Comentários

Domingo é o dia delas!

Este post é oferecido pela Sky TV – conheça os planos que melhor cabem no seu bolso

É interessante a gente pensar o papel das mães nos quadrinhos de super-heróis. Na maioria dos casos, elas influenciaram um grande papel na construção da personalidade do herói, como o caso de Batman e Martha Wayne, mas que não convivem ou não tiveram chance de conviver com o super-herói e seu alter-ego. Por outro lado, as mães que existem dando apoio ao super-herói, geralmente são as mães adotivas, como o caso de Martha Kent, a mãe do Superman, que em versões recentes, faleceu após o herói revelar sua identidade aos pais. Mas na origem de John Byrne que prevaleceu dos anos 1986 a 2011, Martha Kent sempre foi um bastião da coragem e da ética e da moral de seu filho superpoderoso.

Na Marvel, temos o caso mais notório da Tia May, a mãe adotiva do Homem-Aranha, mas que ele nunca chega a chamar de mão propriamente. Ela também é o porto seguro onde Peter Parker busca ajuda nas horas de aperto, mas ao mesmo tempo se esconde enquanto Homem-Aranha de sua figura materna como se escondesse alguma revelação acerca de sua sexualidade para a anciã.

Homem de Ferro e Capitão América também têm em suas mães um farol na escuridão, mas ambas faleceram durante a adolescência dos dois. Sarah Rogers foi a defensora do pequeno Steve Rogers impedindo que seu pai o maltratasse. Maria Stark também se interpunha entre o pequeno Tony Stark e o poderoso Howard Stark. Não por acaso, quando o milionário crescer, criou a Fundação Maria Stark para financiar as ações dos Vingadores.

Outro filho com uma mãe de nome Sarah, Charles Xavier, também precisava ser defendido dos ataques de seu padrasto e seu meio-irmão, os Marko, até que a mãe dele acabou morta em um incêndio provocado pelos dois sinistros meio-parentes do Professor Xavier. Essa relação de gêneros esquisita em que a mãe suprime a falta de coragem inicial dos super-heróis de enfrentar a vida está bastante relacionado com a figura do “interesse amoroso” nas histórias dos super-heróis, em que eles devem sempre buscar um amor platônico, não realizado.

Uma mãe forte, portanto, nas histórias de super-heróis, confrontativa, parece mostrar que por mais hombridade que seus meninos mostrem quando adultos, eles sempre terão dificuldades em lidar com o poder do gênero oposto. E se apaixonarão por mulheres fortes, que não fogem à luta, como é o caso de Lana Lang ou Lois Lane, Gwen Stacy, Felícia Hardy ou Mary Jane, Moira McTaggert ou a Princesa Lilandra, as Agentes Carter e tantas outras.

As mulheres super-heroínas, parecem ter um outro tipo de relação com suas mães, como no caso da Mulher-Maravilha que apresenta uma relação de sororidade com sua mãe a rainha Hipólita. Ou ainda Jean Grey com sua mãe, Mary, quando precisa enfrentar o domínio da entidade Fênix e recorre da ajuda de sua família.

Um caso dissonante da relação das mulheres super-heroínas com suas mães, é a relação de dominação e defesa estipulada entre Vampira e Mística, sua mãe adotiva. Nesta relação a filha é manipulada pela mãe. Nesse jogo de poder dos gêneros, mais uma vez encontramos a sexualidade embotada em Vampira, que não consegue realizar sua sexualidade e seu romance com Gambit porque todos aqueles que toca, acaba absorvendo seus poderes e suas identidades. Freud explicaria.

Mas parece que a partir da terceira onda do feminismo no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, as mulheres como mães nos quadrinhos passaram a ser percebidas de outra forma. Sue Storm, a Mulher-Invisível do Quarteto Fantástico, foi a primeira super-heroína da Marvel (a primeira da DC Comics foi Mera) a ser encarada como genitora. Isso mudaria bastante a condição das mulheres como mães nas HQs de super-heróis, já que Sue perderia o epíteto de Garota para Mulher-Invisível.

Mas Franklin Richards, o filho de Sue e Reed Richards, era um problema narrativo para os narradores dos anos 1990. Tanto ele quanto Nathan Summers, filho de Ciclope e Fênix. Como se lidava narrativamente com filhos dos super-heróis dos anos 1990? Enviava-os para o futuro e se esperava que eles retornassem para o presente crescidos. Ou ainda, se criava um imbróglio sobre seu desaparecimento, ou pior, sequestroe morte, como no caso da misteriosa filha de Peter Parker e Mary Jane.

As coisas mudaram um pouco quando, nos anos 2000, Selina Kyle, a Mulher-Gato, ganhava a pequena Helena, filha de um vigilante soturno de Gotham City que não era o Batman. Mas Helena seria como um gatilho para situações de vulnerabilidade ao estilo “interesse romântico” em tempos passados. Selina teve de doar sua bebê para a adoção, pois não conseguia conciliar sua vida de mãe com o de criminosa, da mesma forma como ela também não consegue concretizar seu romance com Batman. Freud explicaria e Winnicot também.

As coisa vinha mudando para as mães super-heróínas. Viriam a Justiceira pela DC Comics e a Mulher-Aranha pela Marvel. Até a vilã Thalia com seu engendrado filho Damian Wayne, o Robin. Mas foi Lois Lane, o mais platônico dos amores platônicos dos super-heróis que viria fazer a “virada materna” nos comics de super-heróis estadunidenses. A forma como os escritores trabalharam a relação entre Lois, Clark e Jonathan, o Superboy, foi inédita, principalmente criando um arco de origem para o herói mirim junto à construção narrativa de uma família tão sólida quanto os Kents originais, Martha, Jonathan e o pequeno Clark. Com a diferença que agora o filho era legítimo e não mais adotado. E tinha um pai presente, tão forte e radiante quanto a mãe. Um pai super e uma mãe ainda mais super, só que sem poderes.

Todos deviam ter o direito de ter uma família nuclear, em que seus pais, sejam eles pai e mãe, mãe e mãe, pai e pai fossem supers. Adotivos ou legítimos. Afinal, mãe (e pai) é quem cria, quem dá força, quem sustenta e nos faz um dia querer seguir seus passos para fazer desse mundo um lugar melhor. Um lugar super.

Nossa homenagem às mães e às super-mães neste dia tão especial.

Guilherme "Smee" Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, redator e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. Entre seus quadrinhos publicados estão Desastres Ambulantes, Sigrid, Bem na Fita e Só os Inteligentes Podem Ver.