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“Não tente entender. Sinta”. A frase dita por Laura (Clémence Poésy) ao Protagonista (John David Washington) logo nos primeiros minutos de TENET define bem a jornada que vamos encarar dali para frente. O novo filme de Christopher Nolan propositalmente não nos deixa respirar, não dá tempo ao público – mesmo com suas 2h30m de duração – para absorver logo de cara tudo que acontece na tela de maneira aprofundada. Isso é incrível, mas requer muita atenção em cada detalhe para a melhor compreensão de cada momento. Para os mais desatentos, a falta de percepção pode custar caro e tornar a experiência desastrosa.

O começo da obra, com tantas informações ao mesmo tempo sendo jogadas na tela, pode parecer confuso, e é mesmo para ser. Como acompanhamos uma trama pelos olhos e ouvidos do Protagonista, só conseguimos decifrar o que acontece a medida em que o personagem alcança tais conhecimentos. A premissa aparentemente simples – um traficante de armas russo que quer causar a terceira guerra mundial – começa então a se complicar (afinal, se tudo fosse tão fácil, este não seria um filme de Christopher Nolan). A guerra, na verdade, envolve futuro, presente, passado e, principalmente, a total inversão do tempo. Um presente espetacular para os fãs de teorias sobre viagens temporais, utilizando inclusive do paradoxo de bootstrap, abordado na excelente série Dark, da Netflix.

Tenet

Apesar de ser um típico filme do Nolan, com uma história que deveria ir simplesmente de A até B, mas que encontra inúmeras variáveis no meio do caminho a tornando incrivelmente mais elaborada do que imaginávamos, TENET pode ser considerado o trabalho mais complexo do cineasta até agora. Há, claro, as sempre presentes cenas de suas obras com diálogos explicativos, mas dessa vez em menor escala e com conceitos que só conseguimos entender de fato a medida em que as cenas se desenrolam – e que ainda assim geram teorias para serem conversadas posteriormente. É um filme para assistir, reassistir, analisar, e debater. “O que aconteceu, aconteceu.” Mas como?

Como você pode ver, para o espectador que pretendia ir ao cinema assistir apenas um filme de ação com alguns carros e balas se movendo ao contrário como visto nos trailers, a experiência pode de fato ser frustrante. Seria um tanto quanto irresponsável mencionar esta complexidade da trama como um possível ponto negativo (para o autor que lhes escreve, é algo extremamente positivo), mas para um longa com um custo tão caro e vendido como um blockbuster, com certeza se torna motivo de críticas de parte do público, e consequentemente de prejuízos.

Já que as cenas de ação foram mencionadas, há a necessidade de um parágrafo exclusivo para escrever sobre elas. São espetaculares, as melhores já dirigidas por Nolan – e acompanhadas por uma trilha sonora marcante de Ludwig Göransson. As sequências de perseguições e tiroteios envolvendo o tempo normal e o inverso ao mesmo momento fascinam, dado o capricho em cada detalhe que se move para frente e para trás, com tudo se encaixando perfeitamente. A maneira como os dois tempos contrários um ao outro coexistem na sequência de ação final é um mind blowing de tirar o fôlego.

Quanto ao elenco, John David Washington e Robert Pattinson dispensam comentários. O primeiro, ainda desconhecido por boa parte do público, mostra porque foi escolhido para este grande trabalho de um cineasta tão aclamado. Washington esbanja boa forma e brutalidade nas cenas de ação, além de uma ótima pitada de humor sarcástico em seus diálogos. Já Pattinson, em seu papel como Neil, mais uma vez mostra que o jovem de Crepúsculo ficou definitivamente para trás. O astro apresenta uma elegância e carisma impressionantes, criando uma ótima dinâmica na conturbada, porém fiel relação de amizade com o Protagonista – e o plot final envolvendo ambos é genial.

TENET definitivamente não é um filme para todos, e dividirá a opinião do público. Ao contrário dos trabalhos mais aclamados de Nolan, como A Origem e Interestelar, sua história repleta de camadas não é completamente mastigada e dada de bandeja para o espectador, sendo necessário inclusive um exercício de raciocínio pós-filme para sua total compreensão. Para os amantes de ficções científicas, a experiência será uma das mais fantásticas e instigantes já vistas. Para quem procura apenas entretenimento, sua longa duração repleta de informações pode ser uma tortura cansativa. Ame-o (como no caso do autor) ou odeio-o, o longa com certeza ficará marcado como o trabalho mais ousado do cineasta até então, e será motivo de inúmeros debates acerca de teorias sobre sua história (principalmente sobre o futuro que não vimos em tela).

Nota 9