
O site CBR conversou com o editor e senior vice-presidente de publicação da Marvel, Tom Brevoort, sobre a polêmica envolvendo o título “Captain America: Steve Rogers” #1 escrito por Nick Spencer e desenhado por Jesus Saiz, que revelou que Steve Rogers – amado ícone patriota – é um agente secreto da Hidra. De acordo com uma sequência de flashback, ele sempre foi.
O momento foi chocante e a Marvel soube guardar bem o segredo até a edição sair nas bancas. Porém, isso fez com que os fãs começassem uma onda de discussões, protestos e revoltas. O editor aproveitou para comentar o fato e comparar com eventos como o retorno de Bucky (em Soldado Invernal), a fase do Homem-Aranha Superior e outros títulos. Confira:
Albert Ching: A surpresa no fim de “Captain America: Steve Rogers” #1 definitvamente dominou as conversas sobre quadrinhos nesta semana – uma semana em que tivemos outras grandes revelações da DC Comics. Você e Nick Spencer fizeram uma tonelada de entrevistas depois disso. Você ficou surpreso com o interesse da imprensa após a revelação?
Tom Brevoort: Eu acredito que nós sabíamos que existiria uma reação, mas ninguém iria prever o tamanho dela. É realmente parecido com o que ocorreu há 10 anos, quando matamos o Capitão América. Estamos recebendo o mesmo tipo de email e cartas que recebemos há 10 anos. A diferença é que antigamente tinha muito a palavra “assassinou” e agora temos “Hidra”. Mas é praticamente o mesmo tipo de coisa. Muitos emails estão vindo de gente que não lê quadrinhos, mas é fã dos filmes, também recebemos de gente que só coleciona action figures. Eles possuem uma visão mais limitada do que está acontecendo nos quadrinhos, pois eles só sabem o que ocorreu através de notícias ou pelo que ouviram dos amigos. É o que gera um número tão grande de pessoas chateadas, mas eu acredito que a história que estamos contando é algo que vale a pena terminar.
Houve reações de outro tipo, daqueles que ficaram realmente surpresos, chateados ou furiosos com a história. Eu li várias interpretações sobre pessoas que conectam a Hidra com os Nazistas — principalmente por causa dos filmes da Marvel Studios — e agora estão preocupados que o Capitão América representa uma figura nazista. Qual sua reação sobre isso?
Brevoort: Certamente vimos esses casos. Muitos dos emails que recebemos, além de cartas, são de pessoas que possuem sentimentos legítimos sobre o caso. A situação inteira mostra como a informação é consumida e espalhada nesses dias. O real conteúdo do quadrinho e a revelação que traz o Capitão América dizendo “Hail Hydra” no fim da edição é o que faz com que as pessoas pensem que o Capitão é nazista, racista ou antissemita. Esta é uma preocupação real do mundo real. Mas não é nada que iremos usar na nossa história.
É muito similar com o que o Capitão América de Rick Remender sofreu. Pessoas insistiram que Sam Wilson fez sexo com uma menor de idade, apesar do fato de vermos a idade da personagem naquele quadrinho. Pessoas ficaram chateadas, fizeram muito barulho, sem ter toda a informação da história. Quando eles viram o conteúdo da hq, perceberam que não era nada daquilo.
Eu entendo este tipo de resposta. Eu não posso dizer que estou pronto para isso, afinal, eu nunca pensei que as pessoas achariam que iríamos transformar o Capitão América em um antissemita. Mas devo dizer que tais acusações são baseadas em especulações. A Marvel nunca iria apoiar uma figura antissemita. Se as pessoas pensarem que é isso que estamos fazendo, é uma questão delas, mas existe uma história para ser contada e este será nosso desafio.
Claramente existe muita história para contar — e na sua posição, como alguém que já ouviu de tudo na sua carreira na Marvel, você é uma pessoa complicada para se convencer com um conceito como este? O que te conectou a esta história? O que te convenceu de que valeria a pena fazer?
