Comentários

Estimated reading time: 6 minutos

Quando as luzes se apagam na sala de cinema e o mundo lá fora deixa de ser o foco, um filme só encontra seu propósito mantendo o público preso em seu mundo. Parece algo simples de se fazer, mas não é toda produção que atinge esse nível de imersão. Twisters (2024), entretanto, é defintivamente uma das que consegue tal êxito.

Em uma época onde a verossimilhança é uma lei careta para blockbusters, o filme de Lee Isaac Chung abraça o ridículo e repete alguns dos tropos mais caraterísticos do cinema norte-americano das décadas de 80 e 90.

Twisters-crítica-foto-1
Carisma de Glen Powell é tão força da natureza quanto os tornados (Reprodução/Warner Bros. Pictures)

O “orgulho americano” em seu sentido mais bruto transborda a tela através do personagem viril de Glen Powell, além das bandeiras dos EUA, as caminhonetes enormes, e os civis se ajudando em meio aos desastres.

Confesso que sinto um tom de paródia no fato do filme usar Tyler Owens (Glen Powell) como a representação maior desse orgulho, sendo ele um cara que vende camisetas estampadas com o próprio rosto, e é capaz de explorar seus concorrentes para atender seus interesses por recursos naturais, que no caso da história, são os tornados.

Twisters-crítica-foto-5
Mudança de visão sobre Tyler Owens é um elemento narrativo fundamental para a história (Reprodução/Warner Bros. Pictures)

A forma como o filme muda a perspectiva sobre ‘mocinho’ e ‘vilão’ mais adiante, colocando justamente esse cara na linha de frente de uma luta contra o capitalismo, é genuinamente engraçada, e reforça que há ao menos um pouco de paródia nessa abordagem ‘americana’.

O mais curioso sobre Tyler é que, até conhecer mais sobre ele, você não acha estranho que o personagem atravesse tornados só para manter seu status como celebridade no YouTube. Em parte, esse tipo de ridículo é bastante verossímil nos EUA de atualmente.

Twisters-crítica-foto-3
Daisy Edgar-Jones é o coração do filme (Reprodução/Warner Bros. Pictures)

Você também não duvida que Daisy Edgar-Jones tenha quase um “superpoder” de prever onde se formará o melhor tornado, ou que tenha desvendado a solução científica para domar esse tipo de fenômeno da natureza quando ainda estava no ensino médio.

Em Twisters (2024), tudo é ridiculamente exagerado e, ao mesmo tempo, incrível. Isso, pois, em tom, o filme consegue amarrar todos seus exageros bem o suficiente para prender o público no seu momento.

As coincidências não importam, o vilão extremamente caricato interpretado por David Corenswet não incomoda, e nem a promoção dos “valores americanos” é uma questão aqui, pois, todas essas situações servem apenas de sustentação para o elemento principal do filme, que é manter a sensação de perigo, ou alerta, sempre constante.

Vários são os recursos visuais que a obra usa para ter sucesso no estabelecimento da tensão. Obviamente, a expressão dos atores é um deles, mas o que mais vale destacar é como Chung dá expressão para os tornados, sem apelar tanto para artifícios digitais.

Twisters-crítica-foto-2
O perigo é extremamente convincente (Reprodução/Warner Bros. Pictures)

O zoom fechando o plano nos atores quando a ameaça está se aproximando, por exemplo, parece e é uma ideia simples, mas completamente funcional, que entrega o que o diretor precisa para fazer o público comprar aquele momento.

Atrelar sensações a objetos, fenômenos, animais ou seres inexistentes é algo que Steven Spielberg faz bem desde Encurralado (1971), e esta é uma herança que sua produtora, a Amblin Entertainment carrega em todos seus filmes.

A visão que Spielberg tem sobre cinema blockbuster, que vai desde provocar conexão com o público através das imperfeições dos personagens até essa construção de tensão constante, está tão forte em Twisters (2024), que quase não dá para sentir a assinatura de Lee Isaac Chung.

Há mais de Tubarão (1975) e Jurassic Park (1993) em Twisters (2024) do que de Minari (2020), mas isso não diminui o trabalho certeiro de Chung, que independe de ter seguido padrões da produtora, foi extremamente competente em executar um filme tão complexo de produzir quanto este, que visualmente não deve nada para o original de 1996, e há de se discutir até se não supera.

Twisters-crítica-foto-4
Reunião de talentos eleva espírito da trama básica (Reprodução/Warner Bros. Pictures)

Quando juntamos esse tom certeiro à forma como a ameaça dos tornados é estabelecida, e ao trabalho excecional do elenco, especialmente do trio de Glen, Daisy e Anthony Ramos, temos uma senhora refeição aqui.

Se a história não passa de um básico feijão com arroz, o elenco e a cinematografia são os adicionais de um bife, um ovo com gema mole e batata frita. Isso não é um filé à parmegiana, mas também tem muito valor.

Twisters (2024) tem como seu principal mérito o retorno de uma visão inocente sobre o que é um blockbuster. Quando as luzes se apagam, o mundo lá fora deixa de importar, e a única coisa que o filme exige do público é que aperte bem os cintos antes da viagem começar, pois, ela será bastante tensa e turbulenta.

Leia mais sobre Twisters:

Nota 8


Comentários