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O retorno de Axel Foley às telonas vinha sendo debatido há mais de uma década, e, a cada ano que se passava, se tornava menos crível que Um Tira da Pesada 4 (2024) pudesse funcionar com Eddie Murphy interpretando o mesmo policial rebelde de sempre, pois, o ator já tem mais de 60 anos.

Graças ao dinheiro da Netflix, o filme está entre nós, e, veja só, o retorno do ator ao papel não apenas é bem fundamentado, como este é o fundamento essencial da história.

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Reprodução/Netflix

Um Tira da Pesada 4: Axel Foley (2024) traz um homem que parou nos anos 80, tendo que lidar com o que virou o mundo em 2024, observando tudo com o mesmo olhar jocoso de outrora.

Os diferentes takes com cachorrinhos sendo tratados como crianças, as piadas com os carros elétricos e a insistência de Foley em dirigir apenas clássicos, ouvir os mesmos discos, e vestir as mesmas roupas, deixa claro em tom e estilo que aquilo é, em uma profunda camada, o Eddie Murphy desabafando sobre o quanto está desconectado da Hollywood de atualmente.

O fato de a franquia Um Tira da Pesada só ter conseguido retornar no streaming, diz muito sobre o quanto esse cara, que já foi um dos maiores astros do cinema, está ficando de lado na indústria.

Os mais recentes filmes que ele fez para o Prime Video, que repetem as mesmas fórmulas que ele executava até o começo dos anos 2000, são prova de que, assim como Axel, Eddie Murphy ainda é aquele humorista rebelde para os anos 80, que hoje muitas pessoas encaram como alguém datado.

Assumir isso no personagem principal, que desde sempre foi um espelho da personalidade do humorista, é um mérito narrativo, pois, Foley é divertido o suficiente para tornar isso engraçado, e não soa como um idoso reclamando do quanto as coisas eram melhores no seu tempo.

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Reprodução/Netflix

O filme ganha um tom de paródia divertidíssimo com essa inciativa, e brinca com seus defeitos de maneira despretensiosa.

Veja, eles assumem que não ligam para elaborar direito seus vilões, quando colocam um capanga para dizer: “não sou só um traficante, eu tenho camadas, sou complexo“. Isso é uma clara sátira sobre como Hollywood tem exigido personagens mais elaborados em filmes de ação.

Sinto que, narrativamente, Um Tira da Pesada 4 (2024) é uma sequência espiritual otimista de O Demolidor (1993).

Enquanto o longa estrelado por Sylvester Stallone e Wesley Snipes fala sobre um futuro que vai chegar causando terror para o conservadorismo norte-americano, a nova aventura de Foley fala de um “futuro” progressista que já chegou e não é nada assustador. Um desconexo Eddie Murphy, na verdade, acha tudo engraçado e observa as mudanças com a mesma visão ácida de sempre.

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Reprodução/Netflix

Encarando essa perspectiva narrativa, não seria justo dizer que Um Tira da Pesada 4 (2024) é um filme sem inspiração, até porque há boas ideias, inclusive, para sequências de ação.

A forma como essas sequências são executadas, no entanto, não poderia ter sido mais burocrática, o que resulta em uma cinematografia pobre, que desperdiça muito potencial.

O problema desse quesito não foi orçamento, pois, a Netflix desembolsou generosos US$ 150 milhões para a produção, e esse dinheiro está presente em tela.

Temos carros e imóveis destruídos, uma grande sequência de helicóptero, diversos tiroteios, e tudo é impresso em tela de forma tão sem vida e monótona quanto a sequência do aeroporto de Tenet (2020).

Não que o trabalho do diretor Mark Molloy e sua equipe seja completamente ruim. As cores são legais, a iluminação funciona, há boas decisões de enquadramento. No entanto, o filme falha em criar senso de urgência, e as sequências de ação são muito subaproveitadas.

A cinematografia burocrática arruína completamente o trabalho de preparação de tom para o terceiro ato, e o resultado não poderia ser mais ridículo.

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Reprodução/Netflix

Mostrar Axel Foley atravessando a porta da frente de uma mansão cheia de bandidos deveria ser fora do tom? Não, mas da forma lenta e sem vida que a sequência foi executada, soa como se aqueles fossem os traficantes mais burros do mundo.

Trazer John Ashton, com seus 76 anos, armado com uma escopeta na sequência final, foi uma ideia ruim? Jamais! No entanto, mostrar ele caminhando bem devagar em frente a vários criminosos altamente armados com metralhadoras, foi abusar da suspensão de descrença.

Ter a ideia de fazer Axel Foley repetir o clichê de pular na bala enquanto outra pessoa derrota o vilão foi um erro? De forma alguma! Entretanto, a constrangedora sequência de câmera lenta matou a chance de aquele momento gerar alguma tensão.

O que quero dizer com esses exemplos é que, embora tenha méritos técnicos, o trabalho de Mark Molloy e pares da cinematografia deixa muito a desejar, de forma que desperdiça ideias realmente muito boas do roteiro. Faltou ao diretor a rebeldia de Axel, tão bem encaixada no script de autoria de Will Beall (Bad Boys: Até o Fim), Tom Gormican (O Peso do Talento) e Kevin Etten (O Peso do Talento).

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Reprodução/Netflix

O filme é muito forte quando está fundamentado na visão que Eddie Murphy tem sobre o próprio envelhecimento, e sua narrativa é consistente o suficiente para deixar claro o viés sob o qual a história está sendo contada.

Porém, o quesito ação deve muito, e essa dívida tem grande peso. Afinal, ninguém vai assistir a este filme imaginando que seu grande mérito será narrativo.

A história em si é qualquer coisa, alguns detalhes são até sem pé nem cabeça, mas o mais impactante de Um Tira da Pesada 4: Axel Foley (2024) não é o que é contado, mas como é contado, a ótica sob a qual tudo é elaborado.

A última cena funcionar tão bem, mostrando que o ato mais subversivo que três idosos podem fazer juntos é ir à churrascaria em segredo, só reforça o quanto essa ótica sobre envelhecimento é o grande destaque do filme.

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Nota 6


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