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7838_poster_iphoneDando continuidade ao textos a respeito dos filmes que estão concorrendo ao Oscar, venho falar agora sobre um que não é nem de longe o meu favorito, e nem ao menos é um dos mais brilhantes entre os concorrentes a melhor filme.
Porém, A Teoria de Tudo, filme que narra a história de vida do famoso físico Stephen Hawking, surpreende pela atuação sensacional e marcante do ator Eddie Redmayne, que dá vida ao protagonista.

Confesso que tenho um problema com filmes biográficos de famosos. Não gosto da forma como são romantizados para transformar a pessoa alvo da história em um santo, deixando de lado acontecimentos polêmicos ou controversos de sua história de vida, em prol de um filme redondinho para a família. E A Teoria de Tudo (infelizmente) não é uma exceção à regra, apesar de muito bem conduzido.

Dirigido por James Marsh, e baseado em boa parte no livro “Travelling to Infinity: My Life with Stephen,” de Jane Hawking (a ex-esposa de Stephen, interpretada no filme pela belíssima Felicity Jones), o filme foca no relacionamento do casal, mostrando como se conheceram e como superaram a descoberta ainda no início do namoro, de que Stephen era portador da raríssima esclerose lateral amiotrófica, uma doença degenerativa do sistema nervoso, que causa paralisia motora progressiva e irreversível.

Após o diagnóstico, Stephen recebe um prazo de apenas mais dois anos de vida, e decide se isolar de todos, tentando afastar Jane do sofrimento que ele sabia que esperava ambos. Aqui, aliás, já começa a sensacional performance de Eddie Redmayne, que consegue convencer e comover como um homem gradativamente perdendo os movimentos. A cena onde Jane descobre a doença e o convence a jogar uma partida de croquet acaba sendo uma das mais emocionantes do filme, com Redmayne nos mostrando um Stephen magoado, frustrado e com raiva com o que estava acontecendo, de uma maneira tão crível que acaba sendo impossível não cair às lagrimas.
Felicity Jones, apesar do papel não exigir tanto esforço, também está muito confortável em seu papel, e entrega uma Jane verdadeira, honesta e forte. Força aliás é a palavra chave da personagem, que a guia durante o filme inteiro. É inevitável não sentir um imenso respeito por essa mulher quando os créditos começam a subir.


Se a primeira parte do filme termina com um feliz casamento, dali em diante ele trata de trabalhar as dificuldades da vida do casal, com a condição de Stephen piorando cada vez mais, até estar em uma cadeira de rodas e não conseguir mais se alimentar sozinho. É interessante como nessa parte fica visível também o desgaste físico e emocional de Jane, cuja vida fica completamente voltada à Stephen e aos filhos (eles chegam a ter três).
É quando surge Jonathan (Charlie Cox), líder do coral da igreja que Jane resolve integrar, e que busca um propósito em sua vida após ter perdido a esposa. Com a permissão de Stephen, que reconhece o pesado fardo que se tornou para sua esposa, Jonathan passa a ajudar o casal, seja na locomoção de Stephen ou com as crianças. O problema é que a aproximação diária e a dedicação de Jonathan acabam fazendo com que ele e Jane se apaixonem. Essa época acaba coincidindo com a terceira gravidez de Jane, o que gera dúvidas na família de Stephen a respeito da paternidade da criança. Visto que a essa altura, a doença já estava em um estágio avançadíssimo, tirando completamente os movimentos do físico.

Aqui o filme é mais uma vez bonzinho e sentimental, colocando Jane e Jonathan como grandes inocentes que acabaram se apaixonando vítimas das circunstâncias, quando na vida real, segundo o próprio Stephen Hawking, o que ocorreu é que ambos já eram amantes quando Jonathan começou a frequentar a casa dos Hawking.


O fato é que o filme acaba colocando aquele que deveria ser o personagem central em segundo plano, onde ele é apenas o responsável por tudo que acontece à sua volta. Não que o tom do filme seja ruim, mas acaba no final sendo apenas mais do mesmo. A romantização exagerada e a perfeição em absolutamente todos os personagens acaba incomodando em alguns momentos, e até mesmo a cena em que Stephen larga a esposa, aquela que esteve tantos anos fielmente a seu lado, por  sua enfermeira, acaba não tendo o mesmo impacto e profundidade.
Esse na verdade é o grande problema da maioria dos filme biográficos. A necessidade de manter intocável a reputação da celebridade envolvida acaba por limar qualquer ousadia que o filme possa ter de mostrar a verdade. Quem acha que vai ver as famosas noitadas de Stephen Hawking em casas de swing e clubes de striptease, pode desistindo da ideia.

De uma forma geral, e apesar dos problemas já citados de romantização, A Teoria de Tudo é um bom filme. Emociona, entretém, e pode agradar muito aqueles que não conhecem realmente a história do verdadeiro Stephen Hawking. Ainda que eu acredite que qualquer um possa sentir o peso da perfeição exagerada dos personagens.
O destaque acaba sendo mesmo a atuação de Eddie Redmayne, que já é meu grande favorito para o prêmio de melhor ator na entrega do Oscar. O modo como Redmayne interpreta com louvor as diversas fases da doença de Hawking é incrível e digno de nota. Isso sem contar o fato de que ele conseguiu ficar fisicamente muito parecido com o físico britânico.

Mas afinal, o que o próprio Stephen Hawking achou do filme ? Ele, que esteve observando de perto a produção do longa, elogiou bastante o trabalho de Eddie Redmayne, e bem humorado como sempre soltou: “Pensei que era eu.”

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.