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the-walking-dead-season-6b-Poster-Vert-2400O texto a seguir contém spoilers da sexta temporada  e dos quadrinhos de The Walking Dead

Desde a metade da quinta temporada, quando os sobreviventes liderados por Rick (Andrew Lincoln) finalmente chegaram à segura comunidade de Alexandria, The Walking Dead vem mantendo um alto padrão em seus episódios e apresentando uma fidelidade incrível com os acontecimentos dos quadrinhos que cobrem essa mesma fase. E a sexta temporada da série não fez diferente, seguindo de perto seu material de origem, ainda que obviamente adaptando ou acrescentando material, o que torna a experiência ainda melhor, afinal mesmo quem acompanha a HQ pode se surpreender com o desenrolar dos fatos. 

Se no final da temporada anterior vimos Rick prestes a ser expulso de Alexandria devido a seus atos impulsivos, – justificados por tudo que o ex-xerife passou para sobreviver do lado de fora – aqui vemos o personagem já confortável naquele lugar que lhe é de direito: o de um líder. A ex-congressista Deanna (Tovah Feldshuh) até então responsável por Alexandria, abalada pela morte do filho e do marido na temporada anterior, acaba deixando tudo nas mãos do protagonista, finalmente chegando á conclusão de que o comodismo e a preguiça fizeram mal aos moradores da comunidade, fazendo-se necessária uma presença como a de Rick para sobreviverem. E logo nos primeiros episódios o líder já precisa se provar, quando um arriscado plano para afastar uma horda de zumbis que coloca a segurança de Alexandria em risco, acaba não saindo conforme o planejado quando a comunidade sofre um ataque engendrado pelos Lobos, um grupo de sobreviventes cujo objetivo é matar o máximo de pessoas possível para assim “libertá-las”.

Ainda que os personagens não existam nos quadrinhos, sua introdução na série é bem interessante, não apenas por demonstrarem ao povo de Alexandria que os perigos que os cercam não estão relacionados apenas aos zumbis, mas também pelo plot ser utilizado para trabalhar a nova personalidade de Morgan, que agora age serenamente e com respeito à vida, não lembrando em nada o psicótico encontrado por Rick até pouco tempo atrás. O episódio que conta a trajetória de Morgan revelando o que ocasionou a sua mudança de percepção – além de ter se tornado um exímio lutador de Aikido – mesmo que fuja dos acontecimentos principais, é um dos mais bonitos da temporada, trazendo o ator John Carroll Lynch no papel de Eastman, um homem que conseguiu encontrar a paz interior mesmo em meio a esse mundo apocalíptico.


Na primeira metade da temporada, o foco é na adaptação da população de Alexandria, aprendendo a sobreviver enquanto enxergam da forma mais difícil que Rick e seu grupo estavam certos desde o início ao afirmarem que a vida pacata e serena dentro dos muros acabou por amolecer seus moradores, deixando-os inaptos no confronto contra os “walkers” (porque por incrível que pareça, zumbi não se encaixa entre os apelidos dados aos monstros da série). Com um número de personagens maior, aumenta-se a dificuldade em trabalhar todos eles de forma satisfatória, e o artifício usado pela série é semelhante ao utilizado na quarta temporada, quando cada episódio focava em um grupo de personagens diferentes. No entanto, aqui isso é utilizado de forma mais pontual e bem construída, mantendo um ritmo constante, onde os acontecimentos vão se conectando em um plano maior.

