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Há personagens interessantes o bastante no mundo de Star Wars, mas dificilmente você vai encontrar um mais complexo que Darth Vader, e, quando abordamos a complexidade desse grande vilão, é impossível não lembrar de como Charles Soule trabalhou com ele nos quadrinhos.
É comum ver escritores sem saber muito bem o que fazer com Vader, além de usá-lo como uma personificação do poder do Império. Isso quando não apelam para seu passado como Anakin Skywalker, para mostrá-lo como um Sith atormentado por sua antiga vida como Jedi.
Soule vai além, e tal qual uma criança curiosa que desmonta um brinquedo apenas para montá-lo novamente e descobrir como cada peça funciona, foca no como e por que Vader é o que é, e desenvolve um estudo de personagem interessantíssimo sobre um dos maiores vilões da cultura pop.

Anakin, embora presente no início e no final do run de 26 edições com artes do Giuseppe Camuncoli, não é uma presença determinante nesse estudo de personagem, mas sim uma lembrança de um passado que Vader deixou morrer.
Caminho esse, que em determinados momentos chega a ser acompanhado literalmente em primeira pessoa!

Há eventos de grande relevância no run de Soule, como a história de como Darth Vader precisou matar um Jedi para criar seu Sabre de Luz Sith, a de como ele construiu sua base operacional em Mustafar para descobrir a sua versão da verdade, e como ele montou e treinou seu time de inquisição. O grande foco narrativo, no entanto, está na construção do mito.
É pouco plausível imaginar que Vader se tornou temido do dia para a noite. Assim como todo agente de qualquer cadeia de poder, ele precisou conquistar respeito.
Embora a edição 12 represente muito bem como o Sith construiu o temor em volta de sua figura, ao mostrar ele matando 5 membros das tropas imperiais aleatoriamente como retaliação a um atentado contra sua vida, é a partir da edição 13 que o run mostra como Vader passou a ser respeitado por toda cadeia de poder imperial.

No arco “Mares em Chamas“, temos a apresentação de Moff Tarkin como um governador estrategista, que entende que “o poder de um Império não está no que ele destrói, mas no que controla“. Mesmo que assim como Vader ele use o medo como combustível da opressão, seus métodos são diferentes, por isso, os dois se odeiam.
Quanto à missão do arco, estrategicamente, é interessante para o Império controlar Mon Cala, e os governantes do planeta não são burros para não perceberem que o acordo proposto pelo Imperador é, na verdade, uma oferta sem vergonha de proteção contra a ofensiva do próprio Império, que pretende praticamente tomar os recursos e tecnologia do planeta para reforçar seus equipamentos militares.
Bem, Tarkin foi encarregado de cuidar disso e ele tinha competência para tal. A situação, no entanto, muda de figura quando Palpatine descobre que o rei de Mon Cala está sendo aconselhado por um Jedi sobrevivente da Ordem 66.
Jedi não é do departamento do governador, mas sim do implacável caçador do Imperador, que é enviado para o planeta aquático para exercitar um tipo completamente diferente de diplomacia.

Ao longo das edições, as coisas dão muito errado e Mon Cala acaba entrando em guerra contra o Império, enquanto Vader segue na sua implacável caça aos Jedi presentes no planeta.
Justamente quando o vilão está a poucos passos de encurralar seus alvos, ele é contatado por Tarkin, que prestes a fracassar na sua missão e ficar mal na fita com o Imperador, pede um favor em troca de outro, e Vader cede.
Veja, se há algo que o run de Charles Soule deixa claro até esse ponto é que Vader não gosta de Tarkin, e tem na atividade de matar Jedi uma das razões para ainda querer estar vivo. Se o governador é mesmo um grande estrategista, certamente deveria saber que coisa boa não viria dessa dívida.
A partir daí, nasce o que particularmente acho a melhor e mais completa história já feita sobre Darth Vader: “Terreno Ruim” (edição 18).

Cobrando o favor de Tarkin, Vader pede para ser caçado até a morte em um planeta inóspito, permitindo que o governador monte seu próprio time com quantos caçadores quiser.
A história é toda narrada sob a perspectiva de Tarkin, que se alinha bastante com a que parte do público tem de Vader.
Tarkin se vê como frieza, um adepto da opressão silenciosa, que acredita ser o único a saber que “a verdadeira caçada começa na mente“. Enquanto isso ele vê Vader como uma fera barulhenta, que age muito mais com vontade e força do que com estratégia.
O governador não está de todo errado, mas a história deixa claro que ele interpretou alguns detalhes muito erroneamente sobre o Sith.
A começar pelo fato de que aquele pedaço de churrasco mecanizado já foi um general Jedi. Se existe algo que ele não sabe, definitivamente não é sobre estratégia. Assim, Vader surpreende Tarkin, à medida que mata todos os caçadores, um por um, até sobrar apenas o governador.
No fim da caçada, Tarkin acredita ter vencido quando Vader comete um erro comum dos tempos de Anakin: afobação. Porém, também é enganado pelo próprio ego e sufocado até o limite do que poderia ser sem perder sua vida, somente para aprender uma lição.

Na narração, Tarkin repete algumas vezes que enxerga Vader como alguém cujo único propósito de vida é tirar vidas. Embora o Sith goste muito da atividade, esse não é o seu grande propósito.
Anakin foi um Jedi treinado em tempos de guerra, que pegou gosto por aquilo mais do que deveria. Ele foi fiel à Ordem até ser magoado por ela e se tornar fiel a Palpatine, com quem ainda poderia saciar sua sede por guerra.
Para Vader, nada está acima do Império, e ele reconhece que Tarkin, apesar de ser um desafeto, é importante para o plano do Imperador.

Embora Tarkin narre que tenha chegado perto da morte, duvido muito que Vader sequer cogitou matá-lo, pois em diversos momentos, especialmente no final da batalha, fica claro que o Sith conseguiria eliminar o governador quando quisesse.
Ao poupar a vida de Tarkin, Vader conquistou seu respeito absoluto. Não pelo ato de misericórdia — que não foi o caso, mas por fazer o governador entender que os dois, embora não se gostem, servem ao mesmo mestre e são igualmente importantes para que o Império tenha alguma chance de sucesso no seu plano de domínio galáctico.
Essa é a verdade de Vader, ele não é mau só por querer fazer o mal, mas por achar aquilo que faz certo. Por acreditar que sua tirania é necessária para fortalecer o Império, que por sua vez é necessário para manter a ordem na galáxia.
Como Obi-Wan disse a Luke em O Retorno de Jedi (1983), “as verdades às quais nos prendemos, dependem do seu ponto do vista“.
Essa é a verdade de Vader. Uma verdade miserável, mas ainda assim a que ele escolheu seguir a partir do ponto de vista de alguém que pagou com sangue e lágrimas pelos pecados da Ordem Jedi.

Hoje é bastante difícil atrair leitores para os quadrinhos, principalmente para os de Star Wars. No entanto, considerando que a Lucasfilm leva seu universo compartilhado multimídia muito a sério para não repetir histórias, saiba que você está ignorando uma das melhores coisas já feitas para a franquia caso esteja resistindo a ler o run de Soule.
Mesmo que um dia produzam alguma história solo de Darth Vader em outra mídia, dificilmente veremos um estudo de personagem tão profundo quanto o feito nessa série em quadrinhos.






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