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Pobre Thor. Apesar de ser considerado uma das grandes franquias-chaves da Marvel, sua popularidade não se equipara à de seus companheiros Vingadores, como o Homem de Ferro e Capitão América. Seus dois primeiros filmes são tão simpaticamente inofensivos que são tranquilamente os mais esquecíveis da Marvel.

Muitos clamavam que o caminho para redenção, seria um filme agressivo, épico e mais ligado às raízes da mitologia nórdica, talvez na linha das HQs de Jason Aaron.

Eis que entra o idiossincrático Taika Waititi e sua direção inspirada:

Vindo de suas comédias neozelandesas excêntricas, Waititi entende que o que Thor: Ragnarok precisa não é de vikings suados, banhados em sangue e lambendo machados. O que ele precisa é de criatividade desenfreada e energia.

Com o final de Thor: O Mundo Sombrio, Loki tomou posse de Asgard, disfarçado de Odin. Com o trono comprometido, Hela, a Deusa da Morte, aproveita a oportunidade para invadir e exila Loki e Thor para o planeta caótico de Sakaar, onde este é feito escravo e forçado a lutar como gladiador contra o seu campeão, o incrível… vocês sabem. Agora Thor precisa se libertar, voltar para Asgard e salvá-la de Hela.

Taika percebe que a visão de Jack Kirby para o universo do Thor não deve tanto assim à barbaridade nórdica, tanto quanto deve a uma espécie de retrofuturismo sessentista shakespeariano (o filme inclusive tem uma piada certeira envolvendo uma peça de teatro). O filme mergulha em um mundo de geometria psicodélica, como se a maior influência do design de produção fosse o dinamismo de um Como Desenhar Quadrinhos No Estilo Marvel. O uso de cores parece ter vindo diretamente dos tempos do Technicolor (ou uma revista impressa pelo processo de quatro cores dos anos 60), incluindo até uma inusitada homenagem à cena mais assombrosa da Fantástica Fábrica de Chocolate.

Uma das grandes qualidades da Marvel foi seu elenco sempre fantástico e aqui temos um de seus melhores exemplos:

Chris Hemsworth entrega sua melhor performance no papel, como um protagonista infecciosamente carismático, dessa vez até mesmo evitando ser eclipsado por Tom Hiddleston, cujo Loki continua tão magnético e sarcástico como sempre. Cate Blanchett está claramente se divertindo horrores como vilã psicopata, Mark Rufallo tem a oportunidade de explorar mais a personalidade do Hulk dessa vez e Tessa Thompson entrega uma performance como Valquíria com potencial para estrela, se bem aproveitada no futuro. E claro, como o Grão-Mestre de Sakaar, Jeff Goldblum faz o que sabe fazer melhor: Ser Jeff Goldblum.

O roteiro deixa alguns furos, no entanto:

O paradeiro de Odin é um tanto estranho e vago e a primeira aparição de Hela é bem arbitrária.  Também não espere uma explicação muito coerente de como o Hulk foi parar em Sakaar ou a probabilidade que ele e Thor fossem coincidentemente fazer parte da mesma arena no mesmo planeta.

A abordagem irônica pós-moderna dos filmes da Marvel continua eficiente. O que eu quero dizer é, sim, o filme tem piada e, sim, elas continuam engraçadas, por mais que isso parta o coração dos fãs mais trevosos. No entanto, não quer dizer que não existam críticas válidas nesse aspecto:

Existe um ou outro momento onde a quebra de expectativa das convenções super-heróicas já se tornaram, ironicamente, esperadas. Seria muito mais bem vindo se o filme se permitisse se indulgir um pouco ao sentimentalismo sincero (razão pela qual Guardiões da Galáxia vol 2 continua o melhor filme da Marvel do ano). Da mesma forma, certos momentos ao longo do filme tem impacto significativo ao status quo da franquia, mas passam meio relapsos, sem o peso que teoricamente deveriam passar.

Não é uma questão de assumir um tom mais sério ou sombrio, apenas de ser honesto ao sentimento exigido em cada cena. Tudo já está lá, as batidas emocionais, os arcos dos personagens, basta o filme acreditar que o público vai se importar com eles, especialmente depois de preparar o terreno tão bem para se assegurar que sim. É o que impede um filme sagaz, criativo e fenomenalmente divertido de ser um filme sagaz, criativo e fenomenalmente divertido com sinceridade emocional.



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