Quando Venom chegou aos cinemas em 2018, eu mal podia acreditar no que estava diante dos meus olhos. Naquele ano tivemos Pantera Negra, tivemos Vingadores: Guerra Infinita, caramba, nós tivemos até Homem-Aranha no Aranhaverso. Podemos dizer que em 2018 o cinema de super-heróis vivia o seu auge, e por isso era tão assustador ver o quão ruim Venom era – quase um retrocesso de uns 15 anos no gênero.
Mas é curioso observar hoje, após assistir a sequência desse filme, Venom: Tempo de Carnificina, o quanto o diretor Ruben Fleischer sem querer ditou o tom do Venom no cinema lá naquele primeiro filme. Foi de forma completamente não intencional, claro. A forma como aquele filme se transformou em um enorme pastiche quando tentava ser sério é justamente onde mora todo o seu problema.
E foi no tom que o novo diretor, Andy Serkis, resolveu apostar. Aquele humor completamente destoante e que causava uma sensação desconfortável de vergonha alheia bem ali na nuca, agora foi transformado em força motriz. Seria muito fácil colocar todo o foco do filme no Carnificina de Woody Harrelson, considerando que o personagem tem apelo com o público, mas tanto Serkis quanto Tom Hardy (que também assina o roteiro) sabiam que isso seria uma armadilha. Assim, a bizarra relação entre Venom e Eddie Brock é basicamente onde o filme se ancora.
Mas então isso quer dizer que Venom: Tempo Carnificina é bom? Mas é claro que não! O filme obviamente é ruim, o que já era evidenciado desde os trailers, mas o que surpreende é como ele é deliciosamente ruim. Abraçando o trash e explorando a relação de Venom e Eddie Brock, que estão sempre brigando sem admitir que não vivem um sem o outro, o filme transforma toda a experiência cinematográfica em uma grande briga de casal.

E esse casamento bizarro vem com tudo que tem direito: discussões constantes, violência doméstica, separação conturbada, coisas sendo jogadas pela janela, ambos tentando viver a vida de solteiros, aquela bad de saudade do parceiro, pedido de desculpas, erros reconhecidos e reconciliação. Qual é, eles tem até um filho! E quando o filme acha que isso não está suficientemente claro para o espectador, um dos personagens tem um diálogo expositivo onde diz que os dois precisam fazer terapia de casal. É quase genial, se tudo isso não fosse regado a muitas piadas sem graça, personagens ruins e diálogos mal escritos.
A forma como o resto da trama é completamente irrelevante e as situações até mesmo se resolvem das formas mais bizarras e superficiais possíveis parece só uma resolução preguiçosa de roteiro, mas na verdade demonstra o completo e total desinteresse em sair da proposta da narrativa. Serkis e Hardy não querem uma motivação elaborada para o Carnificina, não tem interesse em desenvolver a relação dos personagens e nem tem qualquer preocupação de que você entenda como Eddie Brock acabou ferrando mais ainda a vida de Cletus Kasady naquela curta sequência de eventos iniciais que mais parece um buraco no filme. Tudo precisa ser o mais direto e prático possível. Preocupa-se muito mais com o conteúdo, e menos com a forma.
Não que o conteúdo seja lá essas coisas, mas é o que eles querem que seja o foco. E curiosamente, isso é até funcional do ponto de vista de trazer algo de diferente para o gênero. Afinal, qual outro filme de super-herói você assistiu que traz como metalinguagem uma briga de casal? Aliás, é interessante observar como – seja proposital ou não – o filme traz alguns estranhos reflexos dos filmes do Homem-Aranha – mas claro, de forma completamente deturpada. A vida pessoal indo pelo ralo, a perda dos poderes, a aceitação do retorno à vida normal e até mesmo a cena da amada perigosamente pendurada enquanto o inimigo continua atacando… são paralelos demais para serem ignorados.

No final, quando todo esse aspecto da briga de casal é concluído e o arco narrativo de Venom e Brock está praticamente fechado, o que resta é o espetáculo visual pelo qual todos aqueles que pagaram ingresso estão esperando. E mesmo com as limitações do PG-13, ainda mais quando estamos falando de um personagem como o Carnificina, a luta ainda é violenta e interessante, embora com resoluções consideravelmente questionáveis. Mas convenhamos, quem chegou até esse ponto do filme já entendeu que a melhor forma de apreciá-lo é desistir completamente de boas resoluções.
De uma forma geral, embora Venom: Tempo de Carnificina, seja um filme esperto e com muito mais identidade e propósito que o anterior, ele ainda se perde dentro da necessidade (do estúdio, talvez?) de buscar oferecer uma experiência padrão de super-heróis em algum grau. É difícil alcançar esse equilíbrio, e não é algo que se consiga simplesmente tratando de forma meia-boca tudo que está ao redor da única ideia que você quer de fato trabalhar. Talvez outro diretor conseguisse, alguém com a pegada da James Gunn ou Taika Waititi, por exemplo. Mas sei lá, é até legal ver o caminho para onde estão levando o Venom no cinema. Já tivemos um filme ruim, agora tivemos um bom filme ruim. Quem sabe o próximo seja só bom?






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