Esse primeiro arco, que se fecha até a mid-season finale da temporada, chega à sua conclusão com uma das cenas mais fiéis da série até agora, em relação ao material dos quadrinhos: o momento em que Carl (Chandler Riggs) leva um tiro no olho direito em pleno ataque de uma horda zumbi em Alexandria. O bom de ter algo para se utilizar  como base em um obra – como é o caso dos quadrinhos aqui – é que você tem tempo e disposição para analisar friamente o que funciona e o que não funciona tão bem, algumas vezes até mesmo evoluindo ideias e utilizando-as de forma mais satisfatória. Com Carl, aconteceu algo parecido. Se nos quadrinhos, o garoto é atingido por uma bala perdida – importante para se demonstrar o quanto uma fatalidade é algo que geralmente acontece da forma mais banal possível -, na série a situação é diferente, já sendo planejada desde o início da temporada, quando vemos que Ron (Austin Abrams) alimenta um ódio mortal de Rick por ter matado seu pai na temporada anterior. Após cozinhar por uma série de episódios que o garoto pretende se vingar na figura de Carl, chega o momento fatídico – provavelmente já esperado por quem acompanha a HQ – e o que se vê é uma reprodução absurdamente fiel da cena original.


No entanto, o grande destaque da temporada, e algo extremamente esperado pelos fãs desde que o grupo chegou em Alexandria, era sem sombra de dúvidas a chegada do vilão Negan. Desde o anúncio oficial de que o personagem apareceria no final desta temporada, interpretado pelo sempre excelente Jeffrey Dean Morgan, começaram as expectativas em torno do personagem, bem como de sua emblemática introdução, que nos quadrinhos é marcada por um morte brutal. E no decorrer da segunda metade da temporada, de cara já somos apresentados ao grupo do vilão, os Salvadores, bem como à comunidade de Hilltop, introduzida após o grupo de Rick ser apresentado a um dos personagens mais interessantes da HQ nos últimos anos, Jesus. Interpretado pelo ator Tom Payne, Jesus está bem fiel à obra original, exceto por uma pequena mudança em seu sobrenome, de Paul Monroe para Paul Rovia.

Toda a trama dos quadrinhos, onde Rick e Jesus planejam um acordo de troca de favores entre as comunidades de Alexandria e Hilltop está presente na série, assim como o modo como Rick fica sabendo da existência de Negan, prometendo então livrar o vilarejo das ameaças e exigências do vilão e seu grupo. Hilltop, aliás, está completamente fiel aos quadrinhos, bem como a sequência de acontecimentos que ocorre no local, envolvendo Rick, uma faca, e um morador local. Mas vamos voltar a Negan. Diferente dos quadrinhos, onde os Salvadores – apesar de ainda ameaçadores – são pouco organizados, com um número limitado de armas e naturalmente burros, a série os apresenta como um grupo altamente paramilitar e tático, com grandes arsenais de armas espalhados por pontos estratégicos e um total controle de sua organização. A introdução de Negan é perfeita, criando uma tensão desesperadora, como deveria ser. No entanto, a série peca ao finalizar o episódio sem revelar quem foi o escolhido pelo vilão a ter sua cabeça literalmente esmagada pelos golpes de Lucille, seu taco de baseball enrolado com arame farpado. 

De uma forma geral, a 6ª temporada de The Walking Dead foi ótima, podendo ser considerada sem sombra de dúvidas a melhor – ou pelo menos a que mais bebeu influência dos quadrinhos – até aqui. No entanto, decisões covardes como essa do final acabam por prejudicar o material como um todo, quando os produtores demonstram não ter coragem de seguir adiante com o que precisa ser feito. Afinal, qual o motivo de não revelar a vítima de Negan? Medo de uma rejeição por parte do público se o morto for algum personagem querido? Gerar expectativa para que se mantenham assistindo a série em seu retorno? Independente de um motivo ou de outro, The Walking Dead é uma das séries mais assistidas dos últimos tempos, com uma fanbase estruturada e fiel, onde cliffhangers para segurar os espectadores acabam sendo medidas completamente desnecessárias. Agora resta esperar o retorno da série em outubro, torcendo para que sua crescente em matéria de qualidade se mantenha. E que assim como a HQ, a série se permita ousar e chocar. Sem medo de rejeição. Já passamos dessa fase.