Brevoort: Eu sou mais fácil de se convencer do que era há 15 anos atrás. Talvez eu esteja mais flexível do que era. Não especificamente para esta história, mas em geral. A história que eu sempre conto, de uns dias pra cá, é que um ou dois anos antes de Ed Brubaker assumir Capitão América e fazer a saga do “Soldado Invernal”, houve outra equipe que estava trabalhando no título e quis trazer o Bucky de volta. Eu fui contra — eu falei ‘Isto não funciona, é terrível’. Joe Quesada gostou da ideia de trazer Bucky de volta — conversamos sobre isso e eu comecei a gritar com ele e ele comigo. Não com raiva, mas de forma apaixonada, enquanto discutíamos os nossos pontos de vista. Esta história acabou não saindo.
Porém, Ed veio e quis fazer o Soldado Invernal. Eu já tinha brigado tanto com Joe que eu perguntei: “Ok, existe alguma forma de fazer isto funcionar? Aqui estão minhas perguntas, Ed…” Eu enviei um email como leitor de quadrinhos e perguntei tudo que eu queria saber. Fiz umas quinze perguntas. Elas começavam de coisas bem simples como “Como ele ainda está vivo?” para “Já se passaram 80 anos, como traremos um cara velho de volta??”, “Como isso irá viciar os leitores?? O que fará disso algo melhor do que a tragédia da morte de Bucky? Como isso irá afetar o Capitão? Ed pegou todas as perguntas e me telefonou. Ele me explicou todos os detalhes, todos os seus planos, depois da ligação, eu disse: “Bem, OK, eu acho que iremos fazer isso”.
As pessoas se preocupam com esses personagens. Pessoas sentem que eles são próximos delas. Eles realmente os abraçam com todo o coração. É óbvio que nós também sentimos as mesmas coisas — mas os fãs possuem uma resposta mais emocional. Isto pode ser algo complicado em histórias que mudam um personagem, foi o caso de “Homem-Aranha Superior” — em que vários leitores odiaram a ideia de matarmos Peter Parker e colocarmos Octopus no lugar. Daí começamos a receber emails do tipo “Homem-Aranha está estuprando Mary Jane, pois ela não sabe que ele é o Octopus, isto é terrível, a Marvel está promovendo sexo não consensual.” A história não foi assim e eu entendo os temores dos fãs, eles amam Peter Parker e tinham medo que ele se fosse para sempre.
Assim que a história estava acabando e alguns sites vazaram o fim, as pessoas falaram coisas do tipo “Wow, esta foi a melhor história que já vi, que montanha-russa.” As pessoas ficaram mais confortáveis com a história, pois elas sabiam que no final, daria tudo certo. Alguns levantaram o argumento: “Pessoas querem spoilers. Eles querem saber como as coisas acabam”. Eu não acredito nisso. Eu acho que é uma falácia usada por pessoas que querem ganhar dinheiro com essas coisas. Mas existe uma verdade na ideia: as pessoas ficam tão ligadas emocionalmente com esses personagens, que elas só ficam tranquilas quando descobrem que tudo irá terminar bem.
Este é um ponto interessante, é ótimo ter pessoas que possuem reações reais para mudanças desse tipo, mas ao mesmo tempo, um leitor mais cínico diz: “Qual é, isto é uma história de heróis, a história continua andando, esta não é a última imagem que veremos do Capitão América.”
Brevoort: Certo, em termos de narrativa, eu fico feliz que as pessoas acreditem e invistam nos nossos personagens, é o que queremos. Você não quer colocar uma história nas bancas e ver as pessoas virando o rosto e dizendo: “é apenas temporário”. Este cinismo não ajuda ninguém. Eu amo o fato de que as pessoas se envolvam com as histórias que estamos contando — elas estão vivendo aquelas histórias com os personagens, aproveitando cada momento, porque eles significam muito para elas. Mesmo se eles já experimentaram este tipo de história antes. Eu acho maravilhoso que esta história esteja deixando as pessoas tristes, tal fenômeno é a coluna do nosso negócio. Nós estamos contando histórias do Capitão América desde a década de 40 e isto é algo incrível, pois até hoje, temos gente que investe no personagem.
O mesmo aconteceu com o filme, antes mesmo de estrear, muitos já especulavam sobre o final, se ele viveria, se ele morreria, o que iria acontecer. Este sentimento de antecipação, tensão, é algo que queremos manter. Pessoas não sabiam o que iria acontecer no filme e nem se o personagem preferido delas iria sair ileso.