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cf7kkqeuuaeqameDos filmes baseados em histórias em quadrinhos deste ano, X-Men: Apocalipse talvez fosse o que estivesse gerando a menor expectativa. Não apenas por já ser o sexto filme da franquia, trazendo novamente o diretor Bryan Singer encabeçando o projeto, mas também pela forte concorrência, com a Marvel Studios iniciando sua nova fase no cinema, e a Warner finalmente dando um pontapé decisivo no DC Filmes, com o esperado lançamento de Batman vs Superman: A Origem da Justiça. No entanto, o filme não apenas cumpre muito bem o seu papel, como consegue a façanha de ser elencado como, por que não, o melhor filme de X-Men até aqui. Explico.

Em 2000, a adaptação cinematográfica de X-Men, – vejam só, trazida pelo próprio Singer – inegavelmente definiu um padrão para as adaptações que viriam a seguir, além de abrir portas para que estas viessem. Entretanto, apesar de sua importância não apenas para o cinema super-heroico quanto para o universo cinematográfico mutante, o filme hoje é facilmente considerado como datado. Isso porque, sua estética futurista onde predominava o couro preto, algo funcional para a época, acabou perdendo o sentido quando a Marvel Studios – e mesmo a Sony antes dela – provou que filmes de super-heróis podem ser trazidos para o mundo real com todas as suas cores e uniformes extravagantes, sem parecer algo forçado ou infantilizado. Por mais que os primeiros filmes dos X-Men tenham sido pioneiros e até mesmo influenciado os próprios quadrinhos – como em Novos X-Men de Grant Morrison e Ultimate X-Men de Mark Millar – a verdade é que os filmes nem mesmo contavam com uma boa adaptação dos quadrinhos, trazendo pouca fidelidade ao material original. E é exatamente aí que X-Men: Apocalipse acerta.

Por mais que X-Men: Primeira Classe seja um filme cultuado por sua excelente execução (cortesia do ótimo Matthew Vaughn), e X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido seja considerado um belo retorno de Bryan Singer à franquia, é X-Men: Apocalipse que  consegue (16 anos depois) pegar todo o espírito dos X-Men nos quadrinhos e levá-los com perfeição às telas em pouco mais de 2 horas. O filme mostra que Singer, apesar de ainda manter alguns de seus vícios narrativos, aprendeu com os anos a fazer um bom filme de quadrinhos que consegue realmente trazer a sensação ao espectador de estar lendo um bom gibi. E isso para mim é o esperado de uma adaptação. Ainda existem detalhes que incomodam aqui e ali, mas a concepção da coisa consegue fazer com que tais “problemas” sejam ignorados, principalmente dependendo do quão receptivo você esteja para mudanças em prol da narrativa. Um claro exemplo é o destino dado ao filme para Magneto (Michael Fassbender), que aparece trabalhando em uma metalúrgica (ah, a ironia!), tendo constituído família com uma humana e tendo até mesmo uma filha. A referência utilizada por Singer aqui é clara: Magneto: The Twisting of a Soul, história escrita por Chris Claremont em 1993, que traz exatamente o Mestre do Magnetismo perdendo sua esposa e filha (a pequena Anya) após os moradores locais descobrirem seus poderes.


A questão é que a história de Claremont traz a origem de Magneto, e o momento da descoberta de seus poderes. Logo, ver no filme o outrora vilão criando um vínculo familiar com os humanos que supostamente deveria odiar, não deveria ser tão funcional quanto no quadrinho. No entanto, para o personagem construído desde X-Men: Primeira Classe, sempre no limiar da vingança e da filosofia de paz de Xavier, a construção acaba acontecendo de forma natural e plausível. É um dos típicos exemplos do filme onde o “bom ou ruim” vai depender única e exclusivamente do seu conhecimento e/ou receptividade.

Uma situação semelhante, e que honestamente achei que me incomodaria desde o primeiro trailer, é a posição de Mística (Jennifer Lawrence) dentro da história. Vista como uma heroína por todos os jovens mutantes da nova geração após os eventos ocorridos em Dias de Um Futuro Esquecido, a personagem realmente funciona do lado dos mocinhos, mas está longe de ser a protagonista, ou até mesmo uma versão mutante de Katniss Everdeen (personagem vivida pela atriz na franquia Jogos Vorazes) como alguns apontaram. Assim como Magneto, a posição de Mística é algo plantado desde Primeira Classe, quando estipularam que neste universo a personagem era uma espécie de irmã adotiva para Charles Xavier. Claro que é inegável que hoje o nome Jennifer Lawrence influencia o tamanho dos papéis da oscarizada atriz dentro de qualquer filme, mas não dá para encrencar com sua participação dentro de uma franquia que sempre construiu a personagem dessa forma. O que temos aqui é uma evolução natural, e uma adaptação bem vinda.

O ponto alto do filme, como deveria ser, está nos novos mutantes. Ciclope (Tye Sheridan), Jean Grey (Sophie Turner) e Noturno (Kodi Smit-McPhee) possuem uma química natural em cena, e a eles pertencem alguns dos melhores momentos do filme. E com certeza seriam os donos da melhor cena de todo o longa, se esta já não pertencesse a Mercúrio (Evan Peters), que mais uma vez tem uma excelente cena exibindo toda sua velocidade, ao som de Sweet Dreams (Are Made Of This). Mesmo a alardeada participação de Wolverine e do projeto Arma X acaba revelando-se como uma grata surpresa. Obviamente, não é nada mais do que puro fanservice, mas feito de forma inteligente e pontual.


O vilão En Sabah Nur (Oscar Isaac), ou Apocalipse, como preferirem, cumpre bem o seu papel de ameaça, conseguindo transmitir perfeitamente ao espectador o tamanho e o alcance de seus poderes. Seus embates ao longo do filme, sejam eles ideológicos, mentais ou físicos, são todos muito bem elaborados, com a narrativa conseguindo criar de uma ótima maneira a atmosfera de rivalidade e ao mesmo tempo fascínio entre o vilão e o professor Charles Xavier (James McAvoy). O terceiro ato do filme, de longe o melhor, traz momentos incríveis, guardando ainda um surpresa que arrepia qualquer fã dos quadrinhos de X-Men

O que torna a experiência de assistir X-Men: Apocalipse algo superior aos outros filmes da franquia é justamente essa sempre constante sensação de fidelidade e reverência ao material original, ainda que dadas as devidas adaptações. O final do longa, com os personagens utilizando uniformes bastante fiéis aos utilizados por anos nos quadrinhos, desperta não apenas a empolgação de finalmente ver os heróis parecidos com seus visuais originais, como também curiosidade e esperança pelo que vem por aí na franquia mutante. Com o sucesso de Deadpool, filme que adaptou de forma extremamente fiel o personagem dos quadrinhos, em contrapartida à rejeição sofrida pelo mais recente reboot do Quarteto Fantástico, é correto pensar que a Fox esteja finalmente acertando o caminho das adaptações, na busca de entregar o material fiel que os fãs procuram. Se investirem no universo X, dando continuidade com essa nova geração e aprofundando os plots apresentados aqui, a franquia tem todo o potencial para bater de frente tanto com os filmes da Marvel Studios quanto com os da Warner/DC. Os X-Men merecem. E nós só saímos ganhando.


Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.