde.
Há uma busca deliberada para “desglamourizar” a experiência dos soldados, dentro ou fora de combate. Antes de qualquer troca de tiros, vemos os ritmos dos esquemas de rotina — trocas de turnos, anotações, o ocasional uso de garrafas PET como mictório improvisado, etc.
Até mesmo quando as balas começam a voar, não há nenhuma grande tomada de território ou derrota acachapante de inimigos. Na verdade, você mal vê os insurgentes durante os tiroteios, e só me lembro de uma ou duas vezes em que um tiro parece acertar algum deles. No entanto, o som dos disparos e explosões reverbera por todos os cantos do filme, e seus efeitos continuam mesmo nos momentos de silêncio. Se algo precisa ser ressaltado, é que o trabalho de som de Tempo de Guerra (2025) é excelente.
Tudo na experiência é diegético. A única música ouvida durante o filme é “Call on Me”, cujo clipe cheio de mulheres de maiôs e/ou roupas apertadas fazendo aeróbica serve para inspirar os homens antes de partir para a missão. De resto, o silêncio é preenchido por comunicações entre os soldados, ou por tiros, explosões e os zumbidos dolorosos que surgem quando essas explosões acontecem perto da casa. E, claro, os gritos de dor e sofrimento dos feridos.
Isso tudo torna Tempo de Guerra (2025) uma experiência sensorial de uma intensidade enorme, digna de ser assistida em uma cinema com o melhor som disponível.
O contraponto deste mergulho sensorial é que raramente há tempo para explorar mais sobre o que há por trás desses tiros e explosões, ou mesmo dos soldados que acompanhamos durante este inferno.
Assim como em filmes como Falcão Negro em Perigo (2001) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), aqui temos um elenco repleto de jovens atores em ascensão, como Cosmo Jarvis, Will Poulter, D’Pharaoh Woon-A-Tai e Noah Centineo.
Mas, além de rostos reconhecíveis, há uma impessoalidade imposta a esses personagens. Tanto que, se você lembrar do nome de alguém, provavelmente será de algum dos soldados feridos, já que eles acabam sendo repetidos mais vezes. E, pelo menos da minha perspectiva não-americana, é difícil formar uma conexão forte ou empatia individual com o pelotão — especialmente considerando que foram eles que invadiram a residência de pessoas inocentes e as colocaram no fogo cruzado, ainda que não fossem abertamente agressivos com elas.
Garland disse em entrevistas que um dos pilares dogmáticos da produção era retratar apenas o que fosse corroborado pelas memórias dos sobreviventes, para servir de base “objetiva” para o filme. Para além de como memórias tendem a ser traiçoeiras (especialmente sobre coisas que aconteceram quase 20 anos atrás), o mero fato de o filme retratar uma perspectiva militar estadunidense já faz uma pulga saltitar na orelha.
Há momentos em que há uma quebra interessante disso, como os aliados iraquianos horrorizados de ter que ir na frente durante a evacuação, ou os momentos finais do filme com os moradores da casa. Mas, no geral, Tempo de Guerra (2025) não tende a explorar isso.
Em síntese, há um produto fascinante: um filme visceral sobre os horrores de guerra sem interesse em interrogá-la. Enquanto a cena final reforça uma sensação de “qual foi a necessidade disso?”, ainda existe uma aura e vontade de honrar e celebrar o esforço e sacrifício dos SEALs — mesmo quando esse esforço pode ser repreensível e inútil.
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