Comentários

Talvez o maior questionamento a respeito de Toy Story 4 seja “ainda existe algo a ser contado?” Principalmente após o final redondinho e extremamente conclusivo do terceiro filme da franquia, lançado 9 anos atrás. Necessário ou não, o fato é que o filme chegou aos cinemas, e inegavelmente… ele é bom.

Continuando de onde o último filme parou, vemos Woody, Buzz e os outros brinquedos convivendo com sua nova criança, Bonnie, mas parte do mote da trama é na verdade inserido por meio de um retcon que acontece nos primeiros minutos do filme, revelando um acontecimento de quando os brinquedos ainda viviam na casa do garoto Andy. A perda da boneca de porcelana Betty serve a inúmeros propósitos na trama, seja uma espécie de justiça pelo sumiço da personagem no terceiro filme, um uso de personagem feminina forte em um momento onde a indústria clama cada vez mais por isso, e o desenvolvimento de Woody, que é crucial para a narrativa.

Woody, aliás, é o grande motivo da existência do filme. Sentindo-se preterido por Bonnie e sem conseguir realmente superar os bons tempos com Andy, o cowboy encontra um novo propósito quando decide ajudar na adaptação de Garfinho, o novo brinquedo de Bonnie, que na verdade é um garfo descartável enfeitado com massinha e arame. Em meio a sua jornada, ele acaba se encontrando novamente com Betty, que lhe revela um novo mundo que questiona tudo o que ele acreditava até então. Afinal, todo brinquedo precisa de uma criança?

Curiosamente, ao mesmo tempo em que trabalha o conceito dos brinquedos perdidos e questiona a necessidade de uma criança, o filme desenvolve o arco de redenção da “vilã” Gabby Gabby, que vai completamente ao contrário disso, pregando a velha história de que para cada brinquedo existe uma criança, e vice-versa. Essas diferenças em nenhum momento são alardeadas no filme, mas demonstram sutilmente que, assim como na vida real, não existe uma fórmula mágica para a felicidade e que não existe um padrão ao qual você deve se adequar para ser feliz. Você só precisa saber qual é o seu caminho, e para isso basta “escutar a voz interior”, como diria o Buzz.

É realmente complicado definir se Toy Story 4 precisava ou não acontecer, principalmente levando em consideração o sentimento de conclusão do terceiro filme – que sim, na época foi pensado como um final. Porém, a Pixar entrega uma aventura que amarra pontas soltas, usa os personagens de forma excelente e demonstra que a franquia continua tendo muito fôlego e carisma. A conclusão desta vez, ainda que seguindo um caminho bem diferente, faz tanto sentido quanto a do terceiro filme e é também tão carregada de sentimento quanto.

Na verdade, a ideia do “necessário ou não” surge apenas pelo fechamento proposto por Toy Story 3. Essa ideia de conclusão não apenas marcou toda uma geração, como apresentou um final satisfatório para a jornada, o que torna ainda mais complicada a aceitação de um novo capítulo (algo que esse novo filme faz novamente). Cria-se no espectador, imediatamente, um medo de ver o seu final ser maculado com um novo filme apenas por motivos comerciais. Felizmente, a Disney/Pixar tinha uma ideia bem definida da história que queriam contar, minimizando assim as reclamações. Mas não se engane, teremos reclamações de qualquer jeito. E sinceramente, não julgo.

Principalmente porque, no fim, foi feito muito alarde (principalmente do elenco) sobre o quanto esse filme era supostamente emocionante, necessário e – agora sim – conclusivo. E na verdade não é bem assim. Apesar de tecnicamente impecável e de oferecer um entretenimento de alta qualidade, Toy Story 4 é só mais um (bom) filme de uma franquia já vitoriosa. Seguindo as mesmas fórmulas e apenas adequando-se ao mercado.



Comentários